O LSD virtual é uma viagem muito gostosa

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De uma conversa doidona entre amigos num ofurô de hotel surgiu a ideia de um experimento tecnológico e lisérgico em realidade virtual. "Qual piscina você gostaria de ter na sua casa? De chocolate, amendoim, M&Ms?", perguntou o desenvolvedor de software Santiago Andreuzza, de 29 anos. Diante da dificuldade tremenda que seria criar um líquido infinito, o projeto foi adaptado e, então, nasceu o LS4D, uma experiência baseada nos efeitos do filho do cientista suíço Albert Hofmann, o LSD.

Sempre fui entusiasta de criações digitais que proporcionam sensações e chapações diferentes. Além de assistir vídeos de ASMR com frequência (faço isso durante o expediente, inclusive), lembro de utilizar o I-Doser ainda em 2006, uma plataforma de faixas de áudio que supostamente emulam no ser humano brisas de drogas diversas e até mesmo de remédios.

Mesmo cogitando a possibilidade de concluir meu dia de trabalho atabalhoada das ideias e, consequentemente chapada, topei testar o LS4D numa sala de reunião dois andares acima da redação. Foi aí que conheci Santiago e Igor Oliveira, 26, engenheiro elétrico e coordenador técnico de laboratório. Ambos são sócios na Aerolito, empresa portoalegrense de tecnologia da informação que, além de prestar serviços para outras companhias, investe tempo, dedicação e dinheiro em experimentos futurísticos, como o LS4D.

O lance é simples e quase parece um game: você coloca os óculos de RV, escolhe uma de quatro músicas e adentra um cenário. Ali, você pode interagir com um fluido e habitar um universo levemente psicodélico. Os óculos trazem acoplado um LeapMotion, dispositivo com um sensor que capta os movimentos das duas mãos. Escolhi uma música que me levou para uma tela rosa e azul, onde uma espécie de bolha de água corrente, mas vagarosa, flutuava diante de mim. Igor sugeriu, então, que eu fizesse um movimento de "pinça" com os dedos para arrastar esse fluido. E foi aí que começou a chapação. Acabei esquecendo completamente o que estava ao meu redor e fiquei na função de arrastar o fluido prum lado e pro outro e de fazê-lo explodir como se fosse uma missão. É muito doido tocar em algo que não existe de verdade.

Uma das telas do LS4D. Imagem: divulgação

"Existem pouquíssimas aplicações de fluidos em RV com esse tipo de interação. Não achamos nada parecido. Talvez exista, mas não conhecemos", explicou Igor.

O cenário mais sinistro era uma floresta. Lá, além do céu estrelado no alto, havia uma fogueira e o tal fluido. Continuei na saga de estourá-lo. Enquanto isso, no mundo carnal, um cheirinho frutado e uns esguichos de água vinham em minha direção oriundos de dois pequenos ventiladores e um borrifador.

Não fiquei chapada, mas, nos cinco minutos depois de tirar o óculos, sentia como se tivesse tomado um calmante ou saído de uma aula de ashtanga, aquela modalidade de ioga que te faz repetir movimentos insanos e suar em bicas. Rolou uma paz e uma calmaria incomuns. Mas por que não chapei? "O LSD foi uma referência. Não temos pretensão de fazer a pessoa sentir a mesma coisa que numa trip", pontuou Santiago.

A repórter Débora Lopes e dois dos criadores do LS4D, Santiago Andreuzza (atrás) e Igor Oliveira (à direita). Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Talvez, uma experiência como a que estamos construindo ajude no caminho de tirar uma pessoa da droga ou cause uma viagem diferente pra saciar o desejo dela de usar aquela droga", rebateu Igor. "Não é invasivo, não causa nenhum dano no corpo, não tem alteração química."

Foram 100 horas de desenvolvimento de software e entre R$ 15 e R$ 20 mil investidos no projeto, que não tem objetivo de ser rentável para a Aerolito. "É um investimento em algo que acreditamos", finalizou Igor. A dupla crê que esse tipo de interação pode ser útil não só nos games, mas também para pesquisas de neurociência. Segundo eles, dá para usar a imersão sensorial para estudos que medem a atividade cerebral em inúmeras atividades.

Agora é aguardar a piscina infinita de chocolate.

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