Beavis e Butt-Head foram a voz de toda uma geração de metaleiros

Photo of Beavis e Butt-Head foram a voz de toda uma geração de metaleiros
Facebook
VKontakte
share_fav

Texto originalmente publicada no zuando com vacas por aí ou jogando beisebol com um sapo vivo , qual das duas banda você escolheria?

O metal precisava de um salvador em 1993, e acabou ganhando dois na figura de Beavis e Butt-Head. Por mais que pareça absurdo dar crédito a dois personagens de desenho vindos da cabeça de Mike Judge por terem feito ressurgir todo um subgênero do rock, é preciso levar em consideração o panorama da música pesada da época. O hair metal havia sido brutalmente atropelado pelo advento do grunge, com sua atitude ambivavelente e visual meio podrão. O thrash metal tinha ficado chato, sua característica fúria juvenil substituída pela megaprodução de Bob Rock no Black Album do Metallica. O público do death metal não atendeu à expectativas quando a Earache Records — com seu elenco incluindo grandes nomes como Carcass, Entombed, Godflesh, Napalm Death, dentre outros — assinou um contrato de distribuição gigantesco com a Columbia que acabou tão rápido quanto começou. Mas para uma nação de jovens enraivecidos e pré-adolescentes sem noção alguma de todas as intrincácias do metal, Beavis and Butt-Head agiram como uma espécie de portal para esta cena em constante evolução. O programa era, simultaneamente, um influenciador e definidor do gosto alheio, uma reflexão ridiculamente precisa da juventude norte-americana.

Beavis e Butt-Head manjavam horrores de metal e ficavam de olho nas tendências pra molecada que não se dava muito bem nas aulas de matemática. Por vezes, a simples presença de qualquer combinação que envolvesse fogo, peitos, bundas e/ou escatologia juvenil no geral (cocô, catota, peido etc.) era o suficiente para garantir seu selo de aprovação. O apelo de uma banda como o Gwar era óbvio, com suas fantasias de monstros intergalácticos cuspindo sangue e sêmen de canhões e pirocas gigantes no palco, enquanto os shows do Rammstein eram simplesmente irresistíveis porque FOGO PORRA!!! Ao valer-se deste filtro nada cerebral e visceral, o programa se conectou com toda uma geração, formatando a maneira como os metaleiros processavam e desenvolviam novas preferências, conexão esta que permanece até hoje.

Mas ao mesmo tempo, Beavis e Butt-Head eram capazes de avaliar o valor cultural de um artista num nível mais subsconsciente. Havia sempre algo mais "bacana" no Crowbar que no Grim Reaper e Beavis e Butt-Head sabiam disso, assim como a cultura de hoje dá muito mais bola para um Pallbearer do que para um Periphery, que tem trocentos elementos semelhantes. Não é preciso ser um gênio pra saber o que é bacana e o que não é e talvez estas avaliações caiam melhor para aqueles que não ficam superanalisando tudo mesmo.

Os tentáculos de influência da dupla não se prenderam ao metal, com bandas como Nirvana, Aerosmith, Primus e Red Hot Chili Peppers todas aparecendo em The Beavis and Butt-Head Experience, uma coletânea de 1993 lançada pela Geffen Records que conseguiu disco de platina duplo. O cover do RHCP de "Love Rollercoaster" dos Ohio Players no filme Beavis e Butt-Head Detonam a América — que lucrou mais de 60 milhões de dólares até hoje — virou um hit estrondoso, chegando ao 22º lugar no Top 40 Mainstream. Até a Cher entrou na da dupla com uma nova versão de seu hit de 1965 "I Got You Babe".

Beavis e Butt-Head tinham uma queda pela brutalidade honesta mesmo quando elogiavam alguém, e por vezes uma espinafrada da dupla poderia muito bem servir como selo de aprovação. No caso do Crowbar, por exemplo, Butt-Head fez um comentário, na zoeira, de que "Eles sempre estão cagando" ao ver o clipe de "Existence Is Punishment", antes de comentar "A música é lenta e gorda", uma avaliação assustadoramente precisa (mesmo desconsiderando a aparência da banda). Seria tentador ver tais comentários como negativos até ouvirmos Beavis zoando o "maricas" no show da banda, dizendo que "A mãe dele está lá fora esperando ele, numa perua". Aquele maricas, de acordo com o evangelho de Beavis, não era bacana o bastante para estar num show do Crowbar.

E por falar em maricas, ninguém representou maior o sofrimento de ser sacaneado no programa do que o Winger, cujo logo adornava a camiseta do vizinho abestalhado e enturmado da dupla, Stewart, vítima de forte bullying. Há um debate intenso para determinar se o fracasso do Winger foi culpa do grunge ou de Beavis e Butt-Head, mas disso tudo podemos extrair um fato: a percepção que o público tinha da banda foi afetada pelo programa, atrelando os dois pra sempre. Kip Winger responde perguntas sobre o tema até hoje, apesar de parecer ter ficado numa boa com tudo.

Os integrantes do Crowbar reconheceram o poder e influência do show antes mesmo de aparecerem no programa, pedindo para que sua gravadora enviasse material a Mike Judge na esperança de aparecerem ali, pro bem ou mal. O líder da banda, Kirk Windstein conta ao Noisey o que rolou: "Escrevemos uma carta, algo do tipo 'Somos um bando de gordos, podem tirar sarro se quiserem, estamos nessa e achamos hilário'. Fizemos isso torcendo pra que botassem a gente no ar. Queríamos ser zoados. Contanto que curtissem o som e não dissessem que éramos uns merdas, beleza, nem ligamos pra piadas de gordo. Faz parte da zuera". Windstein não hesita em momento algum quando questionado se a aparição no programa ajudou na carreira da banda: "Não tem um dia sequer em que alguém não chegue e diga algo como 'Lembro de vocês da época de Beavis e Butt-Head!'. Na minha opinião deu bem certo e nos ajudou a divulgar a banda."

Beavis and Butt-Head sempre acertaram. Ao falar de "From Here to Eternity" do Iron Maiden, comentaram que mesmo que a banda fizesse um Acústico MTV, "nunca desligaria a máquina de explosões" que faziam seus clipes tão foda, um recurso que ajuda a banda a lotar arenas pelo mundo até hoje. Até mesmo à época de "Blind", primeiro single do Korn — e sem noção alguma do que viria a ser o fenômeno new metal — Beavis fez uma crítica de nível profissional à banda após ficar tonto de propósito e comentar "este clipe dialoga menos com a mente e foca mais no esfíncter". Os dois metaleirões capturavam o zeitgeist em torno do Metallica na época ao discutir ao longo de um clipe de dois minutos — uma eternidade para os padrões de ambos — se a banda prestava ou não (adequadamente, o consenso foi que a banda não era legal como o Gwar). No caso do Napalm Death, a dupla não conseguiu decidir se o vocal de Barney Greenway parecia sair de uma bunda, do Godzilla ou da bunda do Godzilla, antes de perderem o interesse e falarem da vez que esbarraram num cavalo morto e desceram o cacete nele (literalmente). "Olha lá, mais um daqueles clipes de metal com um mano todo enrolado no chão, pelado" e era tudo que você precisava saber sobre "God of Emptiness" do Morbid Angel. Seguia o baile.

Talvez nada melhor resuma a conexão de Beavis e Butt-Head com o mundo metálico do que seu hino quintessencial, cujo cantarolar do riff se tornaria característico a jovens pelo mundo: "Iron Man" do Black Sabbath. Apesar de perguntarem onde diabos está o Ozzy e questionar se o cara à frente da banda era filho do Ozzy, a dupla acerta demais aqui também: em 1993, quem com menos de 30 anos ligava pra esses velhos? Ninguém.

Só podemos imaginar que diabos Beavis e Butt-Head falariam sobre os 14 anos de metal que aconteceram entre o cancelamento da série em 1997 e seu breve retorno em 2011, que mostrava a dupla criticando reality shows da MTV como Jersey Shore, Teen Cribs, e 16 and Pregnant além de comentários de sucessos da época como MGMT e Skrillex. Quanto ao new metal, resta imaginar o horror em seus rostos ao assistir "Break Stuff" do Limp Bizkit, bem como tapa na cara de Beavis por curtir "Butterfly" do Crazy Town. Pode apostar que eles teriam MUITO a falar sobre a pegada tira bom/tira ruim da banda ("Por que esses caras cagam uma música boa com essa merda?"), a fórmula repetitiva do deathcore com seus breakdowns (talvez curtissem?) ou a rifferama punhetada do djent.

A metaleirada passou os últimos 20 anos de metal numa boa sozinhos, mas a falta da direção dada pelas vozes de Beavis e Butt-Head certamente foi sentida. Todo mundo é crítico hoje em dia, com redes sociais e blogs dominando o jornalismo musical, então talvez nossos protagonistas estejam obsoletos. Mas sempre é bom ter alguém pra ajudar aqui e ali, e para uma geração de metaleiros — durante boa parte dos anos 90 — estes dois adolescentes serviram de guia.

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no e Twitter.
Siga a VICE Brasil no , Twitter e Instagram.

ver Vice Brasil
#desenho
#metal
#mtv
#beavis e butt-head