Por dentro das luxuosas festas de divórcio do povo beidane

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Matéria originalmente publicada na VICE Arábia.

Uma mulher coberta em tatuagens de henna comemorativas é cercada por uma multidão alegre de familiares e amigos. À primeira vista, a cena diante de mim lembra um tradicional casamento marroquino. No entanto, o noivo não vai chegar porque a estrela dessa festa não é a noiva no dia do seu casamento, mas uma mulher divorciada voltando para a casa de sua família.

Festas de divórcio são um ritual comum nas comunidades beidane – um grupo étnico com mais de 100 tribos, espalhadas pelo sul do Marrocos, Argélia, Mauritânia, Mali e norte do Senegal. Apesar dos beidanes viverem entre fronteiras de cinco países africanos, isso não impediu a comunidade de milhões de pessoas de manter seus antigos rituais e tradições vivos.

Uma mulher chega à sua festa de divórcio no Saara Ocidental.

Segundo o Dr. Bouzid Al Ghaly, pesquisador do centro Alem e Omran em Rabat e especialista na cultura beidane, o evento foi originalmente criado para mostrar que o divórcio não era o fim do mundo; e sim um período de transição que pode levar a uma nova vida e possivelmente outro casamento. Também é um jeito de celebrar as mulheres — de reiterar que elas têm valor independente de serem casadas ou divorciadas. Além disso, no passado, num tempo em que a comunicação entre grupos e famílias era mais difícil que hoje, essas festas eram elaboradas como um jeito de anunciar para outras tribos que a mulher estava pronta para casar de novo. Para realmente entender o significado do evento moderno, falei com três mulheres – que pediram que eu usasse só seus primeiros nomes — sobre o que festas de divórcio significam para elas.

Depois de dois anos de casamento, Fatemato, 70 anos, voltou para a casa da família na cidade marroquina de Smara, junto com a filha. Ela nunca foi culpada pelo fracasso do casamento, como acontece em muitas sociedades do Oriente Médio. “Meus amigos e minha família me receberam de volta e até organizaram um jantar e uma festa em minha homenagem”, diz Fatemato. “A recepção calorosa varreu a tristeza que eu sentia — pelo menos temporariamente.”

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Dois anos depois de se separar do primeiro marido, ela casou de novo. “O Corão diz que um casal deve 'ficar junto com honra ou se separar com bondade'”, explica ela. “Sou grata por vir de uma cultura que me mostrou essa bondade.”

Shams, 40 anos, lembra que sua festa de divórcio foi tão animada quanto seu primeiro casamento: “Eu estava coberta de henna e cantaram para mim. Me senti amada e valorizada, o que com certeza me ajudou a superar o divórcio. Eu não devia ter me casado tão jovem: eu nem tinha completado 20 anos na época.” Shams acrescenta que a experiência a ensinou ter empatia, o que a tornou uma mãe e uma esposa melhor em seu segundo casamento.

As festas de divórcio parecem muito com casamentos.

Diferentemente de Fatemo e Shams, Halima, que tem vinte e poucos anos, acha que divórcio não é algo para se comemorar. Ela considera esses eventos um insulto para as mulheres. “O que significa para uma mulher celebrar seu divórcio?”, ela diz. “Ela está celebrando seu fracasso? Acho que não tem nada a ver com homenageá-la.”

Depois de um casamento que durou apenas alguns meses, Halima diz que foi recebida carinhosamente em casa. Só ver como seu pai ficou feliz ao vê-la, explica, era tudo que ela precisava — a jovem não queria uma festa em sua homenagem. “Voltar para casa e ver minha família foi a verdadeira comemoração”, diz ela, “longe da atmosfera exageradamente animada de uma festa de divórcio”.

“Eu estava coberta de henna e cantaram para mim. Me senti amada e valorizada, o que com certeza me ajudou a superar o divórcio. Eu não devia ter me casado tão jovem" — Shams

O xeique Syed Adbi Al Edrisi, um líder islâmico local na região de Sahrawi, sul do Marrocos, acha que muitas pessoas são contra a cerimônia porque a mídia local costuma interpretar equivocadamente suas intenções. “As pessoas deveriam vir até aqui e ver com seus próprios olhos que não estamos comemorando o divórcio”, ele disse.

“Sim, essas festas são para mulheres divorciadas, mas não comemorando o divórcio, como a mídia diz. O objetivo é declarar publicamente o valor que atribuímos às nossas mulheres. Muitas vezes, quando outro homem vem depois fazer seu pedido de casamento, eles fazem isso não só porque querem viver com a mulher divorciada, mas também ajudá-las a recuperar sua confiança dentro de seu grupo, e nas regiões ao redor.”

Vestindo-se como uma noiva e sendo celebrada pelas pessoas mais próximas, essas mulheres podem deixar o passado para trás e ter esperança em novos começos.

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