Como grupos terroristas usam violência sexual para atrair recrutas

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Esta matéria foi originalmente publicada no Broadly .

Um novo relatório de uma think-tank britânica ilustra como grupos extremistas justificam e promovem estupro e escravidão para atrair recrutas — especialmente gente com histórico de violência sexual. Pesquisadores do Henry Jackson Society argumentam que relatos de violência sexual e violência contra mulheres estão no cerne de organizações terroristas como o Boko Haram e ISIS, e são um fator-chave de suas estratégias de financiamento e recrutamento.

Os pesquisadores analisaram leitura acadêmica, legislação, propaganda terrorista, testemunhos de vítimas e relatos de organizações de direitos humanos para ganhar um melhor entendimento de como violência sexual contribui com o terrorismo.

Segundo o relatório, violência sexual está entrelaçada à ideologia de grupos terroristas como Boko Haram e ISIS. Essa é uma indústria altamente lucrativa, com mulheres sendo vendidas entre combatentes ou de volta para as famílias por grandes quantias. Em um caso, o ISIS fez entre US$127 mil e US$244 mil em resgate para 16 reféns. O relatório alerta que esses grupos estão cada vez mais usando tráfico humano e sequestro como fonte de renda, já que seus retornos financeiros de campos de petróleo e impostos continuam caindo.

Mas o uso de violência sexual por parte dos terroristas tem razões mais fundamentais: essa é a chave de sua política de expansão agressiva. Escravizando sexualmente mulheres, as obrigando a se converter ao Islã e ter filhos, o ISIS cria uma nova geração de recrutas. E os terroristas sabem que, devido ao estigma social sobre estupro experimentado por sobreviventes em muitas nações do Oriente Médio, as vítimas podem preferir se manter caladas sobre os graves abusos que sofreram.

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"Eles [o ISIS] usam esse estigma para continuar fazendo essas coisas", explica a autora do relatório, Nikita Malik. Esse silêncio socialmente forçado é exacerbado pela falta de proteção formal para vítimas sob as leis de países como Iraque, Síria, Líbia e Nigéria. "Nesses países, as leis nacionais geralmente são fracas sobre violência sexual. Estupro conjugal não é nem reconhecido, por exemplo."

Os pesquisadores argumentam que muitos recrutas do ISIS são atraídos para o grupo terroristas especificamente pela oportunidade de cometer violência sexual. O relatório destaca combatentes do ISIS com histórico de estupro, como o recruta britânico Ondongo Ahmed, que fugiu para a Síria depois de ser condenado pelo estupro de uma garota de 16 anos. A promessa de escravas sexuais, diz o relatório, cria um fator de atração para homens assim.

"Na ideologia terrorista, violência contra as mulheres não acontece apenas para ganho financeiro, como acontece com tráfico humano", diz Malik. "Há essa outra dimensão disso ser visto como algo bom acontecendo.

"Muitas das propagandas legitimam violência contra mulheres como maneira de punir mulheres porque elas não são mulçumanas." — Nikita Malik

"Muitas das propagandas legitimam violência contra mulheres como maneira de punir os kuffar ['ímpios' em árabe]; punir mulheres porque elas merecem, porque não são mulheres muçulmanas. A única maneira de sair da escravidão é se convertendo ao Islã. As forçando a se converter, você as ajuda a deixar para trás uma vida de pecado e descrença."

Essa violência é passada de geração em geração quando mulheres cativas são obrigadas a ter filhos com combatentes do ISIS. "Eu até diria que essa violência contra as mulheres como ideologia é necessária para criar uma nova geração", acrescenta Malik.

Embora muitos terroristas conhecidos tenham histórico de violência doméstica — como Rachid Redouane, o terrorista da Ponte de Londres, e o terrorista da Ponte Westminster Khalid Masood —, Malik acredita que é preciso ter mais pesquisas para determinar se violência doméstica pode ser um fator para prever comportamento terrorista.

Ela também diz que organizações precisam trabalhar juntas para investigar ideologia terrorista e evitar ameaças no futuro. "No momento, o espaço da segurança e da justiça criminal são muito fragmentados", explica Malik. "Acho que é importante para organizações menores que trabalham com violência doméstica e o setor de contraterrorismo trabalharem juntos."

Mais importante, ela diz que violência sexual é preciso ser levada mais a sério pelo governo e pela lei. "Precisamos que a violência sexual seja mais proeminente [sob a lei], porque é uma parte incrivelmente importante das ferramentas que os terroristas usam para justificar o que fazer", conclui Malik.

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