Após decisão de Trump, Tim Cook clama por suporte aos jovens imigrantes e diz em carta a empregados que Apple vai ao Congresso

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Tim Cook em loja da Apple

Faz meros quatro dias das grandes empresas de tecnologia — Apple inclusa, obviamente — ao prospecto do governo Donald Trump cancelar o programa DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals, ou Ação Diferida para Chegada de Crianças), que protege jovens imigrantes da ameaça de deportação. Naquele momento, entretanto, a decisão final do presidente e de seu gabinete ainda era um mistério; agora, não mais: hoje pela manhã, o procurador-geral dos Estados Unidos anunciou que o programa está sendo efetivamente encerrado.

Agora, antes de entrarmos na razão principal deste texto, vamos deixar bem claro o que está acontecendo nos EUA: o DACA é (ou era) um programa criado pelo ex-presidente Barack Obama, em caráter emergencial após a recusa do congresso em passar uma lei de reforma migratória mais ampla, que consiste em conceder vistos de estudo ou trabalho (válidos por dois anos e renováveis) aos imigrantes que chegaram ao país ilegalmente com menos de 16 anos — chamados, pelo programa, de “Dreamers” (“Sonhadores”).

Alguns pré-requisitos para aplicar-se ao programa incluem ter entre 15 e 31 anos (completados até 2012), viver nos EUA desde 2007 ou ter servido nas Forças Armadas do país e não ter antecedentes criminais. Desde 2012, o programa contemplou mais de 800 mil jovens imigrantes, especialmente na Califórnia — onde está a sede da Apple e o Vale do Silício — e no Texas. É bom notar que o DACA não concede cidadanias aos beneficiados; os vistos podem ser renovados indefinidamente, mas os jovens devem submeter-se a um grande número de condições e informar constantemente todos os seus dados pessoais ao governo.

A decisão anunciada hoje pelo governo Trump, essencialmente, coloca o futuro do programa nas mãos do Congresso: se os parlamentares não aprovarem algum projeto de lei que garanta a continuação do DACA, seja permanente ou temporariamente, até 5 de março de 2018, os 800.000 imigrantes contemplados perderão todos os seus benefícios — eles não mais poderão renovar seus vistos, e novos imigrantes não poderão se candidatar ao programa. Considerando que o Congresso atual dos EUA é um dos mais conservadores das últimas décadas — ainda mais do que aquele que não passou a lei de reforma migratória de Obama —, pode-se considerar, efetivamente, que o programa está em vias de terminar.

A não ser, claro, que haja uma mobilização muito forte nas ruas e entre setores fortes da sociedade. E é aqui que entramos no principal assunto do texto: Tim Cook, que já havia assinado uma carta aberta das grandes empresas do Vale apoiando a permanência do programa, agora distribuiu outra carta — desta vez, escrita e assinada exclusivamente pelo próprio — aos empregados da Apple. Abaixo, a traduzimos na íntegra:

Pessoal,

Os Estados Unidos prometem a todas as pessoas que aqui vivem a oportunidade de conquistar seus sonhos por meio do trabalho duro e da perseverança. Na Apple, nós nos dedicamos a criar produtos que empoderem estes sonhos. Essencialmente, nós aspiramos ser parte da promessa que define este país.

Hoje mais cedo, o Departamento de Justiça anunciou que o Presidente Trump irá cancelar o programa Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA) em seis meses se o Congresso não agir para torná-lo permanente.

Eu estou profundamente consternado com o fato de que 800.000 americanos — incluindo mais de 250 colegas nossos da Apple — podem brevemente ser expulsos do único país que já chamaram de “lar”.

O DACA reconhece que pessoas que chegaram aos Estados Unidos enquanto crianças não deveriam ser punidas por estarem aqui ilegalmente. Ele permite que estes americanos — que completaram com sucesso uma série de investigações de antecedentes — vão para a escola, ganhem a vida, sustentem suas famílias, paguem impostos e trabalhem para conquistar os seus sonhos, como todos nós. Eles são chamados Dreamers e, independentemente de onde tenham nascido, merecem nosso respeito como iguais.

Ao longo do fim de semana, eu recebi várias mensagens de Dreamers aqui da Apple. Alguns me disseram que chegaram aos EUA com até dois anos de idade, enquanto outros me contaram que nem se lembram de ter estado em algum outro lugar que não este país.

Dreamers que trabalham na Apple podem ter nascido no Canadá ou no México, no Quênia ou na Mongólia, mas os Estados Unidos são o único país que eles já conheceram. Eles cresceram nas nossas cidades e nos nossos municípios, e têm diplomas de universidades do país inteiro. Eles trabalham na Apple em 28 Estados.

Eles ajudam nossos clientes nas nossas lojas. Eles desenvolvem a engenharia dos produtos que as pessoas amam e estão ajudando a construir o futuro da Apple como parte das nossas equipes de P&D (pesquisa e desenvolvimento). Eles contribuem para a nossa empresa, nossa economia e nossas comunidades tanto quanto eu ou você. Seus sonhos são os nossos sonhos.

Eu quero garantir a vocês que a Apple vai trabalhar com membros do Congresso de ambos os partidos para advogar por uma solução legislativa que proporcione uma proteção permanente a todos os Dreamers no nosso país.

Nós também estamos trabalhando de perto com cada um dos nossos colegas para oferecer a eles e às suas famílias o suporte que eles precisam, incluindo os conselhos de especialistas em imigração.

Em nome de cada uma das centenas de empregados da Apple cujo futuro está em jogo; em nome de seus colegas e em nome dos milhões ao redor dos Estados Unidos que acreditam, como nós, no poder dos sonhos, nós emitimos este pedido urgente para que os nossos líderes em Washington protejam os Dreamers para que seus futuros nunca mais sejam postos em risco desta forma novamente.

Apesar deste revés para a nossa nação, eu estou confiante de que os valores americanos irão prevalecer e nós continuaremos a nossa tradição de receber imigrantes de todas as nações. Farei tudo o que eu puder para garantir esse horizonte.

Tim

Cook também tweetou sobre o assunto com um pequeno trecho da carta:

Os #Dreamers contribuem para as nossas empresas e nossas comunidades tanto quanto eu ou você. A Apple vai lutar para que eles sejam tratados como iguais.

As palavras de Cook, naturalmente, encontram reflexos em outras grandes empresas do Vale do Silício — algumas delas até mais enérgicas. A Microsoft, por exemplo, anunciou que arcará com todos os custos judiciais dos seus empregados que precisem ir à justiça caso seus vistos concedidos pelo DACA expirem (embora, é bom notar, a Microsoft tenha apenas 39 Dreamers no seu quadro de funcionários, enquanto a Apple tem mais de 250). Google, Facebook, Twitter, Amazon e todas as outras velhas conhecidas também se pronunciaram contra a decisão de Trump e apelando por uma ação do Congresso.

Como bem põe o Vox, o fim do DACA representa, com efeito, a maior “ilegalização” de imigrantes já realizada na história dos EUA; um caso sem precedentes que encontra oposição até mesmo entre membros do Partido Republicano e apoiadores de Trump — em junho, quando o presidente contraditoriamente anunciou que não iria tocar no programa, a opinião pública ficou (quase) toda do seu lado. Portanto, não é como se Apple, Microsoft, Google e companhia limitada estivessem representando a única voz dissonante num mar de aprovação à decisão do governo.

Como eu sempre gosto de lembrar, no fim das contas, a motivação principal das empresas de tecnologia é, sempre, o lucro — se elas posicionam-se de forma tão enérgica contra um assunto, você pode ter certeza de que, de alguma forma, é porque os seus cofres (ou a perspectiva de engordá-los ainda mais) serão afetados. Isso não diminui, entretanto, a importância do apoio das gigantes de tecnologia nesta questão crucial — e eu, pessoalmente, acredito na genuinidade e nas boas intenções das palavras de Cook. O que alguns (eu incluído) poderiam considerar simplesmente um bom coração, entretanto, outros já consideram os primeiros indícios de um engendramento para uma possível candidatura à presidência em 2020.

De uma coisa, pessoalmente, eu tenho certeza: Cook seria um presidente dos EUA muito melhor do que a figura atual na Casa Branca. De fato, ele pode ser um presidente melhor para os EUA do que o é para a Apple.

via TechCrunch

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