O negócio dos apps de encontro está deixando muita gente vulnerável

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A busca por amor e sexo procria apps, com alternativas de todas as matizes sexuais que você possa imaginar. Aplicativos focados no público gay, como o Grindr ou lésbico, como o Her ou o Wapa. Para quem busca explicitamente só sexo casual, tem o Casualx; para quem acha que dois é pouco ou quer ter uma porta mais aberta para realizar fantasias, há o Feeld. Para quem tem algum amigue do Facebook como alvo, existem apps como o Poppin para provocar matches entre quem vai ou tem interesse nos mesmos eventos. Para quem não gosta do totalmente desconhecido, vários apps têm apostado nas nossas redes como referências, viabilizando conversas só entre amigues de amigues, como o Flert ou o Hinge. Para quem se incomoda com o estilo vitrine de corpos, tem até app que só libera a foto depois de algum papo, como é o caso do Appetence.

Nesse cenário fértil, a indústria de encontros online movimenta muito dinheiro: estima-se que, só nos EUA, os lucros do Match Group, responsável pelo Tinder, Ok Cupid e Match.com, cheguem a US$ 2 bilhões ao ano.

O que alimenta essa indústria são os nossos dados. Diferentes critérios, como gostos e afinidades, distância e amigos em comum calibram os algoritmos que tratam de exibir ou esconder alguém que potencialmente seria interessante ou não. Fazer a gente pagar para ter mais possibilidades de encontros (matches) é um dos modelos de negócio dessas empresas. Usuários de apps de namoro têm mais tendência a pagar pelo uso do que em redes sociais direcionadas a outros fins, como o Facebook e LinkedIn. Neste caso, o dinheiro aumenta as possibilidades amorosas das pessoas.

Tinder, Ok Cupid e Grindr, que estão entre os apps mais populares, têm a opção de pagar para aumentar o poder de conquista. Além de remover os anúncios, os planos premium popularizam seu perfil artificialmente, aumentam o número de perfis exibidos ou o limite de "likes" e dão a possibilidade de você voltar a ver um perfil que interessou, mas seus dedos afoitos na busca deixaram passar. As regras que ditam quem aparece para quem, no entanto, não são exatamente claras. Quem define seus crushs em potencial?

Pedro, 31 anos, resolveu testar o serviço pago do Tinder, que destaca o perfil e torna ilimitado o número de likes. Ele, que tinha um ou dois matches por semana, foi surpreendido com 40 em oito horas. Depois do impulso pago, no entanto, os matches continuaram acontecendo com uma frequência maior. "Ou eu não aparecia para ninguém ou ele simplesmente suprime de quem não paga", diz, questionando a maneira como as pessoas são distribuídas umas para as outras.

Os negócios não vivem só de contas pagas, é claro. Muita gente prefere usar a versão grátis dos apps e ficam sujeitas a verem anúncios. E, quando o produto é oferecido de graça, o usuário é que é o produto. Os valiosos dados sobre o comportamento das pessoas enquanto estão flertando são fornecidos a anunciantes, empresas de marketing, pesquisa e parceiros comerciais.

Os quatros apps que analisamos — Tinder, Happn, OkCupid e Grindr — cedem informações sobre seus usuários para parceiros. Isso significa, por exemplo, que seus gostos, padrões de comportamento, horários de conexão e outras informações podem ser analisados e utilizados por outras empresas para vários fins. Eles vão desde a exibição de propagandas direcionadas até a venda de um pacote de informações a um data broker, empresa dedicada a comercializar e analisar grandes volumes de dados.

Todas essas informações recolhidas podem ficar disponíveis mesmo que você saia do aplicativo e cancele sua conta. Isso porque, guardando nossos dados, fotos e históricos de conversa, as empresas podem seguir ganhando com os perfis que traçam baseadas em nossos dados, mesmo quando já não usamos seus serviços.

Um estudo feito pelo Privacidade Brasil publicado nesta segunda-feira analisou políticas de privacidade de 14 redes de relacionamento e fez um ranking considerando vários critérios sobre transparência e clareza. A única rede que se saiu bem foi um site — o Coroa Metade. Todos os apps tiveram pontuação negativa em relação ao consentimento, clareza sobre os riscos ou práticas de compartilhamento de dados, e a exigência de login pelo Facebook e uso de imagem no perfil.

Leia mais na reportagem de Motherboard.

ver Vice Brasil
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