Como sobrevivi a um apocalipse zumbi e depois fui parar na cadeia

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Matéria originalmente publicada no neste vídeo ).

Eventos assim são difíceis para o Controle. Eles precisam dividir responsabilidade: guardar a integridade e plausabilidade da ficção do jogo, mas também defender e recompensar as escolhas dos jogadores. Parte dessa tarefa significa pensar em novas regras na hora. Então quando Darren Green, que comanda Wabash, contata Jim para pedir conselhos, Wallman manda de volta uma lista de pessoas que precisam apoiar o golpe para que ele tenha sucesso. Todos estão dentro. “Não sei se tomamos a decisão certa”, me diz Green, “mas há tanta exigência dos jogadores na sala que seria muito difícil dizer não”. Eventualmente, a presidente manda forças especiais para restaurar o governador ao poder (o representante dos prefeitos é misteriosamente assassinado). Mas muito tempo foi perdido; Wabash está condenado.

E assim despencamos pelas beiradas. Em Iliniwek (Ilinóis, jogando de Southampton, Reino Unido), o Controle mostra ligações telefônicas de pânico de famílias enquanto seus bairros são tomados. O prefeito renascido de Cincinnati anuncia uma “cruzada” contra os infectados. Algumas cidades estão tão mal que os jogadores simplesmente desistem e vão para casa mais cedo, enquanto um dos jogos considera sair da rede – se desconectar dos jogos nacionais e simplesmente jogar sozinho – para tentar reequilibrar as coisas.

Helicópteros Blackhawk tiram comandos de governo de cidades em chamas; F-16s passam bombardeando bairros inteiros; o arsenal americano, tão minunciosamente construído, é lançado contra seu próprio povo. Um número cada vez maiores de estados exige que joguemos bombas nucleares neles.

Tarde de domingo

Aí, logo antes do meio-dia de 3 de julho, um único zumbi nível 1 invade a base aérea General Mitchell em Ouisconsin – só para encontrar 20 paraquedistas da força aérea que acabaram de cair estado.

Nas horas seguintes, as forças que liberamos de Londres finalmente chegam no resto do mundo. Uma força do exército do nosso mapa se traduz em mais força do que toda a Guarda Nacional dos estados. “Foi muito legal ver a cara dos jogadores militares quando, achando que não havia mais esperança, chegam 20 forças em seus mapas”, escreve Tom Parry, do controle de Ouisconsin. Em Iliniwek, os jogadores gritam “U-S-A!” quando as forças chegam – mas em uma cidade de Ahoa (Ohio), os militares são barrados por um prefeito que insiste que eles não podem entrar porque ele não declarou estado de emergência. Mesmo diante da crise, ele não larga o osso.

Nem todos os aspectos da área ampla de UN:SOC funcionam tão bem. Estados considerados perdidos pela Cortina de Ferro compreensivelmente se sentem isolados. Pior, jogadores envolvidos no lado da ciência do jogo – através de capturar zumbis e amostras de vírus para mandar para centros de outros estados para desenvolver uma cura ou armas – reclamam de amostras perdidas ou mandadas para o lugar errado.

Ainda assim, ver notícias que se originam em lugares a centenas de quilômetros de distância criam uma impressão elétrica de um mundo maior. “Saber que algo chegou de Kanawha porque uma pessoa ou grupo fez acontecer, em vez de ter sido decidido só por alguém aqui tirando uma carta, é incrivelmente excitante”, diz Stefone Salva Cruz, do controle de jogo de Kanawha.

O Controle tem mais uma bola curva para nós. Ao pôr do sol recebemos um e-mail: “MENSAGEM ULTRASSECRETA DO NORAD”. Um grupo de bombardeiros russos invadiram o céu americano e a inteligência sugere que eles contêm bombas nucleares; nossas preparações pouco sutis provocaram uma resposta. “Presidente”, digo depois de algum debate, “acho que é hora do telefone vermelho”. Isso rende uma conversa surreal mas emocionante entre alguém do Controle se passando por Vladimir Putin e a presidente garantindo a ele que “tudo está sob controle nos EUA”.

Noite de domingo

Dá meia-noite, quatro de julho, e o país – ainda – está unido. A Operação Cortina de Ferro teve sucesso a um custo vertiginoso: os estados em quarentena abrigam quase 40% da população americana, 125 milhões de pessoas. Uma variedade de curas desenvolvidas por jogadores estão sendo aplicadas, com resultados mistos, e nossos advogados estão considerando a legalidade de atirar em multidões de cidadãos americanos agora tratáveis. A limpeza vai levar anos; as recriminações políticas, uma década.

O final de um megagame é súbito e agridoce. Raramente há uma sensação de encerramento ou clímax. Você tem todos esses esquemas em andamento, todos esses objetivos e esperanças; mais cinco minutos e você poderia fechar aquele pacote de ajuda ou assegurar aquele acordo crucial. Aí o Controle grita “GAME OVER!” – geralmente numa hora inesperada, para evitar “loucuras de último minuto” – e somos deixados lá, piscando como alguém numa balada depois que as luzes acendem.

O mundo fictício congela onde está, e os jogadores precisam formar suas próprias conclusões de quem “ganhou” ou o que teria acontecido depois. Através extensivas discussões pós-jogo num pub, você pode eventualmente acabar com uma imagem clara. Mas você estava num grande barato o dia todo, e leva tempo para se acalmar.

“...nossa vitória pífia era exatamente o tipo de resultado 'desarticulado e caótico' que ele esperava.”

Imediatamente depois que UN:SOC acaba, Wallman posta no Facebook que tinha sido “a experiência mais prazerosa de megagame que ele já tinha experimentado em sua carreira”. Mas que centenas de horas estressantes de preparação e ensaio, e a impotência que ele sentiu assistindo o jogo de fora, o deixaram “física e psicologicamente esgotado”.

Mas quando falo com ele, ele está mais feliz com o resultado. Ele criou UN:SOC para provar que um megagame de área ampliada podia funcionar – o que, no balanço, ele conseguiu – e nossa vitória pífia era exatamente o tipo de resultado 'desarticulado e caótico' que ele esperava.

O problema com Hollywood, ele lamenta, que há sempre apenas um herói – “nunca uma equipe, nunca um coletivo”. Mas com os problemas de mundo real, os resultados são determinados por grupos e instituições tanto quanto por indivíduos. Então mesmo que Wallman diga que UN:SOC não tem uma “mensagem social maior”, o megagame pretende “desafiar o pensamento preguiçoso” sobre como lidamos com crises, e para responder como nossa sociedade poderia lidar coletivamente com um apocalipse zumbi.

Wallman vê megagames, em última análise, como um meio de narrativa, cujas regras existem para gerar histórias. Se sim, essas não são histórias de indivíduos, mas de sistemas, de instituições, ou atores interdependentes cujas decisões conspiram para produzir um resultado que poucos deles desejavam ou previram, mas de que são autores coletivos. E o que há de tão fascinante nos megagames é que eles fazem tudo isso enquanto enfatizam, como resultado necessário de sua estrutura, o papel de informação imperfeita, interesses divergentes e disfunção institucional – não sorte, mas caos – em moldar a história.

E por isso, no final, acabo levando a culpa por um golpe em Mishigamaa do qual eu não sabia porra nenhuma.

Manhã de segunda

Começa a segunda-feira e os eleitores vão para as urnas. Fiz tudo que pude, mas forças que vão selar meu destino político já estão em movimento.

Às 15h54, logo antes da meia-noite do domingo, a Casa Branca recebeu um e-mail de Maria Osa, governadora de Mishigamaa. “Por favor podemos falar por Skype?”, ela diz. “Os militares estão dando um golpe.”

Maria estava sob pressão para declarar estado de emergência. Depois de horas esperando por uma cura, seus prefeitos deram a ela mais um turno para achar uma ou declara emergência. Mas antes que pudesse fazer isso ela foi presa pela Guarda Nacional, afirmando ter autoridade da presidência que não tinha.

Ou tinha?

Só depois do jogo, descubro o homem responsável: Templeton Blair, a ligação local do Pentágono, com seu colega da Segurança Interna. “A governadora estava matando o estado e as cidades, e a Guarda Nacional nos abordou para pedir ajuda”, ele me diz. “Enganei meus superiores e explorei a frustração local... distorcemos a verdade dos dois lados.” Ele quase conseguiu, mas um discurso apaixonado do assessor de Maria – e uma lição cívica gentil do Controle – convenceu a Guarda Nacional de que isso era ilegal. Nas primeiras horas da manhã de segunda, os militares soltaram a governadora e procuraram a imprensa.

“Uma corrente obscura de eventos que começou em um dos locais de jogo envolveu os mais altos escalões de autoridade.”

Fora tudo isso, cometi pequenos erros. Em certo ponto eu disse ao Pentágono que Mishigamaa tinha pedido tropas federais quando não tinha. Com medo de encararem acusações, os generais me pediram para testemunhar por escrito que estavam agindo sob minhas ordens. Então, entre monitorar a campanha eleitoral republicana, digitei uma declaração genérica que o Pentágono rapidamente vazou para um repórter, que interpretou isso equivocadamente como fazendo referência ao golpe que ele já estava investigando.

É um final um tanto amargo para minha carreira política, mas também ilustra as conexões caóticas que tornam um megagame tão especial, e provam que o conceito de área ampla funciona. Uma corrente obscura de eventos que começou em um dos locais de jogo envolveu os mais altos escalões de autoridade.

Rex Brynen, o professor da McGill, conta a história de uma estudante que interpretou a Unicef em um de seus jogos de crise. O grupo dela bolou um programa de saúde materna e controle de natalidade “brilhante” com um orçamento limitado, visando áreas onde a mortalidade infantil era mais alta. Mas não perceberam que essas também eram áreas onde uma minoria étnica em busca de independência estava mais densamente presente. Os jogadores rebeldes precisavam de uma desculpa para denunciar a ONU, e saíram das negociações de paz dizendo que a Unicef estava praticando eugenia.

“Recebi um e-mail da estudante”, me conta Brynen, “dizendo: 'estou no banheiro da biblioteca, chorando depois que o secretário-geral da ONU gritou comigo por telefone por 15 minutos dizendo que destruí o processo de paz. Tenho uma reunião com o USAID em dez minutos e borrei toda minha maquiagem. Obrigada pela melhor experiência de aprendizado que já tive'”.

E o que nós apreendemos com UN:SOC? Wallman e os organizadores sabem agora que um jogo de área ampla pode funcionar (e como consertar o que não funciona). Com certeza os jogadores britânicos aprenderam muito sobre a constituição dos EUA. Pessoalmente, aprendi a não assinar nada que eu não precise – e nunca, nunca confiar em generais.

AGRADECIMENTOS: Para esta matéria falei ou tirei informação de relatos de muitas pessoas que não acabaram citadas na versão final, mas que merecem reconhecimento. Elas são: John Mizon, Tim Campbell, Paul Howarth, Marcel Nijenhof, Zane Gunton, Becky Ladley, Nick Luft, Jaap Boender, Jonathan Terry, Stephen Brown e Andrew Hadley das equipes de controle; Myre Haywood, Alex Beck e Chris Cooling dos federais; Fraser Patrick, Oli Fleck, Paul Howells, Russell Kent e Becky Rose de Wabash; Benji Royce, Daniel Woods, Johan Olofsson, Alexi Duggins, Jake Knight, Brad Jayakody e Darren Grey de Mishigamaa; Jude Whitaker e Mario Conti de Shawnee, Chris Gannon de Ouisconsin, Daniel Lawson de Kanawha e Daniel Piper de Ahao; Luke Murray da Necrotech, Sean Tyrer da Badger News, e todos os seus repórteres; e finalmente os apresentadores do podcasts Last Turn Madness e The Megagame Report.

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