A história resumida do bondage japonês

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Cordas esticadas, tranças complexas e nós que confundiriam até um bom marinheiro estão atados à arte do kinbaku ou, como dizem por aí, o bondage japonês erótico. A prática, que incorpora aspectos de escultura, performance e pas de deux, caiu nas graças de artistas e figura no mainstream por meio de revistas de moda e galerias de arte. A prova definitiva de sua popularidade está no Instagram. Ao busca por #kinbaku, surge uma rolagem infinita com mais de 60.000 fotos.

Para os marujos de primeira viagem, o kinbaku é a última moda pop em BDSM. Para os escolados, porém, é uma tradição antiquíssima que atravessou séculos e séculos antes de se esgueirar pelas redes sociais. Antecedentes históricos incluem representações na arte shunga, gravuras eróticas japonesas que já serviram de educação sexual para recém-casados e na versão japonesa do Kama Sutra, o Shijuhatte. A ilustração O Sonho da Mulher do Pescador, de Katsushika Hokusai, é uma referência icônica à arte erótica com cordas — a xilogravura ao estilo ukiyo-e retrata o êxtase de uma mulher tomada por polvos, cujos tentáculos entrelaçam seu corpo e provocam-na como uma corda.

O Sonho da Mulher do Pescador, 1814 © Katsushika Hokusai

Assim como já aconteceu com ferramentas ocidentais de repressão, a corda se tornou objeto de fetiche. As correntes de metal usadas para prender donzelas em perigo nos contos de fada ocidentais podem ser comparadas com a corda que reprime prisioneiros no folclore japonês. Em seu texto sobre o assunto, o livro The Beauty of Kinbaku [A Beleza do Kinbaku], o autor e professor Mestre "K" conta que o shibari, termo abrangente para amarração por corda, já exerceu uma miríade de funções práticas e decorativas ao longo da história do Japão, como em oferendas espirituais do xintoísmo, práticas de sumô e quimonos tradicionais. O uso em práticas eróticas é apenas mais uma aplicação da corda — uma ferramenta indissociável da própria cultura japonesa.

Durante o período Edo, era feudal, a classe samurai dominante usava a corda em combate para conter prisioneiros de guerra, como parte de uma arte marcial chamada hojojutsu, prática brutal bem diferente do kinbaku de hoje. Na época, do século XVII ao século XIX, as leis penais de Tokugawa aplicavam nós para torturar e extrair confissões de prisioneiros, e expor supostos criminosos. Havia uma punição pública específica para cada crime, e a corda usada para aplicá-la servia de advertência simbólica para os curiosos de plantão.

No começo do século XX, o teatro kabuki começou a incorporar nós de cordas a performances estilizadas, apresentando as primeiras instâncias da prática que hoje é conhecida como kinbaku. A técnica de hojojutsu foi reimaginada para que atores pudessem re-encenar os movimentos nos palcos em segurança e reformulada para representar uma estética mais ousada, oferecendo à platéia uma experiência visual distinta.

Esta ilustração icônica, 10 Mulheres Amarradas, de Kita Reiko, saiu na revista Kitan Club em 1952. A edição foi um estouro de vendas, o que levou a revista ao caminho do SM. Cortesia de Mestre "K"

Depois da Segunda Guerra Mundial, revistas de fetiches das duas margens do Oceano Pacífico passaram a ostentar ilustrações provocantes e, mais tarde, fotos de kinbaku. Revistas populares como a Kitan Club e a Uramado cederam seu lugar aos pilares do movimento underground americano, como a publicação Bizarre, abrindo alas para o cruzamento de duas culturas fetichistas globais, uma história ainda em curso.

Para o olhar leigo, o kinbaku atual não parece muito diferente de suas raízes, fincadas em tortura, mas os praticantes não hesitam em louvar os prazeres e virtudes do "subespaço", momento em que parceiros submissos alcançam um estado meditativo profundamente terapêutico — ou seja, assim como muitos entusiastas do BDSM, os praticantes encontram libertação no bondage. "Feito do jeito certo, kinbaku não dói nada. É estritamente sensual", explicou Mestre "K" em uma entrevista. "Capaz que você saia de uma sessão de kinbaku tão relaxado quanto numa aula de hot yoga", disse ele ao descrever como as técnicas estimulam zonas erógenas, liberando endorfinas e dopamina no cérebro.

Apesar de oferecer tutela particular a um punhado de clientes seletos, Mestre "K" contou que se afastou um pouco da cena kinbaku por causa da popularidade recente. Assim como boa parte da velha guarda, ele desconfia do ethos faça-você-mesmo e da comunidade BDSM pós- Cinquenta Tons de Cinza. Entre seguidores de YouTube e oficinas de supostos mestres, ele deixa claro que a técnica demanda um estudo rigoroso, muito além do tempo livre de um hipster ou de um curso de fim de semana. "Nos Estados Unidos, a tendência é pagar cinco dólares e querer virar especialista em duas semanas. Isto não é para qualquer um, não dá para praticar sem aprendizados e reflexões sérias", disse ele, comparando amarradores autodidatas a dentistas autodidatas.

Nos anos 50, o editor da revista Bizarre, John Willie, ficou fissurado por kinbaku depois de receber recortes sobre o tema de um correspondente do Japão, e passou a incorporar a prática em suas fotografias BDSM. As interpretações de Willie também foram disseminadas no Japão, onde exerceram bastante influência. © John Willie, Cortesia da editora Bélier Press

Ele ressaltou que o kinbaku é uma prática em que um amarrador "[assume] uma responsabilidade tremenda sobre [um] parceiro", e que o " kinbaku é, acima de tudo, uma questão de comunicação, empatia e profunda compreensão, antes de qualquer técnica ser aplicada". Além de saber anatomia básica e a localização dos centros nervosos, isso significa preocupar-se com o estado físico e psicológico do outro, como, por exemplo, perguntar se o parceiro submisso está tomando algum remédio ou se já sofreu lesões com a prática. Só então, e isso é muito importante, é que um amarrador saberá ajustar as técnicas para tratar de necessidades particulares. Por trás dos panos, contou ele, tanto nos EUA quanto no Japão, as modelos de kinbaku acabam se machucando.

Mestre "K" disse que está feliz por ver o kinbaku ganhar fama. "Espero que seja valorizado pelos motivos certos... É muito empoderador reconhecerem o kinbaku por isso, em vez de tacharem a prática como ladainha misógina."

Tradução: Stephanie Fernandes

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