Falamos com Flying Lotus sobre 'Kuso', um dos filmes mais nojentos já feitos

Photo of Falamos com Flying Lotus sobre 'Kuso', um dos filmes mais nojentos já feitos
Facebook
VKontakte
share_fav

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Imagine um episódio de Fear Factor tão grotesco que a parte menos nojenta é a cacofonia de uma cagada na tela. É mais ou menos isso que você pode esperar do novo filme do Flying Lotus, a.k.a. Steven Ellison, Kuso. Curtas ligeiramente interligados formam o filme que estreou no Sundance com muita gente saindo das exibições na metade, e já está sendo anunciados por alguns como "o filme mais nojento já feito". Kuso é estrelado por George Clinton, Bus Driver, Tim Heidecker e Hannibal Buress.

Leia também: "A evolução do Flying Lotus"

Tive chance de assistir à estreia à meia-noite no famoso Egyptian Theatre, em Los Angeles, nos EUA. Os ingressos estavam esgotados, o cinema estava lotado com uma multidão faminta de art house e ei, por que não, Tim Robbins estava lá também. Flying Lotus apresentou o filme, advertindo que quase o elenco inteiro estava na plateia e que gente saindo no meio seria vaiada. O alerta foi desnecessário no final das contas, porque apesar da paisagem cinematográfica ultrajante que nos esperava, ninguém saiu no meio do filme naquela noite.

Sim, Kuso é nojento. É um fluxo aparentemente infinito de merda, sêmen e vômito na tela. Tem incesto. Tem um clímax tão fodido que cheguei a engasgar e tive que fazer exercícios de respiração para não vomitar no cinema. Mas também é impressionante ver um elenco quase que inteiramente negro num mundo de mutação e sexualidade mórbida. Ellison usa choque e terror para criar uma topografia visual que pode ser tanto nauseante como hipnótica. Mas por baixo da barragem de bile e fluídos corporais, há um cineasta inspirado por gente como Jodorowsky e Eisenstein. Ele até conseguiu fazer George Clinton mostrar seu ânus (prostético) na tela e isso não ser a coisa mais louca que acontece no filme, nem de longe.

Me encontrei como Ellison logo depois da estreia para falar sobre as reações e por que esse, na verdade, é um filme para amantes do cinema.

Flying Lotus. Imagem via Daily VICE.

VICE: A noite passada foi muito importante para você. Como você se sentiu mostrando o filme para o público do festival Sundance?

Flying Lotus: Foi assustador, mas também como se eu tivesse tirado um peso enorme das costas, porque o filme foi esse grande segredo no meu computador por quase um ano e meio, então é legal finalmente soltar o monstro e, sabe, me limpar disso também para poder seguir em frente. Sim, é ótimo. Fui lavado por uma onda de todos esses sentimentos.

Antes de vermos o filme, você falou sobre vaiar quem saísse no meio, mas não foi tanta gente assim.
É, pouca gente saiu. Na verdade me disseram para me preparar para muita gente saindo na metade, porque é assim que festivais funcionam, e algumas pessoas começaram a se levantar, mudar de lugar e eu comecei a só prestar atenção nisso e ficar um pouco nervoso, mas aí eles abriram para perguntas do público depois e vi que quase todo mundo ainda estava lá, e pensei "Ah, ótimo!" Foi divertido.

Você ficou surpreso com a reação?
Fiquei surpreso? Sim e não. Fiquei surpreso por tanta gente ficar [durante toda a projeção], para ser honesto. Fiquei muito grato por isso, mas, ao mesmo tempo, acredito no trabalho, tenho confiança no que faço, acho mesmo que é um trabalho de arte único nessa paisagem de filmes e acredito mesmo que é diferente. Por isso tenho muito orgulho e tenho vários sentimentos por ele. Tipo "como isso aconteceu?" e "por que aconteceu?" Mas ao mesmo tempo penso: "Foda-se, fiz esse filme e ele é todas essas coisas de uma vez".

E como isso aconteceu?
Hum, maconha? Não [ risos]. Tudo começou com um GIF idiota que apareceu quando eu e o Thom Yorke estávamos discotecando. Lembro de ver esse GIF no meu celular e era muito longo, e eu pensei "Isso é hilário, cara. Yo, posso fazer uma merda assim, tenho ideias pra essas merdas, posso fazer uns GIFs bem loucos". Aí cheguei nessa ideia de um curta de animação de cinco minutos, entrei em contato com David Firth e disse "Yo, me ajuda aqui nessa animação" e isso meio que floresceu. Trabalhei na animação por cinco meses, daí pensei "Yo, isso está ficando muito difícil", então achei melhor colocar elementos de live action e Royal aconteceu, aí pensei "agora tenho vinte minutos de coisas acontecendo, então talvez eu deva continuar e fazer um longa", e a coisa toda veio disso.

"Tudo [a ideia do filme] começou com um GIF idiota que apareceu quando eu e o Thom Yorke estávamos discotecando."

De onde veio a ideia do curta inicial, Royal?
Veio de ler um monte de quadrinhos japoneses e me inspirar nos mangás, além de em cinema asiático. Isso tem uma grande influência nas minhas ferramentas. Minhas maiores influências são do Japão, acho. Então talvez essa mistura com personagens negros faz parecer um mashup estranho, mas eu não tinha sentido isso, enquanto estava fazendo o filme, por que não vi isso antes? É estranho que isso seja novo. É estranho que seja único. É triste que seja único. Também é triste que tenha sido difícil encontrar atores negros para preencher os papéis, as pessoas estavam com medo de trabalhar comigo. Você acha que hoje em dia, quando as pessoas estão falando tanto sobre diversidade e Hollywood, seria fácil achar minorias para os papéis, mas foi difícil pra caralho. As pessoas têm medo se não é algo convencional para elas. Tem sido uma jornada engraçada, com certeza.

Na verdade, uma das coisas que chamou minha atenção de cara é o fato de que você pode ver esses personagens negros fazendo coisas que nunca veria. Quão importante para você era tornar isso central?
É muito importante para mim trazer personagens diferentes para a tela. Sinto que isso é parte do que devo fazer, parte da minha jornada como cineasta é contar histórias diferentes, da perspectiva negra das coisas que não são filmes do gueto como os de Tyler Perry ou Ava Duvernay. Eu adoro esses caras, mas essas coisas já foram semeadas. Há espaço para mim nessa arena então vou fazer essas coisas.

Você obviamente teve a confiança dos seus atores, de George Clinton a Bus Driver. Como você conseguiu fazer as pessoas embarcarem na ideia?
No começo eu só estava procurando gente no Twitter; isso foi crucial, poder mandar DM para as pessoas com trechos do filme, tipo "É isso que estou fazendo, você curte ou não?"

Quanto você deixava as pessoas verem do que estava vindo pelo cano, por assim dizer?
[ Risos] Tentei ser o mais honesto possível porque uma das coisas que eu não queria que acontecesse era alguém topar, depois ler alguma coisa e dizer "Eu não sabia disso", enquanto a gente estivesse filmando, e isso se tornar um problema. Tentei ser muito honesto com as pessoas, tipo "Eu adoraria ver seu cu na tela, posso fazer isso acontecer?" E fizemos acontecer! Mas, cara...

Still de Kuso .


Vendo o filme, acho que você tem uma reação visceral por causa de todas as coisas que vê, mas depois que fui pra casa e digeri isso, pensei no cenário, nesse cenário pós-apocalíptico que parece uma distopia distante, ainda mais depois do que aconteceu este ano , não parece mais tão longe da realidade.

É muito louco que isso tenha mais relevância com o que está acontecendo no mundo. É muito assustador. Talvez não esteja longe disso. Mais louco ainda, na mesma época em que eu estava filmando, tinha uma coisa muito estranha rolando em LA, com gente prevendo que um grande terremoto ia acontecer e, sabe, a gente pensou "Cara, e se a gente é a razão para esse terremoto acontecer?", tipo "e se estivermos filmando e isso acontecer mesmo, e a gente vai ter um valor de produção muito melhor saindo por aí e filmando os prédios decrépitos e a merda toda". Mas não aconteceu. Espero estar lá quando um dos grandes atingir LA, encarar meus medos de frente. Ou odiaria estar aqui ou em algum outro lugar, curtindo uma praia, e ouvir que outro terremoto grande atingiu LA; eu ficaria muito triste. Quero estar aqui se acontecer.

Vi muitas inspirações visuais aqui, de Jodorowsky a Eisenstein, mas o que realmente inspirou os visuais desse filme?
Difícil dizer, sinto que neste ponto somos todos bombardeados por imagens e influências, então é difícil apontar exatamente o quê, mas sou muito fã de cinema. Já vi tipo um milhão de filmes, então usei tudo, de Jodorowsky a Miike. Usei tudo.

E quanto ao casamento da música e dos visuais aqui? Obviamente essa é uma parte importante para você, fale um pouco sobre o processo da trilha sonora.
Sim, a trilha sonora, a música e o design de som, tudo meio que parece unificado para mim. Tentei deixar tudo como a mesma sensação, mesmo os efeitos sonoros. É uma coisa idiota, mas até alguns dos efeitos sonoros estão no mesmo tom da música. Tem uns truques rítmicos acontecendo, tipo dsssht... dsssht na batida e tudo mais. É bobo, mas tive que fazer. É uma coisa muito estranha e nerd, que só os produtores que gostam na minha música vão notar no filme. "Você fez isso mesmo?" Sim, fiz mesmo. Foi divertido subir naquele palco, me concentrar no processo e depois voltar para a coisa mais confortável que conheço, a forma de arte, sabe. Mesmo agora eu volto e trabalho nisso, nesses sons; é divertido.

Você disse que fez esse filme para seu eu de dezesseis anos. Como era essa pessoa?
Lembro de ter 16 e querer mostrar para pessoas que normalmente não veriam esses filmes japoneses loucos, eu era o cara dizendo "Yo, você já viu isso?", eu era aquele garoto tipo "Cara, você já viu esses filmes loucos do cu japoneses?" Eu estava só me divertindo, e meu alvo aqui são as pessoas que ainda se divertem assistindo filmes.

Siga a Amil no Twitter .

Tradução: Marina Schnoor

Siga a VICE Brasil no , Twitter e Instagram.

ver Vice Brasil
#filme
#flying lotus
#jodorowsky
#kuso
#art film