Como ser um bom parceiro para alguém que sofreu trauma sexual

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Matéria originalmente publicada no Tonic .

“Lindsey, você já sofreu um ataque sexual?”

Essa pergunta foi como um soco no estômago. A pior parte é que veio de uma cliente com quem eu estava numa sessão de coaching de saúde. Tínhamos começado a trabalhar mais fundo para apontar de onde os problemas alimentares dela vinham. Depois de semanas trabalhando para achar a raiz, ela me disse que tinha sido atacada sexualmente quando criança e usava comida para ganhar peso e mascarar seu corpo dos homens. Ela compartilhou algo muito traumático comigo e acho que estava procurando reciprocidade.

Essa foi a primeira vez que realmente admiti em voz alta que, sim, eu tinha sido atacada. Depois daquela sessão, as emoções arrebentaram quando lembrei como foi ser estuprada por um cara com quem eu estava saindo aos 17 anos. Vendo que eu não lembrava de nada daquela noite, ficou claro que eu tinha bloqueado isso da minha memória o quanto pude. Minhas lembranças daquela noite não emergiram até cinco anos depois. A pergunta direta da minha cliente e meu desejo de ser honesta me obrigaram a encarar a realidade do que tinha acontecido comigo.

Nas semanas seguintes, vi minha ansiedade aumentar, e até comecei a ter flashbacks. Minha autoestima foi atingida e eu me sentia desconfortável no meu corpo, como se estivesse manchada. Isso tudo aconteceu uns seis meses depois que comecei a sair com alguém novo — o homem que mais tarde se tornaria meu marido.

Comecei a notar mudanças no meu comportamento. Se meu namorado me tocava pelas costas por trás, eu pulava. Se ele bebia uma cerveja e tentava me beijar, eu ficava com raiva. Meu desejo sexual estava no nível mais baixo, principalmente porque eu sentia nojo de mim mesma e do meu corpo. Como meu comportamento mudou da noite para o dia, decidi compartilhar com ele o que tinha acontecido e como eu estava me sentindo recentemente. Felizmente, ele me deu espaço para falar sobre meus sentimentos e nunca validou a ideia destrutiva de que tinha sido culpa minha.

“Antes de começar a ver alguém novo depois de um ataque sexual, é melhor falar com um profissional de saúde mental sobre como você está se sentindo” — Stephanie Mclver

Quando aceitei o que tinha acontecido comigo, decidi que devia procurar ajuda profissional para garantir que tivesse o tempo necessário para me curar de algo que eu tinha bloqueado da minha memória por tanto tempo.

Antes de começar a ver alguém novo depois de um ataque sexual, é melhor falar com um profissional de saúde mental sobre como você está se sentindo, diz Stephanie McIver, psicóloga e diretora de serviços de aconselhamento da Universidade do Novo México, nos EUA. “Trabalhe com alguém que possa te ajudar a identificar questões de segurança e confiança com alguém novo”, acrescenta. “Estabeleça segurança e confiança em alguém antes de dar a informação sobre sua experiência com ataque sexual, para que você possa compartilhar seus pensamentos sobre isso — e o que você precisa de um novo parceiro para continuar se sentindo segura.”

Para quem quer ser um bom parceiro para alguém que passou por esse tipo de trauma, saiba que os sintomas de transtorno de estresse pós-traumático da pessoa podem surgir a qualquer momento, então é importante entender como reagir com respeito e sensibilidade. McIver compartilhou várias dicas para quem quer ser um parceiro que apoia uma pessoa que experimentou um ataque sexual.

Comunicação é a chave

Isso inclui comunicação verbal e não-verbal, então ouvir alguém é tão importante quanto compartilhar pensamentos e sentimentos. Também é importante garantir que a pessoa que sofreu o trauma te aborde e fale sobre isso em seus próprios termos. Tente não pedir detalhes, mesmo se você acha que eles podem te ajudar a entender. Quem sofreu um ataque pode achar difícil confiar em outras pessoas. Uma comunicação forte pode garantir que você dê espaço quando a pessoa precisar, e pode equipá-la com o que ela precisa para se sentir confortável.

Crie diretrizes para o sexo

Pode não ser uma conversa divertida, mas não tem como contornar. Seja você casado, solteiro ou num relacionamento, sexo precisa ser totalmente consensual. Parece uma coisa óbvia, mas você ficaria surpreso. Na primeira vez que meu marido tentou me beijar, ele perguntou se podia. Fiquei grata por isso porque me senti imediatamente respeitada e segura. Eu disse “sim”. McIver diz que se você não ouvir um “sim”, “por favor”, “claro” ou “vamos...” afirmativo, então pode haver ambivalência ou recusa. “Seu trabalho não é convencer ou coagir seu parceiro para querer contato sexual.”

Como vítima de um ataque sexual, às vezes eu ainda tenho alguns gatilhos. Quando meu marido e eu começamos a sair, ele bebia casualmente com os amigos. Eu não bebo, em parte por causa do estupro. Bebi um drinque no dia em que fui atacada e acordei sem lembrar de nada. Mais tarde, descobri que tinha sido drogada. Beber em si nunca me incomodou, mas beber e ter intimidade sim. Então minha diretriz é que nunca quero fazer sexo depois que ele bebeu. O cheiro de álcool no hálito dele já podia ser um gatilho para mim, então era melhor se só fizéssemos sexo sóbrios.

Segundo McIver: “Com sobreviventes de ataque sexual, coisas assim podem ser uma renovação do trauma e prejudicar a confiança e a sensação de segurança que existiam antes. Deixe seu parceiro te dizer, e pergunte, sobre atividades sexuais ou tipos de toque que podem ser um gatilho”. Crie diretrizes com seu parceiro e as mude conforme vocês acharem melhor no futuro.

Encontre intimidade além do sexo

Toque físico é uma parte importante da intimidade, mas não é tudo. Em The 5 Love Languages, o autor Gary Chapman compartilha como as pessoas podem mostrar suas emoções de cinco maneiras diferentes, incluindo toque, atos de serviço, palavras de afirmação, passando tempo juntos e com presentes. Sexo é só um jeito de ter intimidade com seu parceiro. O jeito como seu parceiro escolhe comunicar seu afeto é um aspecto importante da personalidade dele para explorar, especialmente se a pessoa sofreu trauma sexual.

Meu marido é muito bom em toque físico e palavras de afirmação. Quando eu estava me curando e entendendo melhor meu trauma reprimido, eu não estava confortável com nenhuma forma de toque físico, então ele explorou outras maneiras de mostrar seu afeto que eram meio diferentes para ele, como fazer coisas pela casa (minha “linguagem do amor” inclui atos de serviço). Ele me deu tempo para processar e me curar enquanto ainda mostrava que se importava comigo.

Busque empatia

Pode ser difícil para alguém que experimentou um ataque sexual se sentir confortável o suficiente para compartilhar sua história. A melhor coisa que você pode oferecer é compaixão e empatia sem julgamento ou resistência. Reconheça quão difícil deve ser para alguém compartilhar essa informação. Não questione a história da pessoa, nem faça perguntas inapropriadas como “o que você fez para isso acontecer” ou o que a pessoa estava vestindo. “Declarações assim indicam ignorância com nossa cultura do estupro e sobre como as vítimas precisam ter feito algo para o estuprador atacar, e ignorância sobre como nosso sistema é antagonista com os sobreviventes, tornando a queixa indesejável e recurso legal improvável”, diz McIver.

Saiba se e quando terminar

E respeite seu parceiro se ele ou ela pedir um tempo. Términos já são difíceis por si só. Não tem um jeito fácil de terminar algo que teve sentido, mas todo mundo tem razões diferentes para querer terminar um relacionamento. Se seu parceiro quer terminar, você pode não entender o porquê, mas é a prerrogativa e o processo de cura dele ou dela, diz McIver.

Mais importante, vítimas de ataque precisam nutrir autocompaixão. Se curar de um trauma é uma jornada, então apoie seu parceiro no processo de cura, seja lá como esse processo seja para ele ou ela.

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