'Em Ritmo de Fuga' só vale a pena nas cenas de ação

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Antes da estreia de Baby Driver, traduzido como Em Ritmo de Fuga no Brasil, divulgaram os seis primeiros minutos do filme na internet. No clipe, é possível ver exatamente o que o título promete: muito ritmo, muita fuga e vários personagens em ritmo de fuga. Mas no resto do filme, que estreou semana passada no Brasil, a empolgação do início dá lugar a clichês e diálogos mecânicos que freiam toda a narrativa.

É até surpreendente que o resto do filme não acompanhe o ritmo da sequência inicial. Poucos diretores atuais podem arrotar que manjam tanto da linguagem contemporânea do cinema pós-MTV quanto o britânico Edgar Wright. Tirando referências de mestres do passado, como Buster Keaton e Chaplin, na sua trilogia Cornetto (Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca) ele se apropriou do ritmo de edição popularizado pelos video clipes dos anos 90 e 00, encaixando-o num formato de humor visual muito superior ao humor baseado em diálogos que tomou o cinema mainstream de assalto nas últimas décadas.

O que mais impressionava nos seus filmes passados é justamente o maior pilar estético de Em Ritmo de Fuga: a ligação rítmica entre ações visuais com ações sonoras. Neste filme, o diretor encaixa o ritmo de músicas clássicas de rock e funk com os roncos de carros, os barulhos de sirenes, tiros e armas sendo recarregadas. É uma subversão moderna do gênero musical, transformando o que era técnica nos seus trabalhos anteriores em pura linguagem em Em Ritmo de Fuga.

Mas os méritos de Edgar Wright param aí. Enquanto o diretor fica praticando o seu virtuosismo cinematográfico nas cenas de perseguição (que gradualmente vão ficando menos criativas), a história cai em clichês e tem viradas forçadas que desfazem todo o trabalho de construção de personagem do começo.

A trajetória da maioria dos personagens é confusa e parece forçada a cumprir os caprichos do roteiro. Quem era anti-herói coadjuvante no começo se torna o vilão principal; quem era vilão desde início inexplicavelmente se torna herói no final. O protagonista, Baby, não aprende com os seus erros; o par romântico dele, a garçonete Debora, não amadurece com a realidade cruel a qual ela é exposta; Doc, o vilão interpretado por Kevin Spacey, muda completamente de personalidade sem dar justificativa alguma pra sua transformação.

Baby, o motorista confuso de 'Em Ritmo de Fuga'.

O filme chega ao final com mais perguntas do que resoluções. São tantas pontas soltas que até parece que estavam com pressa para subir logo os créditos antes que percebessem que as cenas que conectavam as perseguições de carros, aquelas cenas em que a história deveria se desenvolver, não fazem sentido.

É irritante o contraste de qualidade entre algumas cenas de Em Ritmo de Fuga. As cenas de ação, em que tiros e carros formam uma orquestra bem ensaiada, parecem ser regidas por um maestro, enquanto todo o resto é enterrado por momentos muito manjados do seu próprio gênero (uma dívida entre bandidos! Um último roubo antes da aposentadoria! Um cara fora de controle que coloca tudo em risco! Um assaltante de bom coração que não quer colocar a vida das pessoas que ama em perigo!). É praticamente uma música do Van Halen: quando ela para de tocar, as pessoas só lembram dos solos impressionantes sanduichado entre as partes de rock romântico clichê.

Esse é um filme que me divide, porque proporciona experiências empolgantes e entediantes ao mesmo tempo. Vá assistir se você gosta de ver cenas de ação dirigidas com um virtuosismo raro na história do cinema pop; fique longe se você realmente gosta de uma história que faça sentido do começo ao fim.

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