Por que Jihadistas odeiam o ocidente

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Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Em 2003, enquanto cobria o julgamento de Mounir el-Motassedeq, um dos primeiros acusados de envolvimento no 11 de Setembro, para o Washington Post, Souad Mekhennet foi a um jantar em Hamburgo, na Alemanha. Ela se sentou ao lado de uma testemunha cujo marido era um bombeiro morto nos ataques. A testemunha, Maureen Fanning, fez uma pergunta a Mekhennet que desde então passou a guiar muito do seu trabalho como jornalista: "Por que eles nos odeiam tanto?"

Naquela época, Mekhennet não tinha uma resposta. "Me senti obrigada a entender o que moveu esses homens... o que moveu outros como eles", escreve a repórter em seu livro de memórias I Was Told to Come Alone: My Journey Behind the Lines of Jihad , que conta suas experiências como jornalista cobrindo militantes religiosos na Europa e Oriente Médio.

Mekhennet consegue se comunicar entre limites culturais e religiosos graças à sua identidade marroquina-turca e sua origem muçulmana. Ela também tem consciência de que não existem soluções fáceis e óbvias para o problema do extremismo. "Você não pode bombardear [os redutos do ISIS em] Raqqa e Mossul e achar que esses jihadistas vão desaparecer", me disse ela por telefone. Uma investigação mais profunda e psicológica é necessária. "Não há como entender o que está acontecendo nos corações e mentes dessas pessoas a não ser se encontrando com elas."

Há uma grande necessidade de exploração do "porquê" além do "o quê", especialmente em relação aos ataques realizados em nome do Islã, mas que não refletem seus ensinamentos, o que se tornou cada vez mais comum.

Quando conversamos em maio último, Mekhennet tinha acabado de voltar de Manchester, onde cobriu os resultados do ataque que matou 23 pessoas, incluindo Salman Ramadan Adebi, o terrorista de 22 anos que nasceu na Inglaterra de pais líbios. Mekhennet falou com membros da comunidade dele, além de pessoas da mesquita que ele frequentava, numa tentativa de rastrear sua radicalização.

O livro começa com a história do encontro entre Mekhennet e Abu Yusaf, em 2014 , superintendente de um programa de sequestro de jornalistas e supervisor do homem que ficaria conhecido como Jihadi John (cuja identidade Mekhennet revelaria ao público). Ela foi instruída a encontrar Abu Yusaf sozinha, à noite, na fronteira entre Turquia e Síria, apesar de alertas da unidade antiterrorista alemã sobre um plano para sequestrá-la e casá-la com um militante. Durante a história do encontro, Mekhennet enfatiza os paralelos entre as origens deles, a marginalização que cada um encontrou ("Crescendo no meu país natal [Alemanha] como imigrante, ou mesmo como filha de imigrantes, você tinha que andar na linha e elogiar o progresso da Europa"), além das diferentes mentalidades que cada um abraçou, os caminhos diferentes escolhidos.

"Houve momentos em que a frase errada ou o olhar errado poderia acabar com a sua vida."

Mekhennet se afasta desse prólogo para familiarizar o leitor com suas origens, uma muçulmana marroquina-turca crescendo na Alemanha. Quando criança, ela passou vários anos Meknès com os pais e avós. "Eles me ensinaram que eu devia olhar o que eu tinha em comum com outras religiões e outras pessoas", disse Mekhennet, "não o que nos dividia". Sua origem religiosa lhe deu a habilidade de perceber alguém que usa o Corão fora do contexto, interpretando o texto de maneira que sirva a seus próprios interesses.

Mekhennet tem histórias do Iraque, Líbano, Argélia, Jordânia e Paquistão. Ela nos leva para o Egito e Tunísia durante a Primavera Árabe (que ela considera um dos dois grandes pontos de guinada da região e momentos de radicalização, junto com a invasão do Iraque em 2003), para Bahrein e Irã, e finalmente para a Europa, local de tantos ataques terroristas nos últimos dois anos.

Muita da tensão no livro deriva de encontros com líderes islâmicos nesses lugares, e suas tentativas de entendê-los. Entre os mais notáveis estão seus encontros com os protégés de Abu Musab Al-Zarqawi em Zarqa, Jordânia; suas viagens para os acampamentos de refugiados palestinos no norte do Líbano para se encontrar com Shaker al-Abssi, do Fatah al-Islam; e receber ligações frenéticas do sobrevivente de tortura pela CIA Khaled Al-Masri, que temia por sua segurança e implorou para se encontrar com ela (o que ela fez).

Mekhennet se colocou várias vezes em grande risco. "Houve momentos em que a frase errada ou o olhar errado podia acabar com a sua vida", me contou.

"O que aprendi sobre os recrutadores do ISIS é que eles estão usando palavras e declarações feitas durante a campanha eleitoral e as tirando de contexto para recrutar pessoas."

Mekhennet enfatiza que em seus encontros com esses indivíduos, a maioria deles não falou sobre religião. Eles falavam sobre política, e o que consideravam hipocrisia e injustiça, principalmente vindas do Ocidente. "Os governos ocidentais estão sempre falando sobre a importância de direitos humanos e liberdade religiosa", disse Abu Yusaf a ela durante o encontro deles, "enquanto relegam seus moradores muçulmanos a uma espécie de cidadania de segunda classe".

Os líderes militantes falavam sobre o Iraque e armas de destruição em massa, além de Guantánamo e centros de detenção secretos. Muita da raiva deles vinha de uma retórica anti-islâmica usada pelos líderes ocidentais. (Marine Le Pen, Geert Wilders, o Novo Movimento de Direita na Dinamarca e Donald Trump, por exemplo.) "O que aprendi sobre os recrutadores do ISIS", Mekhennet me disse, "é que eles estão usando palavras e declarações feitas durante a campanha eleitoral e as tirando de contexto para recrutar pessoas".

Mekhennet diz que Abedi e seu irmão mostravam sinais de radicalização muito antes do ataque em Manchester. Mas enfatizou que tal linguagem pode levar jovens muçulmanos a se sentirem vítimas com base em sua religião, especialmente quando políticos não se esforçam para diferenciar entre muçulmanos moderados e extremistas.

Foto por Ben Kilb/cortesia da Henry Holt.

Ainda assim, poucos dentro da comunidade muçulmana estão fazendo contra-argumentos visíveis a essas declarações. Não há um espaço nas mesquitas para um diálogo assim; toda discussão sobre extremismo é proibida, incluindo na mesquita de Abedi em Manchester.

"Cruzei com imãs [sacerdotes muçulmanos] que me disseram que algumas pessoas de dentro de suas mesquitas tentaram começar essas discussões, mas que eles não podem tê-las, porque se abrirem para essa discussão, um informante pode dizer que sua mesquita está radicalizando pessoas", diz ela.

A falta dessas conversas leva a um vácuo. E assim, jovens muçulmanos que estão procurando uma identidade, e que se sentem alienados pela retórica de líderes ocidentais nos países em que vivem, podem ser alvos fáceis para os recrutadores. "Quando as pessoas sentem que não podem ser norte-americanas e muçulmanas, ou que seus países ou sociedade não os veem como parte deles por serem muçulmanos — essa é uma mistura muito tóxica, considerando a situação atual. Isso pode abrir as portas para recrutadores que dizem 'É isso que seu país pensa de você'", me disse Mekhennet.

Mesmo procurando entender os extremistas, Mekhennet disse que não tenta desculpá-los ou desculpar suas ações violentas. Em vez disso, ela está realmente tentando entender as perspectivas dos jihadistas e explicar suas motivações.

Mekhennet tinha outro objetivo com o livro: desafiar a generalização sobre os muçulmanos, e sobre as mulheres muçulmanas em particular. Embora seja verdade que em alguns países muçulmanos as mulheres são destratadas, muitas vezes — e infelizmente — em nome da religião, isso não é verdade em toda parte. "Tenho impressão que há um certo jeito de olhar para a comunidade muçulmana e mulheres muçulmanas como homogêneas", ela me disse. "Mas nem toda muçulmana é igual, e nem toda muçulmana não tem poder."

Como muçulmana e escritora de ficção, já encontrei algumas dessas generalizações, seja por choque com uma personagem árabe que não usa o hijab, ou pedidos de mais camelos e mesquitas em cenas passadas em outros países. De certa maneira, ignorar nuances e ver todas as muçulmanas como homogêneas e oprimidas pode ser uma forma de opressão.

Parte da decisão de Mekhennet de começar o livro com sua infância e sua família é para derrubar essas generalizações sobre muçulmanos, que tantas vezes emergem no discurso ocidental. Ela sentiu que era importante, antes de falar sobre sua carreira jornalística, explicar aos leitores quem ela era. "Minha criação conta uma história que mostra como os muçulmanos podem ensinar seus filhos a ver o que todos temos em comum, famílias muçulmanas que querem que seus filhos se envolvam com pessoas de outros grupos religiosos."

Ao mesmo tempo, ela está tentando mandar uma mensagem para a comunidade muçulmana. "Mesmo se você se sente marginalizado ou discriminado às vezes, o que já passei em alguns pontos da minha juventude, não acredite naqueles dizendo que a única solução é desistir do seu lugar na sociedade", ela disse. "Você pode cruzar com mais obstáculos, mas não acredite em respostas fáceis."

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I Was Told to Come Alone: My Journey Behind the Lines of Jihad de Souad Mekhennet está disponível nas livrarias e online pela Henry Holt.

Tradução: Marina Schnoor

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