'High School Musical 2' até que não é tão ruim assim

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Matéria originalmente publicada no Noisey US.

Há onze anos, o Disney Channel lançava High School Musical, um filme feito para a TV sobre um atleta chamado Troy (Zac Efron) que se apaixona por uma garota inteligente e bonita chamada Gabriella (Vanessa Hudgens) durante uma viagem de férias no Natal e descobre seu amor pelo canto. Ao voltarem para a escola, porém, ele precisa escolher entre dedicar-se ao basquete e seu amor pela música e Gabriella. Foi um sucesso absurdo de público, lucrou quantias obscenas de dinheiro e alçou seus protagonistas ao estrelato. Com base nisso, viria High School Musical 2 — uma sequência infinitamente melhor — um ano depois.

High School Musical 2 pega o conflito interno de Troy entre seus desejos e responsabilidades, extrapolando-os para um contexto fora da escola. Agora, em vez de ser um lance garota versus amigos e música versus esportes, ele tem que lidar com a dura realidade da vida adulta contra a diversão de suas relações interpessoais. O filme se passa ao longo de um verão, e por mais que a garotada queira só zuar e bater uma bolinha, são forçados a trabalhar por conta da crueldade do capitalismo. No final das contas, todo mundo acaba indo trabalhar no mesmo country club e tem que se submeter à servir a grã-finagem, o que inclui gente da escola deles também.

Com um orçamento de 7 milhões de dólares e com estreia restrita à televisão, o filme conseguiu atrair 17,2 milhões de espectadores no lançamento, atingindo um dos maiores índices de audiência da TV a cabo de seu tempo. Em 2006 e 2007, entre os dois primeiros filmes, estima-se que a franquia lucrou US$ 1 bilhão. A sequência teve recepção mais calorosa que o primeiro filme, sendo muitíssimo bem avaliado por adultos e bizarramente popular entre adolescentes que adoravam aquilo tudo "ironicamente". Por mais que o primeiro filme tenha colocado suas estrelas em destaque global, o segundo foi além: mesmo sendo essencialmente atores infantis, Vanessa Hudgens e Zac Efron tornaram-se um dos casais de celebridades mais comentados, com seus altos e baixos estampando capas de tabloides em todos os cantos.

Mas, por que? Como diabos um musical feito para TV tendo como alvo crianças conseguiu apelar não só ao público-alvo como também meninas pré-adolescentes cuja sexualidade seria formada por Zac Efron, rendendo avaliações decentes e sucesso duradouro? É bem simples, na verdade: o filme é do caralho mesmo. High School Musical 2 é melhor que os outros filmes da franquia por contar com a santíssima trindade de comédia, temática pesada e uma sonzera animalesca. O filme, como é de se esperar, é um extra. Tinha que rolar isso mesmo: há dramaticidade, ainda que brutalmente ciente de si; uma versão que foi exibida semanas após a estreia incluía, entre outras coisas, um contador que registrava quantas vezes um personagem trocava de chapéu. É um filme intencionalmente engraçado e uma aula magna de timing em comédia visual e falada. Trata de responsabilidades, a relação entre amigos e trabalho, a vida real. É pesado o bagulho, tô falando sério.

Dependendo de que lado do muro você fica quanto à ceder ao capitalismo para sobreviver ou não, é possível encarar High School Musical 2 tanto como pró-capitalismo quanto anti-capitalismo. Se o filme é propositalmente alguma dessas coisas, só Deus sabe, mas o que fica claro no argumento é que ter que trabalhar é terrível, especialmente se o trampo é servir a quem não trabalha. É sobre como o dinheiro nos estimula a fazer coisas que normalmente não faríamos. É como Fulton diz à Gabriella, "às vezes temos que fazer coisas, por mais desagradáveis que sejam, pra que aquele pagamento tão importante caia em nossos bolsos tão vazios!".

Por mais que as pessoas no filme não necessariamente acreditem no sistema, precisam agir dentro dele pra conseguir o que querem. Muitas vezes eles trabalham de manhã cedo até tarde da noite. Eles não têm acesso aos mesmos privilégios e instalações que os membros do clube e são até mesmo impedidos de participarem do concurso anual de talentos promovido ali. Quando Troy tem a chance de ver como é a vida do outro lado, ele assume uma postura infinitamente menos contrária ao nepotismo e riqueza do que a que tinha antes. Quando ele começa a se arrepender de como o sucesso está afetando suas amizades, seu pai lhe diz, friamente, "isso se chama trabalho". Na última música, "All for One", todos os ricos e pobres, trabalhadores e membros, deixam de lado suas diferenças e uniformes para cantar juntos e curtir uma festa na piscina. De certa forma é como A Revolução dos Bichos só que com barrigas tanquinho e música pop.

High School Musical 2 também já foi interpretado como uma exploração discreta de temas queer. Na quinta música do filme, "I Don't Dance", Ryan vai ao jogo de baseball de Chad e tenta convencê-lo a dançar no show de talentos, algo que poderia ser compreendido como um conflito entre os interesses de Chad, mas há algo de mais profundo ali. Ryan, que até aquele momento não havia demonstrado qualquer desejo sexual ou mesmo conversado com alguém que não sua irmã, diz a Chad que se ele pode existir em "seu mundo", então Chad pode dançar.

"Eu não danço", diz Chad. "Tem uma coisa que me impede toda vez". Através de dança e olhares galanteadores e metáforas de baseball (jogar pelo outro time, etc) as coisas esquentam um pouco: "Você nunca irá saber se não tentar", diz Ryan a Chad. Ao passo em que Ryan melhora no baseball, ele prova para Chad que não é preciso escolher entre um e outro. Não é necessário escolher entre baseball e dança, diz a música, com uma piscadinha. Ao se comprometer, você pode fazer o que quiser, e quando a música chega ao final, os dois trocaram de roupa. Por mais que seja uma interpretação que exija um pouco de boa vontade, a coisa toda se assemelha a uma metáfora sobre fluidez sexual que passaria numa boa no Disney Channel em 2007.

Além de temas mais maduros e comédia excelente, High School Musical 2 dá certo porque as músicas também dão. A trilha sonora do filme estreou em primeiro lugar no Top 200 da Billboard e ficou em quarto lugar em vendas na primeira semana de 2007 — perdendo para Graduation de Kanye West, Minutes to Midnight do Linkin Park e Curtis de 50 Cent. Por mais que grande parte disso se deva ao fato de que tem muita criança que curte a Disney por aí, também há de se levar em conta que a trilha está lotada de sucessos. Por mais que as faixas no primeiro e terceiro filme sejam extremamente açucaradas ou cheia de saudade romântica e baladas, o segundo filme prioriza angústia, velocidade e hilaridade — em parte porque agora os estudantes estão envolvidos em questões mais sérias ao lidar com a vida adulto e eles mesmos.

Em vez de focar em sonoridades infantis e agudas que chamariam a atenção de crianças abaixo dos dez anos, a trilha conta com gêneros musicais de verdade. O filme abre com "What Time Is It", canção que engloba todo o elenco em torno da banda da escolar com bateria, metais e, claro, batidas eletrônicas. Esta mesma foi lançada como single para o filme e foi single mais bem vendido de 2007. "Gotta Go My Own Way" é um balada pop que soa como a icônica "Leave (Get Out)" de JoJo com um toque de Vanessa Carlton; "All For One" soa como um misto de surf rock e Black Eyed Peas; "Humuhumunukunukuapua'a" tem uma pegada calypso apesar de sua temática polinésia; "I Don't Dance" incorpora elementos de swing; "Fabulous" é uma homenagem esperta e engraçada ao pop de divas; e aí temos "Bet On It" — um quase rock que o Entertainment Weekly chamou de "excelente música sobre crises de consciência".

É neste filme também que Zac Efron canta suas próprias músicas dentro da franquia, e como resultado de tanto, "Bet On It" tem uma sonoridade mais grave que as outras faixas de High School Musical. É uma música forte, em volume alto e angustiada (o que a essa altura do campeonato significava ser emo, então Troy está todo de preto e calça um par de Vans). A letra — "How will I know if there's a path worth taking? Should I question every move I make? With all I've lost, my heart is breaking " — não está nada longe de algo que o Good Charlotte teria escrito. Ele olha a sua imagem gerada por computador perfeitamente refletida no lago e canta "It's no good at all to see yourself and not recognize your face ", antes de esmagar o reflexo e seguir dando piruetas para expressar sua raiva, o que acaba funcionando.

Por mais que High School Musical 2 não seja um primor aos olhos de todos, o filme supera seu status de musical da Disney feito para a televisão. Cada faixa de sua trilha é divertida de forma que outras canções da Disney da época simplesmente não eram. O filme se inspirou nos mundos do pop e rock para criar músicas que não enchiam o saco — que poderiam ser ouvidas mesmo fora de contexto. Além do que, tanto a Disney quanto a mídia adolescente sempre tentaram levar algum tipo de "mensagem" e as presentes em High School Musical 2 são de fato úteis, interessantes e relevantes. Se você mergulhar ou não nas teorias sobre queer e revolução socialista dos fãs, fato é que o filme ainda trata da importância da responsabilidade. Para muitos jovens, talvez tenha sido a primeira vez que alguém lhes disse para levar em consideração a responsabilidade para com seus amigos, trabalho e diversão e como tudo isso se relaciona. O impacto e sucesso da franquia é indiscutível, mas High School Musical 2 é o mais assistível dentre os filmes, sem ironia alguma.

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