A volta da cintura baixa é amor ou cilada?

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Quando eu tinha 14 anos, em 2002, torcia o nariz bem daquele jeitinho prepotente adolescente quando minha mãe se vestia pra ir trabalhar. Ela colocava sempre uma calça ou saia de cintura altíssima e eu falava pra ela que era brega. Na época, eu usava calças jeans de borca larga, lavagem clara e cintura tão baixa que era só dar uma agachadinha que meu cofrinho aparecia. Serena, minha mãe se limitava a avisar: "Você fica usando essas calças toda hora e vai acabar com o corpo deformado."

Antes de vestir o corpo de celebridades dos anos 2000, a cintura baixa já tinha dado as caras na moda nos anos 1960 com o modelo saint-tropez eternizado pela Brigitte Bardot. Nos anos 1970, ela começou a ganhar uma boca mais aberta e a partir da década de 80, embora a moda fosse das cinturas altíssimas (as que minha mãe usava), ainda tinha um modelo ou outro da marca Levis que recebia o corte baixo.

Em 1996, o modelo apareceu de novo com as bumpsters do Alexander McQueen, mas voltou com tudo no comecinho dos anos 2000, com celebridades da época usando saias e calças quase mostrando o famigerado cofrinho e o comecinho da virilha. Para além das influências da moda skatista, a calça de cintura baixa esteve nas passarelas até meados dos anos 2010, isso até o retorno definitivo da cintura alta nas nossas vidas.

Pessoalmente, cintura baixa era só o que eu via na MTV e nas minhas bandas favoritas de hardcore. Da Britney Spears causando polêmica ao adquirir uma calça da marca carioca Gang à Avril Lavigne usando calças baggys baixíssimas com uma samba-canção à mostra (e gravatas, não esquecemos das gravatas) até os gatinhos do punk pop mostrando quase metade da bunda. Eu usava sem dó, achava a coisa mais maravilhosa do mundo e passava grande parte do meu tempo tentando esconder meu cofrinho e levando bronca da minha mãe porque a tal calça de cintura baixa era ruim para meu corpo.

Realmente, o tempo provou que a calça de cintura baixa não era apenas ruim, mas sim o verdadeiro Satanás. No final da minha puberdade, comecei a notar que existia um elemento esquisito no meu corpo. Um palmo abaixo do meu umbigo e bem no começo da minha virilha uma linha imaginária se formou, marcando qualquer roupa mais apertada que colocava. Me sentia um tender rosado com barbantes invisíveis demarcando onde deveria ser cortada. Meu corpo já havia ganhado uma segunda cintura.

A segunda cintura é um efeito direto da moda das calças de corte baixo ou de calcinhas apertadas. Ela também pode se manifestar de outra forma, mais pra cima dos peitos, por causa de sutiãs mais apertados, segundo sites dedicados à emagrecimento e outras paranoias do gênero. Caso você não esteja conseguindo vislumbrar isso direito, segunda cintura é basicamente isso daqui.

E o efeito da cintura baixa não acontece apenas com mulheres. O redator de 33 anos Thiago Lira também caiu nessa cilada. "Ganhei esse presente acho que no final dos anos 90", me disse ele. "Usava aquelas calças big com cinto de lona e pra bendita calça não cair o cinto tinha que ficar bem apertado. Logo, a calça apertada na parte errada da cintura deu nisso", revela.

Thiago também foi avisado pelo pais diversas vezes sobre o que poderia acontecer — "meu pai e mãe falavam o tempo todo pra eu levantar as calças que a cintura era assim e assado e eu, claro, jovem e malandrão, não escutava."

A universitária Ana Carolina Chaga de 26 anos passou pela mesma noia na adolescência. "Eu usava muita calça baixa na adolescência. Tanto que apesar de eu ser magrinha na época, o meu osso do lado parecia um pneuzinho", relembra. "Na minha formatura de oitava série encarnei do dia pra noite que meu osso saltou porque meu vestido era justo e eu conseguia ver o osso ficando dividida com duas cinturas. Fiz minha mãe comprar outro vestido na manhã da formatura. Chorei horrores."

Mas nem todo mundo acha uma tragédia a volta da cintura baixa. A designer Julliana Araújo de 25 anos (que você deveria seguir no Instagram) sempre usou esse modelo de calça e já bebia nessa fonte de inspiração muito antes da Britney Spears copiar o look em 2001 quando estava no Rock in Rio. "Sou cria de Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro, e calça baixa é uma coisa que sempre esteve presente na minha vida. Vem da minha vivência, de gente que eu gosto, da rua mesmo", conta Julliana que tem a Tati Quebra Barraco como grande referência na moda das calças de cós baixos.

A designer consegue tirar de letra a calça sem parecer que assaltou o armário de uma criança revoltada dos anos 2000 e ainda diz que segunda cintura é um lance bobo de se importar. "Se ninguém dissesse pra você que ter uma segunda cintura é feio não seria uma questão", pondera. "O foda é que a gente tenta alcançar uma imagem do que é o bonito, mas se a gente dissociar essa imagem do que é aceitável seria só uma forma do nosso corpo."

Julliana, belíssima, de cintura baixa e calcinha à mostra. Foto: Acervo pessoal.

De cintura fina, barriguinha saliente e quadril largo, Julliana é o inverso das celebridades de corpo ultramagro e sem formas que as publicações de moda juram de pés juntos que é o único corpo possível para quem quer usar a cintura baixa sem cometer um crime fashion. "Magreza não é sinal de beleza", afirma. "Calça baixa é uma realidade pra mim e pra milhares de minas [que as usam] usando perto de mim. Quando o mercado esquecer [a moda] vamos continuar usando, porque é nossa vida e é o que a gente faz para dialogar nosso corpo."

Seguindo a mesma vibe da Julliana, a jornalista Luana Dornelas de 23 anos (e minha guru fashion pessoal) começou a aderir o que ela chama de "look piranha fashion" englobando toda essa moda anos 2000 e a bendita cintura baixa. "A moda tem essas coisas de mexer com a nossa cabeça meio que sem querer", diz ela. "Do nada ficamos com vontade de usar cintura baixa, calça cargo, topzinho, salto transparente, óculos coloridos e muito strass de novo. Então nunca dá pra dizer que nunca mais vai querer vestir certas coisas."

Luana Dornelas. Foto via Instagram (@luanadornelas).

"Tá tudo bem você usar uma cintura baixa e estar acima do peso. Cada um tem que pegar as tendências e ajustar com o que fica legal pra si mesmo. Se você se sentir confortável, pode sair de casa e arrasar", incentiva Luana.

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