A armadilha da dependência se fecha sobre o México

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Novo secretário de Estado para o Comércio, Wilbur Ross está convencido: os Estados Unidos “sofrem uma guerra comercial há décadas, razão pela qual exibem tamanho déficit”.1 No encontro que precedeu sua indicação, o bilionário tinha anunciado sua prioridade para resolver a situação: renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), assinado com o México e o Canadá em dezembro de 1993. Para o presidente Donald Trump e sua equipe, o acordo aumentou o rombo do déficit comercial do país, que atingiu US$ 500 bilhões em 2016, dos quais 12% para com o México.

Os termos dessa renegociação permanecem indefinidos – talvez por causa de atrasos inesperados no procedimento destinado a colocar a gestão dessa virada de 180 graus da política comercial dos Estados Unidos nas mãos de Ross, mas também de Peter Navarro, economista e diretor do Conselho Nacional para o Comércio Exterior, e de Robert Lighthizer, representante norte-americano para o comércio. Já a Casa Branca insiste na abertura de um período de discussão de noventa dias a partir do final de março. Ela mostra-se preocupada em colocar em prática o quanto antes a “transição geográfica”2 a que aspira: o retorno ao país das redes de produção instaladas no México, garantia de reindustrialização da economia.

Em 3 de março de 2017, Ross criou pavor no seio da elite mexicana. Por meio dele, pela primeira vez a Casa Branca criticou a peça essencial da estratégia do México para impulsionar suas exportações: a estagnação salarial. Sempre hostil a um aumento do salário mínimo em seu país, o homem de negócios reclamou sua valorização… ao sul do Rio Grande. “Esperava-se que o Nafta provocasse uma convergência progressiva dos níveis de vida do México e dos Estados Unidos. Esse não foi o caso, e o salário mínimo mexicano praticamente não evoluiu”, declarou. No setor automotivo, por exemplo, diversos estudos mostram que, num nível similar de produtividade, os salários mexicanos só chegavam a um décimo daqueles praticados nos Estados Unidos. Ross enfatiza: “Isso significa que os empresários podem sempre se voltar ao México para encontrar uma mão de obra menos cara. Isso também quer dizer que os trabalhadores mexicanos não têm condições de comprar os produtos fabricados nos Estados Unidos”.3 Em outras palavras, se os salários aumentassem no México, o déficit comercial norte-americano seria reabsorvido.

Ross promete, aliás, reforçar as “regras de origem”, que proíbem as empresas que não estão integradas ao Nafta de operar com base no México. Muitas companhias – algumas delas norte-americanas – já abandonaram seus projetos de desenvolvimento ao sul da fronteira: Samsung, Ford, Chrysler…

De repente, a oligarquia e a elite mexicanas descobrem que poderiam por sua vez sofrer as consequências da dependência econômica que impuseram à população. Como explicar essa situação?

Os globofóbicos

Em seguida à assinatura do Nafta e à lei sobre investimento estrangeiro que abriu a quase totalidade da economia mexicana (fora o setor petroleiro) aos investidores do Norte, as transnacionais norte-americanas rapidamente assentaram seu domínio sobre o país vizinho, um fenômeno que a elite local acolheu com alegria. Enquanto organizava a sujeição do aparelho produtivo de seu país às necessidades dos Estados Unidos, o presidente Ernesto Zedillo (1994-2000) forjava o termo “globofobia” para denegrir aqueles que duvidavam da capacidade do livre-comércio de garantir a prosperidade dos mexicanos e estimular seu crescimento. Como uma grande parte de seus colegas e amigos na época, os “neocientíficos”, Zedillo tinha um doutorado em Economia obtido nos Estados Unidos.

Sua presidência, e antes dela a de Carlos Salinas (1988-1994), foi decisiva para reorganizar a economia em torno de uma prioridade: a exportação. Era a segunda vez que um projeto como esse era levado adiante no país. Mas enquanto a primeira, sob a presidência de Porfirio Díaz (1876-1880 e 1884-1911), se baseava nas exportações de minerais e de produtos agrícolas, a segunda transformou o México em exportador de produtos manufaturados. Com a ajuda do Banco Mundial, do FMI e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, assim como com o apoio incondicional das organizações patronais e da oligarquia nacional, Salinas e seus acólitos remodelaram o país.

As leis que autorizam a criação de maquiladoras – empresas de montagem largamente isentas de impostos, especializadas no trabalho pouco qualificado e situadas na fronteira com os Estados Unidos – datam dos anos 1960. No entanto, elas permaneciam raras até a chegada de Salinas ao poder. Entre 1981 e 2000, as exportações das maquiladoras cresceram a um ritmo anual de 16%, enquanto o setor manufatureiro não ligado a essas empresas exibia uma taxa de crescimento de 13% ao ano. Desde 2004, 80% das exportações de mercadorias provenientes do setor manufatureiro e 90% das vendas para o exterior (aí incluídos petróleo e turismo) eram feitas para os Estados Unidos.

Essas estatísticas se mostram, no entanto, enganadoras, uma vez que o crescimento da indústria quase não enriqueceu o país. Na mesma época, 42% do valor das exportações de manufaturados provinha de peças e componentes importados… dos Estados Unidos. Inundado por investimentos norte-americanos, o México permanece passivo: ele não desenvolve nenhuma tecnologia, e são raras as empresas e oligarquias nacionais dispostas a investir em fábricas ou na formação de quadros que lhes permita se inserir na cadeia de produção de valor na qualidade de fornecedores locais. A missão do país, tal como a concebe a elite política? O dumping, tanto nos campos do trabalho quanto do meio ambiente e dos impostos.

Dois espaços econômicos distintos emergem pouco a pouco, sem a mínima relação entre si: um setor ativo ligado às exportações baratas; outro voltado para o mercado interno e caracterizado por sua ineficácia. Aliás, as disposições do Nafta permitem aos agricultores norte-americanos, empanturrados de subvenções, inundar o mercado mexicano de feijão, arroz e milho, assim como de produtos tradicionais das mesas do país. Todo um tecido de pequenas e médias empresas nascidas graças às políticas de industrialização dos anos 1930 se encontra privado de financiamentos. Essas empresas se mostram incapazes de enfrentar a concorrência estrangeira que se desencadeou com a entrada do México no Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio (Gatt) em 1986, no Nafta, depois na Organização Mundial do Comércio (OMC) – que sucedeu ao Gatt – em 1995. Não estando preparadas para tal deflagração, as indústrias locais entraram em colapso.

Como muitos haviam previsto, muitos mexicanos vindos do campo deixaram o país. Entre 2000 e 2005, foram mais de 400 mil por ano rumo aos Estados Unidos. Em 2009, já se contavam 12 milhões de migrantes no vizinho ao norte. A criação de empregos no setor manufatureiro exportador foi “compensada” pelas supressões nos setores industrial e agrícola, assim como na grande distribuição. Em alguns anos, a rede de supermercados norte-americana Walmart tornou-se o principal empregador privado no México. Nessas condições de dualismo econômico, o salário médio registrado entre 1988 e 2005 não ultrapassou 70% de seu nível de 1981.

Com o anúncio da entrada da China na OMC – que ocorreu em 2001, oferecendo-lhe acesso ao mercado norte-americano –, o modelo exportador mexicano começou a entrar em crise. O crescimento das exportações de bens e serviços recuou para uma média de 4,1% entre 2000 e 2016. No mesmo período, o crescimento do PIB se estabilizou em 2% em média. Durante esse tempo, a população aumentou a um ritmo em torno de 1,4% ao ano. Nessas condições, a melhora do nível de vida teria sido limitada mesmo se a distribuição suplementar da riqueza tivesse sido igualitária, o que não aconteceu.

Em 2012, após um interlúdio de doze anos em seu domínio do país, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) voltou ao poder.4 “O México tem um encontro com a história!”, era o que se prometia na imprensa. O PRI procedeu sobretudo a uma nova desregulação do mercado de trabalho e à privatização da empresa petroleira nacional, Pemex.5 Com o espasmo de crescimento inicialmente registrado chegando ao fim, a corrupção e os erros de condução logo sufocaram a economia. A venda das reservas petrolíferas do país foi de encontro a uma situação global de superprodução. A oligarquia não tinha se privado de celebrar o “momento mexicano”; em geral calada quando a situação se agrava para a população, ela no entanto não pode mais ignorar, desde 2016, o fracasso do presidente Enrique Peña Nieto, que exibe os mais baixos níveis de popularidade já registrados.

Em plena bancarrota intelectual, a elite se encontra à mercê de qualquer marola política. A eleição do presidente Trump provocou um tsunami. O Nafta garantia uma vida confortável para a oligarquia mexicana; e eis que o novo presidente o apresenta como “o pior acordo já assinado”. O medo tomou conta do Palácio Nacional, sede do poder, em que cada um se ocupava em reforçar ainda mais as políticas de dumping. Na manobra, notadamente o ministro das Finanças e depois das Relações Exteriores, Luis Videgaray Caso, ligado a Pedro Aspe, ex-ministro das Finanças de Salinas – uma prova (a mais) da influência deste último sobre o governo atual.

Para o México, a ameaça da recessão. Se ela vier a acontecer, a renegociação do Nafta enfraqueceria ainda mais a economia do país. A administração Trump sugeriu várias vezes que poderia impor tarifas alfandegárias de 35% ao setor automotivo. Cita-se igualmente em Washington uma taxa de cerca de 20% sobre todas as importações que chegam aos Estados Unidos: uma catástrofe para o México, onde 28% do PIB provém das exportações para o país vizinho.

Difícil imaginar como os industriais do país poderiam compensar essas medidas reduzindo seus “custos”. Como revelado pelo diário espanhol El País, no norte do México os salários já são “5% a 7% inferiores àqueles praticados na China”.6 O México poderia desfrutar dessa reviravolta para sair da dependência econômica que o oprime, mas, apesar da promessa do presidente Peña Nieto de desenvolver o “made in Mexico”, a operação se mostraria delicada: a pobreza galopante, o peso da economia informal, a debilidade dos salários e a incapacidade do sistema de crédito local, muito limitado, de impulsionar a demanda complicariam a tarefa dos líderes políticos que exibissem um projeto como esse. No momento, eles são raros.

Se as dissensões no seio do aparelho de Estado norte-americano não forçassem Trump a rever seus projetos em matéria de política comercial, a armadilha da dependência poderia se fechar sobre a elite mexicana.

*James M. Cypher, professor de Economia da Universidade Autônoma de Zacatecas (México), é autor, com Raúl Delgado Wise, de Mexico’s Economic Dilemma: The Developmental Failure of Neoliberalism [O dilema econômico do México: a falência do desenvolvimento neoliberal], Rowman & Littlefield, Lanham (Estados Unidos), 2010.

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