O homem que colecionava fotos

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Silvio em frente a algumas das fotos da sua imensa coleção. Foto: Drago/VICE

O olhar penetrante da afegã Sharbat Gula conquistou o mundo. Tal qual uma Mona Lisa dos novos tempos, a menina emprestou o rosto a uma das fotos mais famosas da história. O retrato causou tamanho impacto no cearense Silvio Frota que se tornou o estopim para uma coleção tida como uma das mais ricas do país.

A foto da garota afegã foi nº 1 de um acervo que já conta com mais de dois mil registros adquiridos ao longo dos últimos oito anos. A coleção, por sua vez, está acessível ao público, no , inaugurado no último dia 10 de março, em Fortaleza, cidade onde Silvio nasceu e mora até hoje.

A garota afegã do Steve McCurry na parede do Museu da Fotografia. Foto: Drago/VICE

A nova galeria conta com os melhores registros de mitos da fotografia do passado e do presente, de nomes brasileiros e estrangeiros. "Não era justo que uma coleção grandiosa como essa estivesse fechada, então o museu vem como um presente para a cidade", diz o empresário, que atua na construção civil.

O Museu da Fotografia já nasceu grande e surge como o maior do gênero no país — com um acervo comparável somente a museus de Bogotá, na Colômbia, e na Cidade do México. O espaço de mais de 2.500 metros quadrados funciona em um prédio no bairro mais boêmio da da capital cearense, a Varjota. O prédio, inteiramente reformado, também irá abrigar aulas de fotografia, além de exposições. Sem dizer quanto investiu na recuperação do prédio, Silvio se limita a dizer que "do original, ficou só a casca."

A fachada do prédio que foi inteiramente reformado. Foto: Divulgação

Silvio colecionava pinturas desde os anos 80, até que em 2009, depois de ir a uma exposição do norte-americano Steve McCurry, em Houston, nos Estados Unidos, arrematou a foto mais famosa da revista National Geographic. O empresário comprou um dos 25 originais daquele clique, e a partir dali a mania de colecionar fotos virou avassaladora.

"Passei a estudar fotografia, a frequentar galerias e museus ao redor do mundo e a ler tudo sobre o assunto. Assim comecei a ver a coisa de uma maneira diferente", conta Silvio, hoje com 63 anos. Sua família já se acostumou com sua curiosa paixão. "Ele é um tarado por foto", define o filho Rodrigo Frota, fotógrafo que já foi assistente de McCurry.

De compra em compra, a relação de nomes que entraram para a coleção virou um compêndio de ícones. A lista inclui Edward Steichen, Cartier-Bresson, Robert Capa, Jean Manzon e Cindy Sherman, além dos brasileiros Orlando Brito, José Medeiros, Juca Martins e Sebastião Salgado. Citar alguns soa injusto aos demais. "De cabeça não sei quantos são. É muita coisa!", diz o colecionador.

Com uma coleção com tantos nomes de respeito, a foto da menina afegã não é a única icônica. Fazem parte do conjunto também, as imagens originais da mãe imigrante captada por Dorothea Lange em 1936, durante a Depressão norte-americana, e da subida da bandeira dos Estados Unidos na Batalha de Iwo Jima, que garantiu o prêmio Pulitzer a Joe Rosenthal.

Curadoria

Naturalmente, não havia espaço para a exposição, de uma só vez, das duas mil fotos no prédio. Coube a Ivo Mesquita, curador da 28ª Bienal de São Paulo, o trabalho da curadoria do Museu da Fotografia. "Foi um trabalho difícil. Era muita coisa — e muita coisa boa", relata.

Após mais de um ano de avaliações, Mesquita fez um recorte inicial com 350 fotos, de jornalismo, arte ou mesmo instalações, que contam diferentes histórias ao longo do passeio pelo museu. Dois pisos do espaço serão dedicados à exposição permanente, e o terceiro será temporário, dando espaço às séries da coleção e também a trabalhos de outros fotógrafos.

Visitante no Museu da Fotografia. Foto: Drago/VICE

Uma dessas séries é um conjunto de fotos sobre a história recente do Brasil, talvez menor somente que a coleção do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. O arquivo detalha desde uma época que vai do Governo Vargas até a Ditadura Militar, trazendo à tona aspectos íntimos de todos os presidentes do período — como Ernesto Geisel de calção de banho, numa praia.

Cada foto do acervo é autenticada, e recebe identificação com o nome do autor. Essa é a garantia de que a imagem é original, e não uma peça que alguém revelou por conta própria. Em suas aquisições, Silvio sempre busca comprar no mínimo cinco fotos de um mesmo profissional. "Não se pode avaliar um fotógrafo com somente uma foto. Ele pode ter uma foto boa, e o restante do trabalho ser medíocre", ensina. Não raro, o colecionador adquire séries inteiras, que podem gerar exposições do fotógrafo ou de um tema.

Silvio mostra as foto do Drago. Foto: Drago/VICE

Muitos ficam lisonjeados com o interesse. Um deles foi o fotógrafo desta reportagem, Victor Dragonetti, o Drago. Em 2013, aos 22 anos, Drago registrou os protestos contra a Copa das Confederações, em São Paulo. O trabalho feito por conta própria rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo, e despertou a atenção de Silvio. "Foi a primeira vez que vendi uma foto numa galeria", lembra.

"A composição é fantástica. Ele se manteve próximo a uma cena de perigo e conseguiu captar todos os elementos", indica Silvio, apontando para as duas fotos presentes na mostra. Um tanto constrangido, foi preciso insistir para que Drago passasse para o outro lado da câmera e posasse ao lado de admirador. Claro, o texto não podia acabar sem essa reverência.

Museu da Fotografia de Fortaleza
Endereço: Rua Frederico Borges, 545, Varjota, Fortaleza.
Funcionamento: de quarta à domingo, das 12h às 17h.
Entrada: R$ 10 (meia para todos). Gratuidade para menores de 18 anos e acima de 60. Quarta-feira tem entrada gratuita.
Telefone: (85) 3017-3661

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