"Ser maker é ter um grande tesão pelas coisas": uma conversa com Rita Wu

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Para a arquiteta, designer e pesquisadora Rita Wu, acomodar-se no mundo não é uma opção. Ela prefere questionar, ir além do óbvio e, dentro do possível, quebrar e transformar aquilo que está ao seu alcance. Experimentar tudo é seu lema de vida, ainda que role um perrengue ou outro no meio do caminho. Indisciplinar por natureza, como ela mesma gosta de falar, Rita é uma mulher que vai contra a maré, custe o que custar.

Entre encontros e desencontros, a pesquisadora descobriu um norte no movimento maker. Para além de invenções tecnológicas e futuristas, essa cena traduz a inquietude criativa e crítica de Rita, que apresenta a nova série da VICE em parceria com a Petrobras, Remake. Em cada episódio, ela participará, ao lado de outras mentes furiosas, do desenvolvimento de novos projetos, transformando o banal em algo completamente novo.

Afinal, esse é o grande lance dos makers: criar com um senso coletivo, acima de tudo. Batemos um papo com Rita sobre o movimento maker no Brasil, tecnologia, sexualidade e tudo o que rola nessa cena de questionadores e experimentadores do mundo.

Vem saber mais:

VICE: Quando você começou a se interessar e se envolver com a cultura maker?
Rita Wu: Tudo começou quando passei no curso de Arquitetura. Tinha estudado outras coisas e desistido, mas na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) pude aprender a desenvolver projetos, de qualquer tipo e escala, o que hoje vejo como uma das coisas mais importantes da vida, que nada mais é que uma sucessão de diferentes projetos.

Logo no início me identifiquei com a função social do arquiteto e como a programação do espaço é essencial para a ativação de tudo que ocorre nele. Já no começo, fui trabalhar com habitação social e vi que a replicação de projetos era mais um problema político que arquitetônico. Apesar da frustração, encontrei o design paramétrico e, consequentemente, a fabricação digital.

A partir daí, passei a me interessar em como as tecnologias, principalmente as digitais, poderiam nos ajudar na resolução de problemas, até mesmo políticos. Nesse sentido, vejo uma grande potência no movimento maker que, para além do hype, nos ajuda a desconstruir paradigmas antigos de formas de produção, consumo e educação, que ajuda os cidadãos a entenderem o poder que já possuem, dando ferramentas para que possam se empoderar por conta própria.

A gente pode dizer que o brasileiro é maker por natureza?
Certamente. Quanto mais necessidade a gente passa, mais criativo a gente fica, já que temos que dar um jeito para resolver os problemas do cotidiano. Aqui é a criatividade pela necessidade, uma questão de vida mesmo. E o maker resgata esse lance que o brasileiro tem com as gambiarras, por exemplo, de fazer o que está ao alcance, de fazer muito com muito pouco. Isso é ser maker, é dar solução rápida ao que importa, e não apenas uma questão de criatividade pela criatividade.

“O maker resgata esse lance que o brasileiro tem com as gambiarras, por exemplo, de fazer o que está ao alcance, de fazer muito com muito pouco.”

Acredito que o movimento aqui só não explodiu ainda porque temos dificuldade em olhar para dentro e valorizar o nosso próprio desenvolvimento, que é específico para nosso contexto e realidade. Precisamos parar de importar modelos gringos, olhar para o nosso passado, antes mesmo de sermos colônia, e resgatar nosso senso de comunidade.

Mais do que o D.I.Y ( do it yourself), o movimento maker tem essa pegada do D.I.T ( do it together), que é o que realmente importa. É entender que ninguém é nada sozinho, que deve existir um respeito profundo pelo conhecimento comum e pelas coisas. Quando o movimento for entendido dessa forma, ele pode se tornar revolucionário.

E você passou por muitos perrengues desde que resolveu entrar de cabeça nesse rolê?
Olha, posso dizer que sim. Vim de uma família chinesa tradicional, meu pai é acadêmico, então rolaram sofrimento e frustração nessa caminhada. Quando o básico seria eu me formar bem, conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro e poder consumir, ao longo do tempo fui me afastando desse percurso. Fui me tornando cada vez mais “indisciplinar”, me desencontrando, me perdendo, me desviando, me reencontrando e por aí vai.

Tive altas crises ao tentar romper uma lógica que já estava pré-estabelecida, mas hoje vejo que aprendi muito. O maker, afinal, é uma pessoa que vai experimentando e questionando tudo ao redor, que não se contenta com o conforto, com o dado pronto, com o fechado e que sempre dá um jeito de fazer diante das adversidades.

E seus pais, Rita? Lidaram bem com tudo isso ou pesaram um pouco?
Ah, eles ficaram um pouco desapontados, sim. Eles começaram uma vida do zero aqui no Brasil, passaram por muitas dificuldades e tal, então rolava uma angústia quando eles me viam desistindo das coisas. E tudo o que era padrão, que as pessoas achavam incrível, eu rejeitava e caía fora. Mas tive sorte porque, ainda assim, eles me apoiaram muito, em toda decisão. Só ficavam preocupados com o meu futuro, como eu ia me virar.

E, no fundo, eles estavam meio certos. Minha família é basicamente composta por médicos e engenheiros, e eu fui para as artes e humanas. Era certo que eu iria passar por dificuldades financeiras. De fato, é difícil acordar e não saber se vai dar para sair de casa, porque a grana tá curta. É uma batalha diária quando se tenta ir contra a maré, ou marés de diversos tipos.

"Mais do que o D.I.Y ( do it yourself), o movimento maker tem essa pegada do D.I.T ( do it together), que é o que realmente importa. É entender que ninguém é nada sozinho, que deve existir um respeito profundo pelo conhecimento comum e pelas coisas."

E qual é a melhor parte do movimento maker? A melhor parte é sempre a mesma, as pessoas! Tive sorte de encontrar uma galera brilhante nessa jornada, adentrando em diferentes grupos e fazendo coisas legais, juntos. E esse é o ponto estruturante da cultura maker, que é a colaboração. É o que faz com que os projetos sejam incríveis, quando todo mundo se dispõe a aprender e desenvolver junto, se somando.

Esse fazer, principalmente quando compartilhado, faz com que tenhamos mais respeito pelo conhecimento obtido até aqui, pelos objetos, pelas pessoas que os fizeram e pelas criações. Acho que é por isso que, por aqui, a cultura maker ainda não é muito forte, porque nós não temos esse senso de comunidade enraizado na gente, com algumas exceções. Não é que nós não o temos, nós o perdemos...

Queria falar agora de uma iniciativa sua, o grupo Technoporn, no Facebook. Como surgiu essa ideia?
O Technoporn surgiu desses meus questionamentos em relação à vida e a reprodução da vida, ou seja, sexo e sexualidade. Anteriormente tinha desenvolvido um projeto, o Relationship Design, no qual eu literalmente projetava e programava relacionamentos, de todos os tipos, para serem executados pelas pessoas. Uma forma irônica e conceitual de encarar o que mais importa na nossa vida, que são as relações que criamos. Afinal, tem designer pra tudo, por que não para relacionamentos?

Sendo assim a mediação de tais relacionamentos e intimidades, pelas tecnologias digitais, químicas e biológicas, principalmente, acabaram me levando a querer compartilhar o encontrava sobre o assunto, e por isso criei o grupo.

Como foi?
A ideia era pensar como fazer da nossa vida algo mais prazeroso, afetivo em todas as esferas. Hoje nós quase não sentimos prazer com nada, nem com a água quente tocando a pele na hora do banho, nem com o que comemos, geralmente em dois minutos! Vivemos numa nóia temporal que não deveria existir, que tira a nossa consciência no fazer, não interessa do quê. No fim, para “ganhar tempo”, perdemos tempo.

Foi quando eu entendi que as formas de sentir são tão variadas e intensas, mas a gente fica preso a padrões. E essa descoberta tem tudo a ver com os makers, que são pessoas que têm um desejo real por algo, a vontade de fazer e um prazer imenso pelo desenvolvimento da coisa. No meio disso tudo, está a tecnologia, que está aí para melhorar a nossa vida. Então, ser maker não é só inventar e fazer as coisas, mas também repensar os processos que mediam as nossas relações com as pessoas, discutir o prazer e o desejo não só numa lógica sexual, mas em tudo. Ser maker é ter tesão pelas coisas e muito respeito pelo processo.

Muita gente tem repensado o papel - e o poder - que a tecnologia tem nas nossas vidas. Ela chega a ser um pouco vilã?
A tecnologia não é vilã, não é nada sozinha, apenas uma invenção nossa. O vilão da história sempre é o mesmo, o ser humano e o que ele faz com essas invenções, para o bem e para o mal. O problema é as tecnologias surgiram primeiro para a guerra, afinal, a história da humanidade é uma constante briga por territórios, de todos os tipos.

A consequência disso é que muita gente acaba tendo medo da tecnologia, tanto por desconhecimento como também porque o uso não é democratizado. Além disso, sabemos o quanto é difícil mudar a forma como encaramos a vida, principalmente quando essa forma era antes inexistente. Por exemplo, quando pensamos no futuro e no fato de que os robôs vão roubar nossos empregos. Há um pânico geral, mas isso porque as pessoas pensam na mesma lógica desde antes da Primeira Revolução Industrial.

Precisamos ainda desejar os mesmos empregos ou podemos evoluir e pensar em outras formas de trabalho, produção e consumo? Nesse aspecto, o movimento maker tem um papel importante, que é ajudar a pensar outras formas de vida. É por isso que eu digo que os makers vão muito além da questão da tecnologia em si. É um modo de vida.

Você acha que a cultura maker é empoderadora?
Sim, não no sentido de conceder poder, mas de mostrar que esse poder já é nosso, e que apenas nos fazem acreditar no contrário. Acho que ela só não é mais forte porque ainda temos o velho problema da distribuição, de informação, acesso, inovação e renda. Mas tá rolando uma iniciativa bem legal da Prefeitura de São Paulo, que tem 12 Fab Labs públicos e gratuitos pela cidade, ajudando os cidadãos no mais importante e mostrando que eles também podem criar. Esse é o legal da educação maker; por meio da criação das próprias ferramentas, descobrimos como resolver a vida, ou seja, desenvolver projetos. É aí que está a chave, mudar a forma de experiência com a educação, que pouco mudou desde a Idade Média.

É por isso que a cultura maker com foco em educação tem um potencial empoderador e transformador. Não é só criar um laboratório e oferecer aquilo aos alunos como uma substituição aos laboratórios de informática. É mudar a forma como eles aprendem, mostrando o poder que a aprendizagem colaborativa e ativa tem nas pessoas, lembrando que o mais importante são as pessoas, não a tecnologia.

E as mulheres têm o devido espaço e reconhecimento no movimento maker?
Se pararmos para pensar que elas são as genitoras do mundo, não há nada mais maker do que a mulher! Ao meu ver, elas têm mais espaço nesse movimento do que em outros, que também estão relacionados a questões de inovação tecnológica. Mas onde tem tecnologia, tem poder, e os homens ainda dominam isso.

Mesmo assim, as mulheres estão no movimento, que é bem menos sexista que outros. Ao meu ver, o maker puxa muito para esse lado corporal, de colocar a mão-na-massa, e aí elas têm uma vantagem. A mulher se coloca com o corpo com mais força e tem desenvoltura e paciência para trabalhos manuais, que requerem cuidado. A lógica do fazer maker é diferente e demanda um respeito pela matéria que é muito natural, eu diria que é materno.

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