A penosa emancipação das israelenses

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Após aceitar mulheres em aviões de combate, o Exército israelense planeja admiti-las também em tanques de guerra. Como um dos raros países onde o serviço militar não é restrito aos homens, Israel fala ativamente sobre suas soldadas, musas de um Exército que seria o mais moral do mundo. Com Golda Meir, não foi justamente a “única democracia do Oriente Médio” que escolheu, ainda em 1969, uma mulher como primeira-ministra?

O site do Exército tem uma seção toda dedicada às mulheres, louvando a “bravura” das “ferozes” combatentes que patrulham a fronteira. Nos livros de História, as imagens de jovens soldadas atléticas de uniforme, com metralhadora Uzi a tiracolo e rosto camuflado, ecoam as fotos das pioneiras trabalhando a terra, pavimentando estradas e montando guarda nos kibutzim. Ligadas pela mesma mitologia de um sionismo igualitário e moderno,1 essas séries de imagens são parciais, obscurecendo a ambivalência da função social das mulheres em Israel.

“Mesmo nos primeiros kibutzim – que se mantiveram marginais –, os membros femininos eram muito mais empregados nas cozinhas, hortas, creches e lavanderias coletivas do que nos campos e nas fábricas”, recorda a pesquisadora Sarai Aharoni, que nos recebeu no Centro Feminista de Haifa. Embora a Declaração de Independência e a Lei de 1951 proclamem o princípio da igualdade de gênero, os pioneiros israelenses sem dúvida não eram feministas. Para os pais fundadores, o dever principal das mulheres no seio do Estado em construção era garantir a sobrevivência do povo judeu. Não trazer ao mundo “pelo menos quatro filhos” equivalia a trair a “missão judaica”, advertia o primeiro-ministro David Ben-Gurion, que em 1949 lançou o projeto Mães Heroicas, que premiava a mulher pelo nascimento de um décimo bebê. Até a década de 1960, os avisos de natalidade nos jornais celebravam a chegada de um “novo soldado para as Forças Armadas israelenses”. A injunção natalista foi incessantemente reatualizada pela corrida demográfica com os palestinos. Com sucesso: com uma média de 3,1 crianças por mulher israelense, o país tinha em 2015 a maior taxa de fecundidade entre os membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da bacia do Mediterrâneo (junto com o Egito).2

Confinada ao trabalho reprodutivo do “front doméstico”, a mulher praticamente não tinha lugar no discurso bélico de Theodor Herzl. Em seu diário, o fundador do sionismo perguntava se os judeus europeus, “criaturas do gueto, discretas, modestas, prudentes”, seriam capazes de compreender seu chamado à liberdade e à “virilidade”. A masculinidade do novo judeu, forte e musculoso, seria forjada por meio da aptidão para o combate no seio de um poderoso Exército cidadão. Restava às mulheres o lugar de mães e esposas amorosas dos guerreiros.

Os valores hierárquicos e autoritários do Exército, instituição central do país, infiltraram-se em todos os polos de poder à medida que os oficiais aposentados foram lançados à frente de ministérios, grandes empresas, universidades e – até – do principal movimento pacifista do país: o Paz Agora, criado por trezentos oficiais da reserva. “Para que a organização parecesse confiável nas questões de segurança, era necessário que oficiais de alto escalão se manifestassem. Somente os homens tinham direito de assinar a petição”, recorda Hannah Safran, incansável militante feminista, lésbica e antissionista de Haifa e membro das Mulheres de Preto, que se manifestam todas as sextas-feiras contra a ocupação dos territórios palestinos. “Foi também por isso que as mulheres tiveram de criar seus próprios coletivos pela paz”, explica. “E algumas perceberam que tinham interesse em falar como mães de soldados, como o Movimento das Quatro Mães, que militou pela retirada do Líbano no final da década de 1990.”

À medida que o virilismo conquistador se exacerbava, após a vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a ocupação da Cisjordânia e de Gaza, as feministas iam estabelecendo um paralelo entre a violência dos soldados que reprimiam a Primeira Intifada nos territórios ocupados em 1987 e a violência dos homens no interior dos lares – que ainda mata cerca de vinte mulheres por ano. “Uma das primeiras causas das feministas foi a luta contra a violência doméstica, precisamente porque ela era compatível com um papel viril e protetor do homem”, observa a pesquisadora israelo-norte-americana Galia Golan, que abriu o primeiro departamento de estudos feministas de Israel em 1981, na Universidade Hebraica.

Uma centena de leis pela igualdade no Exército

A partir do final dos anos 1980, as questões levantadas pelas pesquisadoras e militantes durante a década anterior penetraram na esfera institucional. “Os anos 1990 foram a década da revolução legislativa feminista”, continua Galia. “Havia, no entanto, três vezes menos mulheres no Knesset do que hoje – mas na época elas eram feministas.” Mais de uma centena de leis foram aprovadas, inclusive pela igualdade no emprego e no Exército, e contra o assédio sexual. A criação de números de emergência e abrigos para atender situações de violência doméstica sensibilizou a opinião pública. Em 1995, a Corte Suprema aceitou o pedido de Alice Miller, que queria fazer o exame para piloto da Força Aérea: hoje 92% dos postos militares estão abertos às soldadas, e elas têm até o direito, após dez anos de serviço, de servir em três unidades de combate mistas. Uma unidade, criada em 2001, aconselha o chefe do Estado-Maior em questões relacionadas não mais às mulheres, mas ao “gênero” – uma mudança de nomenclatura, decidida em 2016, que revela uma instituição atualizada com o vocabulário obrigatório dos círculos feministas.

Em campo, contudo, apenas 7% das mulheres acessam as unidades ofensivas. “Nós somos guerreiros. Estamos tentando manter uma imagem de guerreiros”, declarou em novembro, no Times of Israel, o general de brigada Guy Hasson, justificando sua decisão de reservar os tanques de assalto aos homens. Como as unidades de combate são precisamente aquelas que chegam às patentes mais elevadas, as mulheres têm dificuldade para subir na hierarquia. Apenas uma mulher, Orna Barbivai, foi promovida a generala, a segunda maior graduação da instituição, e já está aposentada desde 2014.

Na prática, o progresso legislativo tem sido lento em produzir efeitos concretos no plano social: a diferença global de remuneração no emprego de tempo integral é de 22%, o que faz de Israel o quarto país mais desigual da OCDE nessa área. “No geral, a condição das mulheres tem avançado” – é o que declara Rachel Azaria, 39 anos, deputada do partido de centro-direita Kulanu, integrante da coalizão no governo, que nos recebeu em seu gabinete dominado pelo retrato de seu modelo, Hillary Clinton. “Pela primeira vez, elas representam um quarto dos deputados do Knesset. Karnit Flug dirige o Banco Central, [Rakefet] Russak-Aminoach está à frente do Banco Leumi, e os raros partidos que só têm homens são denunciados publicamente”, garante a ex-conselheira municipal de Jerusalém, que ficou famosa após lutar, em 2008, contra empresas de transporte que retiraram sua foto de candidata dos ônibus que circulavam em bairros ultraortodoxos.

Azaria pertence à corrente da ortodoxia “moderna”, a qual considera a rigorosa observância das leis e dos costumes compatível com a integração na sociedade contemporânea e com o sionismo. Essa corrente distingue-se dos 830 mil ultraortodoxos, ou haredim, que procuram evitar, na medida do possível, qualquer contato com a sociedade e os estudos seculares, e mantêm regras específicas a respeito das vestimentas. Ela comemora sobretudo o recente crescimento do que chama de “feminismo ortodoxo”: “Desde a criação do país, o Grande Rabinato de Israel sempre manteve uma abordagem ortodoxa – e até ultraortodoxa – da halakha [lei religiosa], que é muito desigual e reserva aos homens alguns direitos na oração. Nos últimos anos, porém, associações feministas próximas, como a Kolech, conseguiram flexibilizar algumas dessas regras. Hoje, as mulheres são mais fortes nas beit midrash [centros de estudos avançados da Torá] e nas sinagogas. Um maior número delas tem se arrogado o direito de estudar o Talmude e cantar as orações. Em 2014, Rachel Fraenkel, mãe ortodoxa de um dos jovens raptados e mortos pelo Hamas, recitou publicamente o kaddish para seu filho no funeral, uma oração de luto que apenas os homens costumam ter o direito de recitar nessa comunidade. Os grandes rabinos presentes não puderam negar-lhe isso. É assim também que as coisas avançam”. Segundo Tehila Nachalon, feminista ortodoxa e membro da associação Shaharit, de Jerusalém, “é preciso quebrar o monopólio do Estado do Grande Rabinato e abrir os serviços religiosos à concorrência com as tendências reformistas e conservadoras menos rígidas, que cada um possa escolher seu rabino, como nos Estados Unidos”.

Tribunais inteiramente masculinos

Mesmo entre os haredim (literalmente, “aqueles que temem a Deus”) observa-se o nascimento de uma corrente que se qualifica como “feminista”. “Nosso ponto de partida é muito mais distante do que o das feministas ortodoxas”, explica Racheli Ibenboim, de 30 anos, que nos recebeu em um café na Colônia Alemã, um dos raros bairros da cidade onde ainda se cruzam judeus laicos e religiosos de todos os tipos. Noiva há dezoito anos de um homem que ela encontrou durante 20 minutos em toda a sua vida, a moradora do famoso bairro ultraortodoxo de Mea Shearim é muito lúcida quanto aos limites de seu campo de ação. “Não é possível, em absoluto, fazer reivindicações relacionadas à prática religiosa, pela igualdade na oração, por exemplo. Em compensação, podemos lutar pelos aspectos seculares de nossa vida, ou seja, pela presença de mulheres nos partidos ultraortodoxos ou pela igualdade de salário na educação e no emprego.” Ela queria concorrer às eleições municipais em Jerusalém, em 2013, mas desistiu após receber ameaças. “Como mais da metade dos homens haredim não trabalha para dedicar seus dias ao estudo da Bíblia e os benefícios para as famílias foram reduzidos, cabe à esposa trazer dinheiro para casa”, diz. “Assim, 80% delas trabalham, um percentual equivalente ao das mulheres laicas, mas ganham 40% menos, pois esses empregos são pouco qualificados e os empregadores aproveitam a forte concorrência que há entre elas. No entanto, a simples ideia de que as mulheres que ontem estavam confinadas no lar possam se desenvolver em uma carreira interessante já é um enorme progresso.” Embora a maioria das mulheres haredim tenha sido levada a se tornar professora primária ou de jardim de infância para permanecer dentro da comunidade e não se expor ao modo de vida laico, a falta de emprego incentivou-as a diversificar e aprofundar seus estudos, especialmente em alta tecnologia. “No meu círculo, todo mundo me cumprimenta, mas se confessa feliz por eu não ser sua filha.”

O constrangimento religioso, invisível para quem vive na “bolha” ocidental e laica de Tel Aviv, é pesado em alguns bairros de Jerusalém e no resto do país, onde cada vez mais se impõem as regras da “modéstia” feminina e da separação sexual. “É fácil ser multiculturalista e tolerante quando se vive em Tel Aviv e a visão de um ultraortodoxo é deliciosamente exótica”, zomba Rachel Azaria. Embora seja comum culpar os haredim, que aplicam regras patriarcais restritivas, a raiz do problema reside no fato de que nunca nenhum governo, nem de esquerda nem de direita, considerou uma separação completa entre religião e Estado. E como isso seria possível? Uma vez que o projeto sionista de “direito ao retorno” dos judeus à Palestina está escrito na Bíblia, os (embora bem seculares) pais fundadores de Israel sempre tiveram o cuidado de manter a ligação com a tradição judaica, dar garantias às autoridades religiosas e deixar uma relativa autonomia para a pequena comunidade ultraortodoxa, mesmo que isso signifique submeter as mulheres a proibições.

Como as grandes formações políticas não podem compor uma coalizão estável sem seus votos, os pequenos partidos religiosos negociaram sua participação em quase todos os governos, exigindo várias garantias. Entre aquelas oferecidas em 1947 por David Ben-Gurion em troca do reconhecimento do Estado de Israel pelo partido Agudat Israel está a manutenção da jurisdição religiosa sobre o direito de família – conforme uma tradição herdada do sistema otomano do millet. Embora desde 2001 os casos de custódia dos filhos e de pensão alimentícia possam ser tratados também por órgãos civis concorrentes, os tribunais rabínicos, dominados pela corrente ultraortodoxa, continuam sendo os únicos que podem pronunciar-se sobre casamentos e divórcios entre judeus. Mas esses tribunais são espaços inteiramente masculinos: como não podem ser rabinas, as mulheres não podem se tornar juízas rabínicas nem ser ouvidas como testemunha. Pior ainda, o ato do divórcio (o guet) não pode ser obtido sem o acordo do marido, que tem assim uma formidável arma de chantagem para extorquir termos de separação vantajosos. Caso recuse seus termos, a mulher não pode casar-se novamente; se tiver outros filhos, eles são considerados mamzer, bastardos. De acordo com Ruth Halperin-Kaddari, pesquisadora da Universidade Bar-Ilan, cerca de 100 mil agunah (“aprisionadas”) veem-se hoje obrigadas a escolher entre desistir do divórcio ou aceitar termos injustos.

E crescem as exigências ultraortodoxas de segregação de gênero e “pudor” feminino. O caso de Bete-Semes, cujo equilíbrio demográfico foi perturbado pela chegada em massa de uma comunidade haredim no final da década de 1990, foi amplamente divulgado em 2011, após extremistas do grupo fundamentalista Edah Haredit agredirem uma menina de 8 anos a caminho da escola. Nili Philipp, mãe de cinco crianças de origem canadense, emociona-se ao contar sobre as pedradas e cusparadas que levou quando saía para correr ou pedalar na cidade, que também era a sua. “Sendo eu mesma uma ortodoxa moderna, não me vestia de maneira provocativa: andava com a cabeça coberta e não usava shorts. Mas o simples fato de ver uma mulher correndo era inaceitável para eles.” Ao volante de seu 4×4, ela nos leva para visitar bairros “tomados” pelos “homens de preto”, e mostra os cartazes nos prédios proibindo as mulheres de usar calças e “passear” pela calçada. Dedicada a uma batalha legal permanente contra o município pela remoção dos cartazes, declarados ilegais pela justiça em 2015, Philipp não cobre nem a cabeça. “Quando fui agredida, nenhum haredim veio me socorrer. Entendi que teria de me defender sozinha. Se eles querem ser patriarcais, então devem nos proteger. Se não conseguem, não me peçam que eu seja uma frágil mulher passiva.”

No entanto, os ultraortodoxos, que representam 11% da população, não são os únicos responsáveis pela crescente influência da religião na vida cotidiana. Os nacionalistas religiosos, que somam cerca de 10% da população, são mais integrados: não dedicam seus dias ao estudo bíblico, trabalham e prestam serviço militar, como os judeus laicos. No entanto, eles têm se mostrado cada vez mais rígidos na prática de sua fé, obrigando suas filhas a usar saias tão longas como as haredim e impondo a separação de gênero nas escolas, nas filas dos supermercados, nos centros de saúde, nos ônibus e também no Exército.3 Embora a instituição militar tenha sido palco de grandes progressos em termos de igualdade de gênero, ela se inclui entre os alvos de uma ofensiva eficaz do rabinato ortodoxo: este garantiu que os soldados religiosos jamais fiquem sozinhos na companhia de outra mulher, em serviço de guarda ou nas viaturas, que não sejam treinados por instrutoras e que possam servir em unidades de combate 100% masculinas.

Feministas ignoram o social

É difícil afirmar com tanta certeza quanto a de Azaria que a condição das mulheres em Israel venha melhorando, com uma população socialmente tão heterogênea e forças reacionárias tão poderosas. “Em geral, as asquenazes [de origem europeia] que vivem nos centros urbanos sempre estiveram em melhor situação do que as misraim4 instaladas nas periferias, que por sua vez estão em melhor situação do que as mulheres palestinas”, recorda Orly Benjamin, pesquisadora da Universidade Bar-Ilan. De fato, os avanços inegáveis em termos de direitos e visibilidade das mulheres nas arenas militares, políticas e espirituais desde a década de 1990 coincidem com uma precariedade crescente para a maioria delas. Lançadas pelo Likud desde sua chegada ao poder em 1977, as políticas de liberalização e austeridade orçamentária foram reforçadas em 1985 em nome da luta contra a inflação, precisamente no momento em que a demanda por serviços sociais públicos explodiu, sob o efeito das grandes ondas de migração russa e etíope. Ao mesmo tempo que o processo de Oslo inaugurou, a partir de meados da década de 1990, um período de grande crescimento,5 as mulheres misraim e palestinas foram prejudicadas pela abertura diplomática, que permitiu a Israel entrar plenamente na globalização e deslocalizar a produção têxtil para países até então inimigos: as fábricas que empregavam palestinas na Galileia, no norte do país, e mulheres misraim no Neguev foram transferidas para a Jordânia e o Egito. Com o influxo de trabalhadores estrangeiros, muitas palestinas israelenses que trabalhavam em kibutzim como donas de casa, cuidadoras ou agricultoras foram substituídas por imigrantes filipinas e tailandesas, que passaram a ser vistas como mais seguras após a Primeira Intifada. O resultado é que a taxa de emprego das palestinas com cidadania israelense (que representam 20% das mulheres em Israel) está entre as mais baixas do mundo: 31% delas têm emprego, contra 79% das judias laicas.

Em 2003, Israel passou por uma recessão sem precedentes. O então ministro das Finanças, Benjamin Netanyahu, aprofundou ainda mais as reformas estruturais. Enquanto o Estado gastava ricamente na Defesa, na colonização e na construção do muro, o orçamento social era drasticamente reduzido. Por trás da fachada de “nação start-up”, Israel tornou-se o Estado do mundo desenvolvido com a maior desigualdade econômica, com uma em cada cinco famílias do país vivendo abaixo da linha da pobreza. “Israel não é um bom lugar para viver, nem para os homens judeus”, resume Revital Madar, militante feminista: “Se você não é rentista ou banqueiro, a vida é dura”. O desmantelamento do Estado de bem-estar atingiu as mulheres de três maneiras. Primeiro, pela deterioração do sistema de creches, que permitia às mães trabalhar, pelo menos em tempo parcial: apenas 20% do meio milhão de crianças menores de 3 anos do país têm acesso a uma creche pública subsidiada. Em segundo lugar, pela redução dos benefícios dedicados às famílias, afetando principalmente as mães solteiras, que utilizam esses valores para complementar seus salários de tempo parcial: 81% dessas mulheres trabalham, mas um quarto delas vive abaixo da linha da pobreza. Por fim, pela supressão dos empregos públicos de qualidade: no início da década de 1980, 70% das mulheres ativas trabalhavam para o Estado; em 2013, elas não passavam de 17%.

Como as feministas puderam ignorar tamanha degradação? “Os primeiros grupos feministas israelenses foram ocupados principalmente por asquenazes das classes médias e altas. Suas grandes figuras eram as mulheres e meninas da elite militar e política, como Yael Dayan, filha do ex-chefe de Estado-Maior e proeminente político Moshe Dayan. Normalmente ativas nos movimentos de paz, elas estavam mais interessadas nas palestinas do que nos problemas sociais das misraim, que constituem metade da população e sempre sofreram com o racismo e o paternalismo da elite asquenaze”, analisa Henriette Dahan-Kalev, pesquisadora da Universidade Ben-Gurion em Bersebá e membro do grupo feminista misraim Achoti (“minha irmã”), fundado em 1999 precisamente para representar as necessidades das “esquecidas” do feminismo liberal: as misraim, as etíopes, as palestinas, as beduínas e as migrantes dos países africanos. “O movimento de protesto contra os cortes dos benefícios sociais em 2003 não foi conduzido por nenhuma intelectual asquenaze”, continua, “mas por Vicki Knafo, uma mãe solteira misraim de Mitzpe Ramon, cidade operária do sul do país.” Quando soube que os benefícios que a ajudavam a complementar sua renda como cozinheira em tempo parcial seriam cortados quase pela metade, ela empreendeu uma marcha de 200 quilômetros para falar com Netanyahu em Jerusalém. “Hoje, as feministas asquenazes podem lutar pela igualdade na esfera espiritual, para se tornarem rabinas, estudar o Talmude”, observa. “As mulheres misraim ainda estão lutando no campo econômico e social contra os estragos da globalização, para poder estudar e ter um emprego, uma casa e os benefícios sociais adequados.”

“Enquanto Israel continuar sendo uma potência militarista, etnicista e colonial, em estado de guerra semipermanente, a prioridade será a segurança, e as outras considerações – ecológicas, sociais, feministas – estarão sempre em segundo plano”, observa Madar. Esse complexo de “cidadela sitiada” é particularmente visível nas situações em que o bem-estar das mulheres está em contradição direta com os valores securitários, como nos casos de assédio sexual nas Forças Armadas, que raramente têm uma sanção penal. O mais recente escândalo: o general de brigada Ofek Buchris, que ganhou proeminência durante a Operação Rempart, em 2002, foi rebaixado à patente de coronel após ser acusado de estupro por duas alistadas em 2016. Em sua defesa, o general da divisão Gershon Hacohen atreveu-se até a invocar a Bíblia, comparando Buchris a Davi, que continuou sendo rei de Israel mesmo tendo abusado de Betsabá. “Antes de ser um estuprador, ele é um herói nacional”, resume Madar.

“Sem armas na mesa”

O tratamento político da violência doméstica é outro exemplo da minimização da causa feminista diante da prioridade securitária. Como manda a ameaça terrorista, muitos agentes privados portam arma de fogo, que às vezes usam contra a cônjuge. Entre 2002 e 2013, 33 pessoas, sendo 18 mulheres, foram mortas dessa maneira, até que uma lei defendida pela campanha feminina “Sem armas na mesa” foi aprovada, proibindo, a partir de 2013, que eles levassem as armas para casa e reduzindo a zero o número de mortes. Um rápido parêntese: após a “Intifada das Facas”, em 2015, o governo voltou a incentivar os israelenses a se armar, e em março de 2016 o Knesset aprovou uma emenda revertendo a lei. Além disso, o conflito israelo-palestino coloca as mulheres agredidas diante de um dilema. As palestinas israelenses – que, apesar de representarem 10% da população, constituíam um quarto das mulheres mortas por seu parceiro em 2009 e 2013 – são particularmente reticentes em prestar queixa à polícia. Quando as mulheres palestinas lançaram o movimento El Fanar (“o farol”) em 1994, para quebrar o tabu em torno dos “crimes de honra”, elas foram chamadas de traidoras. Assim como a violência doméstica e o assédio sexual, as dificuldades econômicas e sociais das mulheres são consideradas secundárias: a mídia cobriu a marcha de protesto de Vicki Knafo até o dia em que um atentado suicida palestino ganhou as manchetes, enterrando a causa das mães solteiras, que não conseguiram nada.

“Não é coincidência que os maiores avanços legislativos para as mulheres tenham acontecido durante os anos de Oslo e certa desmilitarização da sociedade: foi quando tivemos o direito de falar de alguma coisa que não fosse segurança”, analisa Hannah Safran. De fato, muitas militantes associam a emancipação à luta contra a ocupação. Para Safran, as duas lutas são inseparáveis. Quando seu filho quis prestar serviço militar, ela publicou uma tribuna decretando que não lavaria seu uniforme.

A dificuldade de afirmar que a condição feminina tem melhorado em Israel está ligada também ao fato de que isso depende do critério escolhido. Uma mulher que presta serviço militar tem chance de dedicar-se a uma carreira profissional satisfatória, mas corre um alto risco de sofrer uma forma mais ou menos grave de agressão sexual – que atinge uma a cada oito mulheres das Forças Armadas, segundo um relatório parlamentar de 2013. Ela também abre mão de contestar o militarismo da sociedade israelense. Mas ela tem escolha?

*Laura Raim é jornalista.

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