Meu filho foi assassinado em serviço por extremistas de direita

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Uma versão desta matéria foi publicada originalmente no Trace .

No começo de fevereiro, o presidente Donald Trump pediu que o Departamento de Justiça devotasse recursos extras para processar crimes contra oficiais da lei.

"É uma vergonha o que está acontecendo com nossos ótimos, ótimos oficiais da lei", Trump disse enquanto assinava a ordem.

Ele está cumprindo suas promessas de ir contra o movimento Black Lives Matter na questão da brutalidade policial, o que alguns conservadores vêm chamando de "guerra aos policiais".

Mas uma ideologia menos conhecida tem uma história mais longa e significativa levando a confrontos mortais entre extremistas e a polícia: o movimento de soberania do cidadão. A filosofia de extrema-direita nega a legitimidade de quase qualquer governo.

Entre 1990 e 2015, pessoas associadas ao movimento mataram 54 oficiais da lei e da justiça criminal, segundo uma análise do programa da Universidade de Maryland START (Study of Terrorism and Responses to Terrorism). Membros de extrema-direita foram responsáveis por 80% dos assassinatos ideologicamente motivados a policiais em serviço durante esses anos, comparado com 12 mortes pela Al-Qaeda e outros jihadistas.

As fileiras do movimento de soberania do cidadão são surpreendentemente longas. Os especialistas do Southern Poverty Law Center estimavam em 2011 que havia 100 mil "cidadãos soberanos hardcore".

Uma pesquisa de 2015 com oficiais da lei, conduzida por Charles Kurzman da Universidade da Carolina do Norte e David Schanzer da Universidade Duke, descobriu que 74% das agências de justiça criminal norte-americanas veem extremistas antigoverno como uma ameaça, quase duas vezes maior que o perigo de jihadistas radicais.

Bob Paudert está tragicamente familiarizado com essa ameaça.

Ex-chefe de polícia de West Memphis, Arkansas, seu filho Brandon Paudert foi morto em 2010 por dois seguidores do movimento de soberania do cidadão. Brandon e um colega policial pararam um pai e filho na estrada, que abriram fogo contra os policias e fugiram, morrendo depois num tiroteio. Desde então, Paudert se tornou um especialista nesses extremistas. Ele fala abaixo sobre a morte do filho, e como as autoridades federais podem ajudar a polícia a se preparar para encontros que podem rapidamente acabar em morte.

Meu filho era sargento de uma patrulha interestadual. Outro membro da equipe, o oficial Bill Evans, parou uma Dodge Caravan dirigida por um pai acompanhado do filho, Jerry Kane Jr. e Joseph Kane. Joseph tinha 16 anos.

Brandon, meu filho, parou sua viatura dez minutos depois para ajudar Evans, que passou a placa do carro pelo sistema e viu que o veículo estava registrado como pertencente a uma igreja de Ohio. Jerry disse que era pastor e um cidadão soberano. Ninguém na época sabia o que isso significava. Meu filho achou que tinha parado um pastor em viagem, evangelizando. Ele não estava preocupado com sua segurança.

O pastor deu ao meu filho e ao oficial Evans um monte de documentos — nenhum deles reconhecido como registro estadual. Ele sequer tinha carteira de motorista. Em vez disso, ele entregou um "cartão de viajante" feito em casa. Todo mundo ficou confuso. Eles não sabiam o que eram aqueles documentos. A guarda deles estava a zero.

Jerry Kane, naquele ponto, estava pronto para matar o próximo policial que o parasse na estrada. Seu filho saiu do carro com uma AK-47 e abriu fogo. Dois minutos depois que meu filho chegou, ele e Evans estavam mortos.

Você poderia pensar que eventos assim são impossíveis. Evans era um membro treinado da SWAT. Ele já tinha estado em situações de risco em estradas antes. E ele foi morto por um garoto de 16 anos sem nem ao menos sacar sua arma.

Meu filho era um veterano de sete anos na força. Ele estava trabalhado num caso de drogas, e a equipe sob seu comando estava procurando por traficantes. Mas ele não sabia que o pai e filho parados na estrada poderiam oferecer qualquer tipo de ameaça.

Naquela noite, o FBI chegou à cena do crime. Meu assistente perguntou a eles "O que vocês estão fazendo aqui?" Acontece que aqueles caras estavam na base de dados de cidadãos soberanos do FBI. Então por que meu filho não recebeu um aviso quando checou a placa do carro? Por que o FBI não compartilhava essa informação conosco? Nenhum dos chefes de polícia ou xerifes com quem falei depois sabia sobre os cidadãos soberanos.

Mais tarde, fui convidado para ir a Washington, DC, me encontrar com o FBI. Eu queria saber por que meus homens não sabiam que aqueles caras eram cidadãos soberanos. Os Kane estavam na base de dados, mas estavam na lista de criminosos do colarinho branco por evasão fiscal, não terrorismo doméstico.

Se Bill e Brandon soubessem com o que estavam lidando naquele dia quando pararam a van, eles poderiam estar vivos. Eles poderiam ter pedido reforço. Não quero que isso aconteça com mais nenhum oficial da lei.

Um ano depois do caso, me aposentei e me juntei ao Treinamento Estadual e Local Antiterrorismo (SLATT em inglês), um programa fundado pela Bureau de Assistência à Justiça. Era meu trabalho informar os oficiais do país sobre ameaças extremistas como os cidadãos soberanos. Viajei para todos os estados menos o Havaí.

Cidadãos soberanos estão mais ativos nos últimos anos por causa de questões com a Segunda Emenda. Descobrimos que o medo de novas legislações de controle de armas sob a administração Obama contribuiu para um medo generalizado do governo, o que levou a um crescimento do movimento de soberania, e para aumentou a hostilidade contra empregados governamentais. Por isso que os cidadãos soberanos são um problema maior do que as pessoas imaginam — elas não sabem que o indivíduo que emboscou e matou três policiais em Baton Rouge em 2016 era um cidadão soberano.

Mas por alguma razão, nosso governo diminuiu a ênfase da necessidade de rastrear cidadãos soberanos e conscientizar sobre o movimento entre as agências da lei. Ano passado, o programa SLATT foi cortado. Cerca de 25 instrutores perderam seus empregos. O Departamento de Justiça decidiu não mais financiá-lo. Ninguém sabia o porquê. Mas continuo sozinho.

As agências federais consideram o movimento uma ameaça séria o suficiente para publicar relatórios sobre ele, mas não coletam dados sobre soberanos individuais como faz com jihadistas. Concordo que os impostos são muito altos, mas não acho que devemos ir contra o governo, não com armas.

O FBI mantém bases de dados sobre membros violentos de gangues que a polícia local pode acessar, então por que não fazer o mesmo com os soberanos? O governo deve coletar e armazenar informação sobre esse grupo para que oficiais sejam alertados em casos de paradas no trânsito, especialmente se os indivíduos têm ficha criminal.

Talvez Obama não quisesse atiçar os extremistas de direita fazendo uma ofensiva contra eles. Acho que ele contornou a questão. Ele nunca foi para cima desses grupos como achei que faria, nem mesmo contra os supremacistas brancos. Nunca entendi por que o governo não coloca mais esforços para impedir o terrorismo interno.

Espero que a administração Trump faça mais sobre a ameaça do terrorismo doméstico, mas relatos de que ele está fechando um programa do Departamento de Segurança Interna não são um bom presságio. Eu sei que o presidente diz que está indo atrás do ISIS, mas nunca ouvi falar sobre o que ele planeja fazer com os extremistas perigosos que têm mais chances de matar policiais.

Uma versão desta matéria foi originalmente publicada no Trace , uma organização de notícias sem fins lucrativos que cobre a questão das armas nos EUA.

Tradução: Marina Schnoor

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