Estariam os proprietários da NFL boicotando Colin Kaepernick?

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Matéria originalmente publica na VICE Sports US.

Embora a temporada 2017 da NFL tenha começado há 6 semanas, Colin Kaepernick ainda está desempregado. Essa exclusão, segundo alguns, seria uma punição por seus protestos contra a violência policial sofrida pela população afro-americana.

Segundo Mike Freeman, repórter da Bleacher Report, Kaepernick colocou essa teoria à prova ao apresentar uma ação judicial contra os proprietários da NFL sob a acusação de conluio, o que seria uma violação do Acordo Coletivo de Trabalho da liga. A ação afirma que os proprietários da liga "conspiraram para privar o Sr. Kaepernick de seus direitos trabalhistas em retaliação ao papel do querelente na defesa da igualdade racial e da justiça social, bem como à sua tentativa de denunciar certas instituições que ainda impossibilitam a igualdade racial nos Estados Unidos."

A queixa está aí, mas quais são as provas? Quando o assunto é Kaepernick, muito se fala sobre boicote e conluio, mas quais são as provas concretas desses crimes? Como eu, alguém que não sabe nada sobre futebol americano ou sobre o Kaepernick e que aterrissou nesse planeta ontem depois de seis anos numa estação espacial, pode acreditar que isso está realmente acontecendo?

Na minha opinião, é absurdo acusar os proprietários de times da NFL de conspirar contra qualquer pessoa, especialmente contra os jogadores que eles tanto amam e com quem eles tanto se preocupam. Essa acusação é ofensiva. Me mostrem um só incidente no qual a NFL tenha agido de má-fé. Não existe nenhum. E mesmo que ele exista, teríamos que voltar tanto no tempo para encontrá-lo que ele seria irrelevante. Boa sorte nessa busca.

Estão me dizendo que em maio de 2012 a Associação de Jogadores da National Football League (ou NFLPA) processou a liga, alegando uma armação para manter o teto salarial dos jogadores em vigor durante a temporada de 2010, que em teoria não teria teto.

Sim, mas em dezembro de 2012, um juiz deliberou que, como combinado no Acordo Coletivo de Trabalho criado após o lockout de 2011, o NFLPA retiraria todas as queixas feitas antes da assinatura do ACT. Embora o juiz nunca tenha absolvido a NFL da acusação de conluio, a decisão judicial foi uma vitória para a honestíssima e inocente NFL.

Mas pensando bem, um acordo que diz que você não pode processar os proprietários de uma empresa por coisas que eles fizeram antes da criação desse mesmo acordo é como dizer para sua esposa "querida, tenho que te contar uma coisa, mas você tem que prometer não ficar brava", e depois dela concordar, ainda que relutantemente, você responder, "eu posso ou não estar transando com sua melhor amiga", e quando a ela começar a ficar chateada, dizer "desculpa, você prometeu não ficar brava, portanto você não tem o direito de tomar qualquer medida contra mim."

Mas no fim, nada foi comprovado. Além disso, isso aconteceu há sete anos, quando outras pessoas estavam no comando da NFL. Desde 2010, a NFL ganhou nove novos proprietários — quase um terço da diretoria. Então mesmo que na época a liga tenha agido de má-fé, não podemos acusar os novos proprietários de agir da mesma forma.

Acabei de receber a informação de que apenas dois dos novos proprietários — Kim e Tery Pegula do Buffalo Bills e Shahid Khan do Jaguars — não são parentes de antigos proprietários. E, entre os dois, Khan foi o único a declarar publicamente que estaria disposto a contratar Kaepernick .

Tá, mas e daí? Os proprietários continuam sendo os mesmos que foram acusados de forçar um teto salarial em 2010. Isso não significa que eles ainda estejam mancomunados. Isso seria inadmissível! Além disso, a gente sabe que o Kaepernick não vale nada, não é? A NFL é a maior liga de futebol americano do mundo, e é absurdo dizer que o Kaepernick merece ter um emprego só porque ano passado ele tinha um. É só dar uma olhada nas estatísticas dele:

12 partidas, 16 touchdowns, 4 intercepções, um rating de 90.7 e 468 jardas percorridas

Agora compare esses números com os dos outros quarterbacks que continuam na NFL. Se Kaepernick não cumpre as obrigações de um quarterback reserva da NFL, quem dirá as de um quarterback titular.

Acabo de receber a informação de que apenas 12 quarterbacks tiveram um rating maior do que 90.7 nessa temporada. E que 11 quarterbacks já foram interceptados mais de quatro vezes. E que apenas três quarterbacks estão perto de ultrapassar o número de jardas corridas por Kaepernick.

Mas isso tudo não leva em conta a idade dele. Aos 29 anos, ele até pode não ser velho, mas para os parêmetros da NFL, ele já é um senhor.

Bom, agora estão me dizendo que 29 anos é uma idade razoável para um quarterback da NFL.

Mas o Kaepernick não tem experiência de jogo, e ninguém quer um quarterback que não sabe o que é ganhar durante os playoffs.

Poxa, acabei de receber a informação de que ele bateu um recorde de 4-2 nos playoffs, além de ter participado de um Super Bowl e de duas Conference Championships.

Mas isso não significa que a diretoria da NFL esteja tramando contra ele — para chegar a essa conclusão, os novos proprietários teriam que ter condenado o que Kaepernick fez, isto é, se ajoelhar durante o hino nacional como forma de protesto. Isso deixaria as intenções deles muito óbvias, e só um idiota faria isso. Me diga um proprietário de time que se opôs publicamente a esse protesto e que tenha ameaçado demitir qualquer jogador que participasse dele.

Fui informado de que Jerry Jones, dono dos Cowboys , se opôs publicamente a esse protesto e ameaçou demitir qualquer jogador que participasse dele. Em suas palavras: "Se houver qualquer desrespeito contra a bandeira, nós não vamos jogar. Ok? Entenderam? Se alguém desrespeitar a bandeira, ninguém vai jogar. Ponto final".

Tá, mas um dos argumentos dos advogados do Kaepernick é que os proprietários dos times estariam fazendo a vontade do Presidente Trump. Me poupe. Que presidente se meteria nos assuntos de uma empresa privada ou usaria sua posição para pressionar a diretoria da NFL com base em ameaças?

Bom, pois fique sabendo que o líder do mundo livre chamou os manifestantes do NFL de "filhos da puta" que deveriam ser demitidos e depois sugeriu, em um tweet, que a liga perderia parte de sua isenção fiscal caso os protestos não parassem.

Mas mesmo com essas ameaças, quem me garante que os proprietários dos times da NFL apoiam o Trump?

Boa pergunta: acabo de saber que a NFL doou pelo menos R$ 7.75 milhões para a posse de Trump. Bastante dinheiro, né?

É, mas não é justo colocar os novos proprietários de times, que são mais progressistas e conscientes, nesse mesmo balaio.

Será? Khan doou US$1 milhão para Trump.

Mas será que a NFL não doou essa mesma quantia para a posse do Barack Obama?

Ao que tudo indica, esse número é duas vezes maior do que a doação que Obama recebeu dos proprietários em 2009.

Sim, mas Kaepernick decidiu sair dos San Francisco 49ers no fim da temporada passada, então a culpa de estar desempregado é toda dele.

Sabemos que o dono do time disse a Kaepernick que se ele não saísse voluntariamente ele seria demitido, muito embora ele tenha sido um dos 15 melhores quarterbacks daquele temporada.

Mas se os proprietários estiverem realmente conspirando para expulsar Kaepernick da NFL, algum repórter especializado em futebol americano já teria lançado esse furo. Isso é coisa de gente que gosta de criar teorias da conspiração para chamar atenção. Insistir nessa ideia de complô é uma perda de tempo.

Bom, Adam Schefter, da ESPN, um homem que construiu sua carreira cultivando e mantendo contatos dentro da NFL e que hoje trabalha para uma emissora que está mais interessada em proteger a NFL do que na luta pela igualdade racial, acredita piamente que os proprietários da NFL estão conspirando contra Kaepernick, chegando a afirmar em julho que "se eu acredito que certos proprietários proibiram outros times de contratar o Kaepernick? Sim, eu acredito nisso."

Certo. Existem algumas evidências de que os proprietários da NFL estejam tramando contra Kaepernick. Mas será que elas são suficientes?

Essa situação me lembra aqueles replays de um ponto que não deveria ter sido marcado: você sabe que o running back caiu antes de passar da linha do gol, mas um ângulo da gravação só mostra a bunda de um outro jogador, outro não mostra a linha do gol direito, e a gravação feita pela câmera no teto do estádio é inútil porque não mostra quando o joelho dele tocou o chão, o que significa que o ponto não pode ser anulado.

Na atual conjuntura, a única certeza é que o joelho de Kaepernick tocou o chão. Por enquanto, teremos que esperar até que outro ângulo prove, de uma vez por todas, o que já sabemos: que os proprietários da NFL estão conspirando contra Kaepernick.

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