Estudante infiltrado em fábrica da Pegatron relata as condições de trabalho na montagem do iPhone 7

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Dejian Zeng Pegatron

O presidente americano Donald Trump já se manifestou diversas vezes a favor da fabricação dos produtos da Apple nos Estados Unidos. Muitos rumores apontam que existe, sim, esta possibilidade, mesmo que apenas uma pequena parcela do trabalho migre da Ásia para lá.

Muitos de nós, quando refletimos nisso, logo pensamos no preço final dos produtos, que pode aumentar se isso de fato acontecer; entretanto, como bem lembrou o Cult of Mac, talvez algo que os americanos irão precisar se adaptar é o modo de trabalho de uma fábrica dessas, principalmente se ela seguir os preceitos da Foxconn e da Pegatron, as principais parceiras/montadoras de produtos da Maçã.

Então, para mostrar às pessoas uma visão mais realista de como é trabalhar nesse tipo de fábrica, o estudante da Universidade de Nova York Dejian Zeng se “infiltrou” numa das unidades da Pegatron e contou ao Business Insider o que experimentou durante o tempo de trabalho.

Dejian Zeng Pegatron

Zeng passou seis semanas trabalhando em uma fábrica da Pegatron em Xangai (China), durante o período de transição de fabricação do iPhone 6s para o 7. Logo quando chegou, ele passou por dois dias de treinamento e lhe foi atribuído o trabalho de colocar um parafuso no alto-falante dos aparelhos — somente isso, 12 horas por dia —, o que ele considerou “bastante chato”.

Como precaução, os empregados são proibidos de levar aparelhos eletrônicos para o trabalho, para que não haja distração (como música, por exemplo). Eles submetem os trabalhadores a detectores de metal, para certificarem-se de que ninguém trouxe consigo nenhum dispositivo. E Zeng presenciou isso mais fortemente em agosto, quando iniciaram a montagem do até então secreto iPhone 7.

Quando estávamos produzindo o iPhone 7, havia empregados da Apple lá todos os dias para monitorar o processo, pois sendo um novo produto, queriam verificar se surgiam novos problemas.

A gestão da fábrica se torna muito, muito cuidadosa. Ela precisa ser muito, muito limpa. Tudo precisa estar em seu devido lugar. O processo muda muito porque costuma ser apenas uma linha de montagem. Eles deixam tudo mais limpo, já que queriam manter os aparelhos longe de qualquer sujeira.

Trabalhando por 12 horas, mas contando apenas 10 (pelos intervalos), Zeng recebeu o equivalente a US$450 no mês (incluindo as horas extras). Ele também descansava em um dormitório cedido pela empresa, o qual dividia com sete outros empregados. Por razões óbvias, Zeng relatou que a maioria dos seus colegas de trabalho utilizava celulares chineses mais baratos como o Oppo e similares — seus salários sequer chegavam ao preço de um dos aparelhos que produziam.

Por mais que o estudante tenha entrado em contato com uma realidade bastante diferente da sua e considerado tudo bastante ruim, ainda encontrou quem achasse “algo muito legal” trabalhar montando os novos smartphones. Na realidade, a rotatividade é bastante grande e a maioria não fica muitos meses na fábrica. Um dos empregados afirmou que “ninguém gosta do processo”, mas lembra que seu intuito é ganhar dinheiro para sustentar a família.

A questão da segurança é algo que a Pegatron preza bastante. Nos dois dias de treinamento antes de iniciar o trabalho, o grande foco é em segurança e eles até precisam baixar um aplicativo próprio da Apple com informações relevantes sobre todo o treinamento, horas extras, etc. Zeng disse que a Pegatron parece mesmo ser bastante cuidadosa em relação a segurança e problemas como trabalhadores menores de idade.

Depois da experiência, o estudante disse que isso apenas reafirmou a sua vontade de seguir a carreira em defesa dos direitos humanos.

A situação é bastante ruim, mas às vezes é bom algo do tipo aparecer na mídia para despertar tanto quem apoia esse tipo de trabalho quanto quem é consumidor final. A violação de direitos dos trabalhadores é questão recorrente em fábricas do tipo, o que é algo inaceitável.

Um representante da Apple contou ao Business Insider que eles fazem questão de realizar auditorias regulares para certificarem-se de que ninguém está trabalhando mais de 60 horas por semana, além de afirmar que os salários aumentaram 50% nos últimos cinco anos, sendo os maiores em Xangai.

Se olharmos de fora, nós, que estamos em um contexto diferente, achamos tudo muito ruim. Porém não podemos ignorar que, para os habitantes de lá, talvez essa seja a melhor ou a única fonte de renda. Se alguém realmente precisa, não vai se importar se o trabalho é “chato” ou monótono. Sem falar que a realidade brasileira talvez não esteja tão longe disso — eu falo isso pois já trabalhei em uma grande rede de cinema para ganhar pouquíssimo e sei que há trabalhos muito piores em diversas partes do nosso próprio país.

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