Retratos de um jovem fotógrafo māori em busca de suas raízes

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Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

Tem uma foto no site do fotógrafo Chev Hassett, de Wellington, Ontário, de uma carta que seu pai mandou da prisão Rimutaka. A letra dá voltas, e as palavras também, de maneiras que partem o coração. "Desculpe por não estar do seu lado", ele escreve. "Desculpe por ser um pai de merda, filho!" Não muito depois de ser libertado, o pai de Hassett morreu num acidente de moto.

O projeto pessoal e poderoso de Hassett, Ko Tooku taumata tonu, ko Hawaiki, veio depois dessa tragédia. Filho de mãe pākeha e pai māori (Ngāti Porou), Hassett diz que esse é seu jeito de entender seu lado māori. "Hawaiki é o lugar de onde dizem que alguns māori vieram e para onde todos vamos quando morremos, como o nosso paraíso", diz Hassett. "Então estou apenas tentando me encontrar, meu lugar de paz, e esse é um jeito de me envolver como minha cultura de maneira mais formal."

Me encontrei com Hassett para saber como.


VICE: Kia Ora Chev. Me explique um pouco as imagens. O projeto era um livro, certo?

Chev Hassett: Sim. Meu livro tinha três camadas. Tinha o Te Kore, o reino do nada, Te Pō é a escuridão ou o vazio, e de lá ia para o Te Ao, que significa o mundo da luz. Foi assim que o mundo foi feito para os māori, e é assim que faço minha arte também.

O livro começa, em māori, com "da escuridão, nasce a luz", e então há um poema sobre minha iwi especificamente, que fala de como vim ao mundo e como o mundo se criou. Meu avô escreveu algo similar, que está num livro sobre nossa marae, então foi isso que me inspirou a escreveu o meu próprio.


Qual a história por trás do waka?

Deveria ser um waka de Māui, então, no começo, quando ele pesca a Nova Zelândia com seu irmão, esse era o waka onde ele estava. Na foto, o waka encara a montanha, que foi onde ele pousou, e nossa tribo também. Essa montanha se chama Hikurangi, e é a primeira montanha do mundo onde o sol bate. A imagem mostra o waka, minha montanha e meu rio — então são todos os elementos-chave da minha iwi numa foto.


Quem são as pessoas nas fotos?

Todo mundo é da minha família. A ordem é como uma pepeha — como você se apresenta em māori. No começo, o homem é meu avô, a próxima é minha nan, depois meu marae, e assim por diante.


Conte a história por trás do colar que você está usando.

É um mangopare, um tubarão-martelo, feito de osso de baleia. Os homens da minha tribo, no passado, faziam esse desenho, que significava não desistir. Quando você tenta matar um tubarão-martelo, ele não morre fácil, e quando morre, o corpo dele continua se mexendo.


E algumas das outras imagens esculpidas?

Tem um tekoteko, que é como um guardião que meu pai fez para mim; ele era escultor. Minha mãe segura um waka huia que ele fez para ela quando eles eram jovens. Tem um waka aroha, que é como uma urna, então esse é o meu pai, tecnicamente.


É esse que você está segurando na foto na floresta?

Sim, sou eu e meu pai na floresta. Toda imagem é de um certo lugar por uma razão que se liga a ideias.

Com certeza há um elemento espiritual nas fotos.
Na arte māori, tudo é feito por uma razão, e feito de um certo jeito, então tem uma camada adicional, uma camada espiritual. Quando vê essas esculturas, você tem um sentimento de que há outro elemento. Então tento seguir os mesmos protocolos para criar minha fotografia. E há uma camada que não pode realmente existir em nenhuma outra cultura; só existe na minha. Sigo todas essas regras antes de tirar a foto.


Que tipo de regras?

Não posso tirar fotos dos maraes de outras pessoas, porque não sou de lá. Na maioria dos maraes que fotografei, você precisa ser convidado para entrar. E estando lá, tenho que me certificar de que todos que vivem ali estão bem com a minha presença, e aprender toda a história sobre o marae. Acho que se eu não fizesse isso, a coisa seria mais rasa. Tenho que aprender sobre todos os objetos culturais antes, ou não vai sair a mesma coisa. Isso significa que tive que aprender muita coisa antes de tirar cada foto.

Veja mais do trabalho de Chev Hassett no site dele .

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Tradução: Marina Schnoor

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