Papo VIP com Céu: a música, seu trabalho e o Lollapalozza

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Se muitos artista se tornam outra pessoa quando cantam, não coloquem Céu neste grupo. A cantora de voz doce e suave nas gravações é exatamente assim na “vida real”, calma, tranquila e sempre com algo a dizer. A paulista de 36 anos é uma das mais promissoras vozes que surgiu na MPB (?) nos últimos anos, mas não fale isto para ela: não que ela não goste de ser colocada acima ou abaixo de suas colegas de profissão, é só que ela não consegue se definir como música popular brasileira, ou qualquer outro gênero.

Talvez por isso seus trabalhos sejam tão insinuantes — dentro e fora do país. Seu primeiro projeto de estúdio, CéU de 2005, a cantora apostou em uma mistura pop entre elementos eletrônicos e música brasileira, que rendeu um de seus maiores hits da carreira, “Malemolência”, trilha de novela e figura carimbada nas rádios de música brasileira pelo Brasil afora. Em 2009 lançou Vagarosa e em 2012 Caravana Sereia Bloom, álbuns que conseguiram grande sucesso internacional, tendo ambos atingido a terceira colocação no ranking de álbum internacional da Billboard. Curiosamente esses dois trabalhos abandonaram a característica eletrônica do primeiro, apostando em uma sonoridade mais orgânica (palavras da própria Céu). Os elementos eletrônicos voltaram somente em Tropix, mais novo álbum da cantora, lançado em 2016.

Com ótima recepção da crítica, a cantora reatou a feliz mistura do pop eletrônico feito lá fora com elementos brasileiríssimo. Junte isso a doçura da voz e das composições de Céu e temos um dos grande álbuns nacionais do último ano. Resultado do ótimo trabalho foi o convite para tocar no Lollapalooza Brasil como um dos principais nomes nacionais do evento. A cantora toca no palco Axe, no sábado (26) às 13:15h, e conversou com a VIP sobre o festival, carreira e futuro da música.

Expectativas para o Lollapalooza

Adoro o festival, já fui nele. Eu e toda banda ficamos super felizes e empolgados em participar. A expectativa é de diversão principalmente por ter vários shows de artistas que adoro.

Qual o artista do festival que você está mais afim de assistir

Duran Duran, que eu amo.

Quando você vai montar uma setlist, você pensa no local em que está tocando (um festival, ou show avulso)?

Monto de acordo com o espaço que eu vou cantar. Penso também no tempo. Se faço um show em algum teatro, faço uma setlist adequada para o local, então não necessariamente terão músicas para dançar. No caso do Lolla, vou reduzir a setlist por conta do tempo reduzido, então algumas músicas não entram.

Você faz MPB?

É tão difícil falar disso, porque não somos nós que criamos isso. Nunca paro e penso “nossa, agora vou escrever uma MPB”. Não. Eu faço música e depois rotulam. Acho isso tranquilo, não tenho problema. Mas sou a pessoa menos qualificada para te dizer isso. Na minha opinião é MPB, mas ao mesmo tempo entendo que não é pelo que as pessoas falam (risos). Então eu não sei onde estou.

Você se incomoda com a questão dos rótulos?

Acho natural. O ser humano precisa disso. A única coisa é que eu não sou a melhor pessoa para te dizer. Eu estou há 10 anos na profissão e ninguém nunca me disse onde estou, então vou deixar a pergunta no ar.

Eu ia perguntar em qual rótulo você preferia estar, mas acho que não precisa mais.

É, porque acho que faço música brasileira, contemporânea. Não sei te dizer. Para mim pode ser que seja MPB, mas não é MPB. Já que eu não sou MPB, devem existir regras para definir o que é.

Você é uma artista que desde o primeiro álbum flertou com elementos eletrônicos e o que se percebe é uma tendência cada vez maior disto no mundo da música. Esse é um processo irreversível ou a música algum dia vai voltar a ser inteiramente orgânica?

Não consigo falar de coisas eternas na música porque pra mim ela significa liberdade, a vontade de contar uma história. Não falo sobre algo ser irreversível ou não. Vou de acordo com o que quero no momento e de acordo com a história que quero contar.

a música é tão poderosa que prefiro acreditar que em algum momento ela vai encontrar um lugar onde vai ser respeitada a altura e as coisas vão se encontrar. Mas ainda estamos bem longe disso.

Qual a sua opinião sobre o streaming: é a plataforma de distribuição do futuro?

Tem muito coisa para ser melhorada, discutida, como a questão do pagamento para os artistas. Outra coisa que deveria ser levada em conta são os créditos para os músicos. As fichas técnicas são muitos obscuras, e isso me incomoda profundamente, não consigo entender como isso acontece. Sou de uma geração que devorava os encartes. Existem uma série de coisas a serem discutidas.

O streaming é a melhor solução por ora, mas não sei se é a solução para o futuro. O que vejo é que as gerações mais novas escutam música por Youtube e não pagam por ela, então estamos flutuando neste universo (de serviços pagos e gratuitos) que há de se estabilizar em algum momento.

Sim, totalmente. Cultura é vida, é estado. Ela é construção de caráter, é a educação da criança, é tudo.

Com o futuro incerto, a principal maneira de um músico fazer dinheiro hoje é através de shows. Você acha que esse novo modelo vai desencorajar novos artistas

As pessoas tem que reavaliar a questão do artista, do músico. De fato as pessoas não pensam no valor disso. Muitas vezes você paga mais caro para parar seu carro do que em um disco. Existem mil questões a serem ponderadas sobre a transformação de valores no mundo atual, onde a cultura ficou desfavorecida. Isso desencoraja os artista, com certeza. Imagino que isso já aconteceu com muita gente e perdemos muitos talentos por conta disso. Ser músico é uma grande aventura, é difícil. Estabilidade não existe no nosso universo.

Mas a música é tão poderosa que prefiro acreditar que em algum momento ela vai encontrar um lugar onde vai ser respeitada a altura e as coisas vão se encontrar. Mas ainda estamos bem longe disso.

E cultura é questão de estado?

Sim, totalmente. Cultura é vida, é estado. Ela é construção de caráter, é a educação da criança, é tudo.

Você é uma artista que desde o começo de sua carreira se estabeleceu internacionalmente, e se formos analisar a história da música brasileira, este é um processo que acontece desde o Pixinguinha, passando pela Bossa Nova. O que nós temos que eles (o resto do mundo) não tem?

A gente tem sol, tem alegria, tropicalismo, balanço. Temos uma série de coisas que eles ficam loucos. Carisma, ritmo, melodia, temos tudo. A gente só tem memória curta, pouca auto-estima e habilidade para cuidar da própria criação. E ainda somos novos perto deles, então a gente tem muito que aprender. Mas em termos da nossas qualidades, elas são enormes. Tem muita coisa linda aqui.

(Luiz Garrido/Reprodução)

E para finalizar: seu show no Lolla vai ser baseado no Tropix (último disco de estúdio da cantora), ou será uma mescla de todos seus trabalhos?

Vai ser baseado no Tropix mesmo. Claro que o próprio show do disco é mesclado, com coisas do primeiro e segundo disco. Mas no Lolla o foco vai no Tropix mesmo.

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