Será que a Apple vaza seus produtos intencionalmente?

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Cochichando

As apresentações dos produtos da Apple são como blockbusters cinematográficos. E blockbusters não fazem sucesso sem um elemento imprescindível: os trailers.

Trailers são vídeos curtos que resumem o enredo do filme. É através do trailer que é gerada a euforia necessária em volta da sua obra. Mas dispositivos eletrônicos não são filmes. A Apple não pode fazer um trailer do “iPhone 8”. Seria, no mínimo, patético. Mais interessante do que resumir o produto é fazer parecer que ele vazou. Propositalmente ou não, a empresa de Cupertino se beneficia como ninguém do vazamento de funções específicas dos seus produtos. O raciocínio é contra-intuitivo: a palavra “vazar” já vem com uma conotação negativa, ainda mais no nosso país, em que ela geralmente vem acompanhada de “delação premiada”.

HomePod delatando os planos da Apple

Crédito: Saif Aslam

O assunto veio em boa hora. O “iPhone 8”, que se tudo sair como deveria tem deverá ser apresentado no mês que vem, já é considerado o aparelho mais “vazado” da história. Tantos são os leaks que precisamos numerar os artigos sobre eles (1, 2, 3, 4; para citar apenas alguns) — e já estamos ficando sem ideias sobre como começar o primeiro parágrafo desses posts sem parecer repetitivo.

Quando uma foto do “iPhone 8” vaza, na teoria, ela destrói a grande surpresa do evento. Mas na prática é diferente: ela só aumenta a ansiedade do público. A Maçã se beneficia do vazamento dos seus produtos de algumas formas: mídia gratuita, criação de euforia e gerenciamento de expectativa.

Vamos começar com a mídia gratuita. Os rumores sobre gadgets da Apple são uma máquina que se retroalimenta. Sempre que alguma foto misteriosa surge, um analista dá alguma dica, ou um firmware revela alguma coisa, milhares de blogs especializados no assunto reproduzem instantaneamente a notícia. Em seguida, portais maiores “copiam” as matérias, geralmente de uma forma sensacionalista (ex: “Você não vai acreditar nessa função do próximo iPhone!”). O resultado disso: milhões de pessoas ficam sabendo sobre o lançamento do aparelho com uma curiosidade incessante. Essa é uma forma muito eficaz de atingir o público — e totalmente gratuita.

Toda essa mídia espontânea cria uma narrativa mental na população, gerando um efeito de euforia coletiva — o famoso hype. Pense nos rumores e vazamentos como gotas que caem num pote. Conforme novas notícias vão surgindo, o público vai ficando mais ansioso para o evento. O vaso transborda no dia da keynote. E não se engane: ninguém vai deixar de assistir Tim Cook no palco só porque algumas imagens do aparelho surgiram nos confins da internet. É como de deixar de ver Star Wars só porque viu o trailer no YouTube.

Os vazamentos da Apple também tem o efeito de gerenciar a expectativa do público. Com certeza você já recebeu por WhatsApp ou viu no Facebook algum vídeo mockup do “iPhone 13”, com uma tela gigantesca que abre um retroprojetor e raios laser. Imagine se a população achasse que um aparelho dessa magnitude fosse surgir a cada ano, mas dessem de cara com um iPhone relativamente morno (que foi o 7, por exemplo). Se os produtos não vazassem, as altas expectativas teriam um efeito negativo nas vendas. Como as pessoas já esperavam um iPhone 7 com design similar ao 6, as vendas foram de acordo com o planejado.

Mockup de iPhone 7 preto espacial Unboxing do iPhone 7 preto matte

Mockup do iPhone 7 à esquerda; iPhone 7 à direita, conforme as expectativas

Mas será que Apple realmente vaza os seus produtos de propósito? Um ex-executivo da Apple afirmou que sim — e contou como isso funciona:

Um executivo sênior chega e fala: “Nós precisamos liberar essa informação específica. John, você tem algum amigo de confiança? Se sim, ligue pra ele e tenha uma conversa. Solte a informação e sugira que se fosse publicada seria legal. Nada de emails”. A comunicação é sempre pessoalmente ou por telefone mas nunca por email. Isso é porque se houver alguma discussão sobre como aconteceu o vazamento, não existirão rastros para contradizer nenhuma das versões da história. As duas partes podem negar e afirmar que foi um mal entendimento […].

Eu resolvi escrever esse artigo depois de ver a quantidade de informação sobre o “iPhone 8” que o firmware do HomePod nos trouxe. Na minha opinião, é pouco provável que uma empresa do tamanho da Apple faça a trapalhada de liberar um software repleto de dicas sobre como será o próximo iPhone de forma não intencional. Acho que existe a chance de sido proposital. E se foi, funcionou perfeitamente.

HomePod delatando os planos da Apple

Crédito: Saif Aslam

O desenvolvedor brasileiro Guilherme Rambo, que foi um dos responsáveis por encontrar todas aquelas referências lá dentro, me contou que tem uma opinião diferente. Ele acha mais provável ter realmente sido uma trapalhada do pessoal de Cupertino do que um vazamento proposital.

Segundo ele, a intenção da Apple era sim colocar o firmware no ar de forma pública, mas na hora de liberar confundiram o build (versão) do software e acabaram soltando uma cheia de referências. Segundo Rambo, é bastante complexo até para uma empresa do tamanho da Apple retirar todas as menções a devices futuros dentro de um firmware.

Propositalmente ou não, agora sabemos uma série de coisas sobre o aparelho — ao mesmo tempo não sabendo nada. Que baita trailer!

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