Até quando vai a temporada de IPOs?

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A oferta inicial de ações (IPO) da BR Distribuidora na sexta-feira cravou 2017 como um ano histórico para as empresas que sonhavam em tocar a campainha da bolsa. Ao mesmo tempo, o IPO mostrou que a euforia outrora vista com as novatas na bolsa se exauriu.

As ações da empresa, que é a maior distribuidora de energia do país, foi precificada no piso da faixa, 15 reais, e fechou o primeiro dia na bolsa com alta de 6,66%. As empresas que estrearam esse ano na bolsa acumulam alta de 10,6%, 10 pontos abaixo do índice Ibovespa, que acumula alta de 20%.

Ao longo do ano foram nove IPOs; dez, se incluir o da rede de fast food Burger King, que chega à bolsa na próxima segunda-feira. No total, o volume das ofertas no ano foi de 37,6 bilhões de reais – o maior visto na bolsa desde 2010. Chegar a este valor, no entanto, não foi das tarefas mais simples. Ações como a da varejista Carrefour, a da locadora de veículos Movida e a da BR Distribuidora foram precificadas no piso da faixa indicativa. Mesmo assim, há uma fila de empresas esperando para convencer os investidores no próximo ano.

Duas questões se impõem. Afinal, o que explica tantas aberturas de capital, de um lado, e um desempenho abaixo da média para as novatas, de outro? E até quando a porta dos IPOs continuará aberta em 2018, um ano que será dominado pelas eleições?

O banco Bradesco BBI estima que nos primeiros quatro meses do ano 11 empresas estreiem na bolsa, movimentando 14,5 bilhões de reais. Se somados os follow-ons (ofertas subsequentes de ações) previstos, o valor chega a 18 bilhões de reais. “Há uma variedade grande de setores tanto neste ano quanto no próximo. Isso mostra o otimismo dos investidores em geral, algo que não víamos há muito tempo”, diz Leandro Miranda, diretor do banco de investimento Bradesco BBI.

Entre os candidatos já conhecidos para ir à bolsa no primeiro semestre estão a empresa de telecomunicações Algar, a farmacêutica Blau, a varejista de artigos esportivos Centauro e a varejista de brinquedos Hi Happy. O ano de 2017 traz algumas pistas do que estas ou outras empresas devem enfrentar.

“O otimismo com o cenário brasileiro vai continuar. O contexto econômico no Brasil e no mundo é positivo”, diz Antonio Pereira, diretor de investment banking do Goldman Sachs no Brasil. A expectativa de economistas consultados pelo boletim Focus é que a economia brasileira cresça 2,6% em 2018. Queda do desemprego, retomada de crédito e desalavancagem das empresas estão na lista de melhorias que devem continuar contribuindo para a melhora do mercado de capitais e, com isso, facilitar a entrada de novas ações.

O apetite dos estrangeiros

Os investidores estrangeiros, que responderam, em média, por 50% das ofertas de ações no Brasil devem continuar trazendo seu dinheiro para papéis brasileiros. O cenário de juros baixos e crescimento moderado de países emergentes torna o investimento propício. Atualmente, os fundos de mercados emergentes têm 7,6% de suas alocações em ativos brasileiros. O patamar ainda está muito longe dos 15% visto entre os anos de 2008 e 2011. Entre os fundos focados em América Latina, a alocação no país é de 56,2%, ante o patamar de 65% de sete anos atrás. “Conversamos com gestores o tempo todo e vemos que há um interesse por mais ativos brasileiros, para aumentar a alocação”, afirma Miranda, do BBI.

A visão é corroborada por uma pesquisa do banco UBS com investidores estrangeiros que mostra que um quarto deles acredita que o país deve ter o melhor desempenho econômico entre os emergentes. “O Brasil é o mais bem colocado nesta pesquisa. Ao mesmo tempo, quando perguntamos quem tem mais chances de ter o pior desempenho, o Brasil aparece como último”, afirma Daniel Bassan, diretor do banco UBS no Brasil. Para ele, os investidores americanos e europeus devem representar entre 60% e 70% da participação nas ofertas de ações.

O risco das eleições

Se o cenário para o início do ano de 2018 parece movimentado, é difícil saber o que virá depois disso. Se em condições normais de temperatura e pressão o período eleitoral traz, historicamente, maior volatilidade para ações e aberturas de capital, em um ano que, por enquanto, se tem baixíssima visibilidade do cenário e o mercado aguarda um nome que possa realizar reformas torna o processo ainda mais arriscado.

“Se nós tivermos uma claridade dos candidatos e houver uma propensão à manutenção da política econômica atual, podemos ter espaço para IPOs durante o processo eleitoral. Se não, devemos ter um período marcardo principalmente por follow-ons”, diz Miranda. No segundo cenário, o follow-on levaria vantagem por ofertar empresas já conhecidas e acompanhadas pelos investidores.

Assim como o mercado de follow-on, o mercado de emissão de dívidas pelas empresas brasileiras deve crescer (mesmo em período eleitoral). No cenário local, a emissão é facilitada por apetite de fundos de pensão e gestores que precisam variar os investimentos para obterem grandes mesmo com a queda da taxa de juros. No cenário externo, o lento avanço dos juros americanos contribui para empresas brasileiras que querem emitir bonds para alongar suas dívidas.

O desempenho das empresas que chegaram ao mercado este ano mostra que não há um frenesi com as novas empresas, como foi visto em anos como 2007 e 2010. Na média, as ações subiram 10% desde a estreia na bolsa, mas a disparidade de desempenho revela que investidores estão mais atentos aos fundamentos de cada negócio do que ao momento do mercado. “Quando uma empresa ingressa na bolsa, os primeiros doze meses são críticos. Todo o mercado está atento para ver se ela vai cumprir os resultados esperados”, diz Pereira, do Goldman Sachs.

Das nove empresas que abriram capital, seis são negociadas acima do valor do IPO enquanto três estão abaixo. Há casos como o do laboratório Hermes Pardini, que subiu 63% desde fevereiro, e da farmacêutica Biotoscana, que caiu 23,9%.

“Mesmo com o interesse pelo Brasil, os investidores estão críticos. As empresas precisam manter o bom desempenho no balanço. Algumas ainda não entregaram o que prometeram. Mesmo assim, cada caso é um caso e não dá pra comparar com o que o Ibovespa performou em um ano, porque elas estão há menos tempo”, afirma Miranda.

A visão mais crítica dos investidores em relação às empresas brasileiras é corroborada também pelo cancelamento de IPOs vistos neste ano. A locadora de veículos Unidas, a operadora de plano de saúde Notre Dame Intermédica, a empresa de tecnologia Tivit e, nesta semana, a empresa de energia Neoenergia desistiram de ofertar suas ações por não conseguirem o preço que queriam. Essas empresas não se manifestaram sobre uma nova tentativa de acessar o mercado. A temporada dos IPOs, ao que tudo indica, continuará aberta nos próximos meses, mas não é para todo mundo.


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