A última batalha de 'Game of Thrones' fez o que a maioria dos filmes de guerra não consegue fazer.

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Esta matéria foi originalmente publicada na O Resgate do Soldado Ryan , Coração Valente , Corações de Ferro ou até Star Wars , os filmes têm muita dificuldade para mostrar os sentimentos tridimensionais que você esperaria das imagens reais da guerra, em vez disso focando em apenas um lado. Stalingrado – A Batalha Final, é um filme que consegue usar isso como uma condenação geral da guerra. O filme foca num grupo de soldados nazistas (os vilões) lutando contra a força muito maior russa por causa da obsessão de Hitler em tomar a ilustre cidade. Os soldados questionam o propósito de estar ali, algo similar às disputas sobre o Vietnã em filmes como Apocalypse Now e Nascido Para Matar.

Naturalmente, poucos filmes fazem um esforço para mostrar a totalidade de pontos de vista numa sequência, ou simplesmente não conseguem, mas "Espólios da Guerra" conseguiu fazer isso em uma cena de batalha de 20 minutos – em grande parte porque já passamos mais de 50 horas conhecendo e nos envolvendo com os personagens de Game of Thrones.

Separando as partes, podemos começar com o "vilão": Jaime Lannister, um homem cuja derrota absoluta serve como o ponto de vista principal do seguimento. Estamos falando de um homem de família aqui – no sentido mais bizarro. Jaime não busca poder, ele está comprometido em executar os objetivos da casa Lannister e de sua principal comandante, Cercei, sua irmã gêmea. Durante sete temporadas, os espectadores foram obrigados a assistir esse homem perder a mão, os filhos, o pai, o irmão (para o outro lado, no caso), só por alguma merda de incesto/honra de família. O ver perder a vida defendendo um monte de carroças de trigo seria pateticamente cruel, então era muito fácil querer torcer por ele, mesmo sabendo que ele é inimigo do bem em Westeros. (Também é a série fazendo parecer que o Regicida provavelmente vai matar sua rainha/irmã/amante, o que acrescenta sentimentos conflitantes sobre Jaime Lannister nos espectadores.)

Na batalha de "Espólios da Guerra", a perspectiva do espectador é colocada no ponto de vista dele no solo – fazendo as forças de Daenerys parecerem aterrorizantes através da imagem da horda Dothraki surgindo no horizonte como uma besta que desafia as regras homem a homem da guerra.

Bronn via HBO.

Ao lado dele temos nosso querido anti-herói Bronn. O braço-direito de Jaime é um personagem que não fica favorável a nenhum lado a menos que aja um incentivo financeiro – Bronn é um mercenário simpático, com uma fibra moral descente e deliciosamente sarcástico. Até o bobo Dickon ( rs, diria o Bronn) é apresentado de maneira simpática como só um cara tentando agradar o pai na batalha, mas sofrendo com a culpa por matar outros homens.

Do outro lado você tem a mãe dos dragões, Daenerys Targaryen, que, claro, serve como o "bem" da sequência. O público conhece a luta dela: seu estupro, escravidão e depois o triunfo sobre um bando de caras escrotos. Ela era a pária original, que agora conta com o superpoder de uma força aérea de dragões entre homenzinhos com pedaços pontudos de ferro. Mas a assistir incinerando tantas vidas humanas no campo de batalha quase nubla o fato de que ela é a representante do bem. Não nego a satisfação de ver os bandidos recebendo o que você acha que eles merecem, mas que jeito de morrer – entre gritos, súplicas e cinzas.

Daenerys Targaryen, via YouTube.

(A dominância de Daenerys sobre as forças do "mal" se torna ainda mais desconfortável graças a uma cena do episódio anterior, quando Arya Stark conhece um bando de soldados Lannisters num acampamento. Os homens são gentis e simpáticos – mesmo com ela dizendo na cara deles que planeja matar sua rainha. Só podemos imaginar que são alguns desses mesmos caras – bom, pelo menos o Ed Sheeran – sendo queimados vivos em massa na cena. O que tornou a imagem do exército carbonizado por um dragão em "Espólios da Guerra" um tanto difícil de assistir.)

Assistindo a batalha se desenrolar de uma colina próxima, temos Tyrion. Irmão do dito vilão que trocou de lado para escapar da casa Lannister que o tratava como lixo. Apesar de sua lealdade à Rainha dos Dragões, sangue ainda é sangue, e durante essa cena, você pode sentir o desespero dele vendo Jaime fazer algo idiota/corajoso. Sua avaliação precisa do momento, "seu maldito idiota", deu peso ao absurdo de um homem indo contra uma rainha protegida por seu dragão gigante feroz. De certa maneira, Tyrion é sempre um perdedor – nunca vai realmente vencer porque a perda é inevitável para ele, independente do resultado. Você pode até dizer que a perspectiva dele é a mais parecida com a do espectador. Simpatizamos com os dois lados dessa guerra porque investimos em todos esses personagens.

Tyrion Lannister, via YouTube.

Guerra nunca é algo bidimensional. O ato de matar outro ser humano, independente do lado em que ele está, deveria importar sempre. Mas retratar isso em combate é muito difícil. Substituir a fragilidade da vida humana, tão difícil de ilustrar, com personagens pensados para nos fazer se importar com eles nos dois lados emulou muito bem a verdade da guerra.

Eu só não esperava isso de uma série da HBO sobre zumbis congelados, dragões e incesto entre gêmeos.

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Tradução: Marina Schnoor

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