Por dentro do som lo-fi e experimental de Fortaleza

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Fortaleza é outra das cidades brasileiras que, em sintonia com Terceiro Olho de Marte , Zéis , Berg Menezes, Subcelebs, Miss América do Sul, Sátiros, Estereoh, Capotes Pretos na Terra Marfim e , entre outros.

Uma porção dessas bandas vem de um movimento que rende frutos de 2013 pra cá. Algumas, como Subcelebs, Capotes Pretos na Terra Marfim, maquinas, Januei, Zéis, Berg Menezes e Swan Vestas formam uma crew que circulava pelo finado estúdio da , do Igor Miná. Embora o estúdio de ensaio e gravação não esteja mais na ativa, pois o Igor se mudou a trabalho pra Suécia, a marca continua como selo. "Em geral, essas bandas começaram mais ou menos na mesma época do estúdio e foram crescendo e evoluindo junto com a gente", conta ele. Um dos primeiros trabalhos da Mocker foi com o maquinas.

A cantora Clau e sua banda se apresentam no festival Barulhinho. Foto: Gabriel Marques/VICE

O Igor foi convidado por um amigo pra ver a gravação que eles estavam fazendo em uma casa de praia, acabou emprestando dois microfones e teve a brilhante ideia de mudar a bateria de lugar depois que eles já tinham montado tudo. Bastou: "Eles então me chamaram pra masterizar o que seria o primeiro EP deles. A parceria continuou no primeiro álbum, Lado Turvo, Lugares Inquietos (2016), que gravei, mixei, masterizei e coproduzi."

A Mocker surgiu em meados de 2014 porque não havia ninguém para lançar as coisas dos artistas que gravavam lá. Como Igor e sua companheira, Alinne Rodrigues, integrantes do Telerama, Banda Desenhada e Subcelebs, já tinham experiência com lançamentos digitais desde o MySpace e o Tramavirtual — leia-se divulgação e relacionamento com a imprensa —, eles começaram a oferecer às bandas o lançamento das gravações nas plataformas digitais.

Plasticamente, a proposta da Mocker é lançar bandas com uma pegada pop e simples, mas com alguma esquisitice, como uma voz lo-fi, aquele synth com certas notinhas fora de lugar, um certo baixo distorcido, baterias com delay, coisas assim. "A gente adora uma banda esquisitinha, mas com músicas assobiáveis de três minutos", descreve Igor Miná.

No caso da Banana Records, "o selo nasceu devido à necessidade de fazer um rolê mais viável para a galera", nos termos da Gabriella, que cuida das coisas ao lado de Daniel. Segundo ela, "Fortaleza sempre teve uma cena muito forte, mas nesses últimos tempos vem se destacando e ganhando ainda mais forma." A Banana foi fundada pela Nanda, Daniel e Thiago em abril de 2016. A diretoria mudou, mas continua articulando turnês, consultorias e lançamentos em streaming. Já são 34 títulos promovidos, sendo o mais recente um single do Rawph, "Lo-Fi Tristonho". Pra quem curte sons nessa linha, a Banana puxa outros selos irmãos, (em pausa nos trabalhos) e .

Galera que trampa no festival Barulhinho. Foto: Gabriel Marques/VICE

Um dos conjuntos que se destacam neste terreno fértil do experimentalismo lo-fi é o maquinas, formado em meados de 2013. "Antes do maquinas eu tocava numa banda de metal, a Lacryma Sanguine", conta o baixista e vocalista Allan Dias. "Quando o Lacryma acabou, eu estava sem ânimo até pro metal e com outras inspirações. Mas Beto [ex-guitarrista] e eu já trocávamos ideia sobre um monte de banda que a gente curtia, então foi natural tentar mais uma vez." O Gabriel de Sousa, atual saxofonista, também veio do Lacryma, em que tocava bateria, e fez parte do Chinfrapala, coletivo de música experimental de Salvador.

"O som do maquinas é bem solto, e a gente até brinca que algumas coisas têm influência do próprio black metal", diverte-se Allan. "Mesmo a roupagem lo-fi eu vejo como algo mais intenso do que aquelas músicas super produzidas, bateria com trigger, auto tunes, guitarras com captador EMG. O black metal foi o primeiro passo pra eu enxergar essa coisa da estética lo-fi, mais simples, crua, punk mesmo, né. Foi aí que comecei a escutar rock'n'roll mais raiz, cantores folk, Tom Waits, Sonic Youth, todos os outros estilos", resume ele sobre a pegada do maquinas.

"Na época a gente se dizia lobo solitário, porque não tinha muita noção do que estava sendo feito naquele momento por outras bandas", desabafa o artista. "Em 2013 parecia que não tinha nenhuma banda fazendo o que fazíamos. Não conseguíamos enxergar que daria certo, que teríamos um monte de público. E aos poucos fomos quebrando a cara, porque notamos que havia uma galerinha, outras bandas, a Nanda com a Banana e vários outros músicos."

Astronauta Marinho no palco do anfiteatro do Dragão do Mar. Foto: Gabriel Marques/VICE

Em meio a esses "vários outros músicos" destaca-se o Astronauta Marinho, que já está aí desde 2011 investindo num singular instrumental post-rock e é uma das bandas mais referenciais da cidade. "Ao longo de 2017 fizemos alguns shows importantes e nos dedicamos ao processo de produção de um novo álbum", revela Guilherme Alvez, baterista do grupo. "Pra esse fim de ano, estamos planejando fazer jus ao investimento dos apoiadores da campanha e começar o processo de elaboração do show. Vamos precisar aprender a tocar o disco! Talvez saia algum single, mas lançamento oficial ficou pro começo de 2018."

Já a coisa mais lo-fi que descobrimos — entre as boas coisas — foi o Monquiboy-Boo, que tem influências improváveis de Butthole Surfers, Melvins e rock americano dos anos 90. Para que tantos talentos possam ser compartilhados, há sempre envolvido o esforço de gente que faz o cenário se movimentar. A reúne um pessoal assim, que além de cuidar de um selo, também produz eventos, feiras e diversas iniciativas na cidade, como a recente segunda edição do Festival Barulhinho, que levou o Carne Doce (GO) pela primeira vez a Fortaleza.

O Centro Cultural Dragão do Mar, ferramenta pública, é um espaço que abre para festivais e editais de todas as linguagens. Além disso, promove palestras, encontros, e tem anexado a si o Porto Iracema das Artes, que promove workshops e cursos de capacitação. É lá que acontece o Maloca Dragão, um dos mais importantes festivais de música e artes locais. O Maloca foi criado quatro anos atrás como um evento pra divulgar a produção local e sediar o aniversário do Dragão do Mar, no final de abril. Acaba que a região que pega é o entorno do Dragão, na Praia de Iracema, onde encontram-se os bares e clubes.

Allan Dias, voz e baixo do maquinas e integrante da Mercúrio Música. Foto: Gabriel Marques/VICE

"Historicamente já rolaram muitos locais dessa região que fizeram história: o Canto das Tribos era próximo, o Hey Ho, o Noise, o Acervo Imaginário...", elenca Allan Dias. E complementa: "Hoje tem o pessoal do , que é novo, tá fazendo show, produção de audiovisual de divulgação das bandas". Miguel Pontes, organizador do festival , lembra de outros picos: "Berlinda sempre rola uns shows. Casarão Benfica [no bairro universitário do Benfica] também sempre tem umas coisas legais. A periferia está ganhando força, com destaque pra moçada da Toca Good Garden [no bairro Bom Jardim], que é bem ativo na cena. Andaram ressuscitando o Teatro Boca Rica, casa que já tem seus pelo menos dez anos. Além disso, estão rolando uns shows no Teatro José de Alencar, que é cartão postal da cidade. Acho que, dessas casas, o Berlinda é o que traz programação mais constante."

À lista da região do Centro Cultural Dragão do Mar e da Praia de Iracema somam-se os clubes Let's Go e Mambembe. A centralização por ali, no entanto, como dito linhas acima, vem sendo amenizada com o surgimento de espaços em diferentes áreas da cidade, como no Centro, onde tem o Salão das Ilusões, Homeless e Praça dos Leões.

O Miguel é um insider da cena alternativa de Fortaleza desde os anos 90. Ele colava nos shows do Gaia, Casarão, El Bodegon e Igrejinha sem nem querer saber quem ia tocar. Das relações que criou nesses rolês passou de espectador a agente. No início dos anos 2000, ele e o amigo Gerardo Gadelha abriram o Hey Ho Rock Bar, que durante anos foi "o CBGB de Fortaleza". "Ou, o nosso , pra citar uma referência nacional", contextualiza ele. "Lá recebemos grandes nomes daqui e de fora, como Dead Fish, Matanza, Autoramas, Fonzie (Portugal) e No Fun At All (Suécia)."

O Hey Ho não existe mais, porém Miguel concentra sua energia na realização do Garage Sounds. Semestral, o festival teve sua primeira edição no começo deste ano e já prepara a terceira para o começo de 2018. A proposta do evento, segundo ele, "é servir de vitrine para as bandas que estão na correria pra mostrar seu som. Nos espelhamos em festivais como o Warped Tour e os europeus que começam de dia e vão até a noite." O Garage e o Maloca Dragão fazem coro com outros bons festivais da cidade, como Ponto.Ce, Forcaos, Feira da Música e Hoje É Dia de Rock, evento mensal gratuito do Centro Cultural Banco do Nordeste que dá uma boa visibilidade pras bandas independentes.

"Acho que aqui em Fortaleza, que é uma cidade praiana, com forte presença de problemas de uma cidade urbana e verticalizada, a galera parou de ter o mar, ou a praia, como referencial", filosofa Guilherme Alvez sobre o que caracteriza a alma da nova música de Fortaleza. "Embora o mar ainda seja um respiro, uma brisa, de certa forma acho que foi preciso olhar pro outro lado. Pra realidade, pras entranhas, pro concreto, pra cidade, pras pessoas, pras memórias. Me lembro de uma conversa que tive com Vitor Colares. Ele comentou que podia ver isso nos títulos dos nossos discos: o do Astronauta, "Fartozalê", "Lado Turvo, Lugares Inquietos", do maquinas, ou mesmo o dele próprio, "Eu Entendo a Noite como um Oceano que Banha de Sombras o Mundo de Sol". Menino Sereia é meio na beirada disso."

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