Evernote se envolve em (mais uma) polêmica ao anunciar que as notas dos usuários poderão ser lidas pela empresa [atualizado: voltaram atrás]

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Evernote multiplataforma

Pouco a pouco, a década de 10 do século XXI vai se desenrolando como uma espécie de distopia trágica e paranoide sobre segurança, privacidade e invasão digna das melhores histórias de George Orwell ou Philip K. Dick. O mais novo capítulo deste romance vem diretamente do Evernote, quando a companhia responsável por um dos serviços de anotação mais conhecidos do mundo causou uma baita polêmica ao anunciar que, com a efetivação de uma nova política de privacidade, permitiria que seus empregados lessem todo e qualquer conteúdo dos usuários — sem dar a eles possibilidade de impedir isto.

Evernote multiplataforma

A novidade que deixou muitos usuários de cabelo em pé tem relação com a tecnologia de aprendizado de máquina: de acordo com a Evernote, a partir do dia 23 de janeiro um número limitado de seus empregados terá a capacidade de verificar notas e conteúdos salvos pelos clientes do serviço para monitorar a inteligência artificial incorporada pela companhia e checar se tudo está funcionando a contento.

A Evernote afirma que a tecnologia de aprendizado de máquina tornará o aplicativo mais inteligente e trará uma experiência personalizada para cada usuário, e que o monitoramento por parte de pessoas reais é necessário para tornar tudo realidade. De qualquer forma, os usuários podem, se assim desejarem, optar por ficar de fora da experiência com o aprendizado de máquina: basta ir nas configurações do serviço e desmarcar a opção “Improved Experience” (“Experiência Melhorada”) — assim, não haverá máquinas ou seres humanos lendo suas notas para melhorar o uso do aplicativo.

O problema, entretanto, vai além: como afirma a nova política de privacidade, mesmo que o usuário opte por dispensar a tal da experiência melhorada, empregados do Evernote ainda assim poderão ter acesso às suas notas em casos específicos relacionados a suspeitas de violação dos termos de serviço. Este foi o ponto que tocou na ferida de muitos usuários do serviço e causou uma quantidade considerável deles a abandonar toda a plataforma.

Alguém poderia argumentar que a Evernote está simplesmente deixando claro, num ato de honestidade, uma prática que é comum a basicamente todas as empresas que guardam uma porção dos nossos dados e registros pessoais — afinal, seria bastante ingênuo acreditar que a Apple ou o Google, por exemplo, não acessam nossas informações quando conveniente ou necessário (e, vejam bem, não estou dizendo aqui que isto seria algo aceitável, e sim meramente afirmando que é algo que acontece, querendo ou não).

O fato é que as reações negativas à nova política foram tão sonoras que o CEO da Evernote, Chris O’Neill, teve que vir a público para esclarecer a situação. O executivo afirmou que, no caso de o usuário optar por participar da “experiência melhorada” através da tecnologia de aprendizado de máquina, tudo o que os empregados verão são trechos de notas e conteúdos, sem especificar o autor, para monitorar o funcionamento da tecnologia. Caso alguma dessas notas tenha uma informação pessoal, ela será automaticamente filtrada e ocultada.

Já nos casos “inevitáveis” de violações ao termo de serviço, O’Neill informou que eles são raros e geralmente só se aplicam a pedidos de agências governamentais, resoluções de problemas requisitadas pelos próprios usuários e coisas do tipo. Neste caso, realmente o usuário não pode optar por impedir o acesso da empresa às suas notas, mas o CEO afirma que o número de empregados aptos a acessarem esse conteúdo é extremamente limitado e restrito a uma equipe escolhida por ele próprio (se isso traz alguma paz de espírito).

Após a polêmica faraônica envolvendo a nova política de preços que limitou a sincronização a apenas dois dispositivos na conta gratuita (e consequentemente causou uma debandada em massa do serviço), mais uma controvérsia não é exatamente o que o Evernote está precisando no momento para a sua imagem. Fica o questionamento, entretanto — e a proposta de reflexão —, se a nova política da empresa é realmente (e anormalmente) intrusiva ou os caras simplesmente pagaram por sua clareza.

[via 9to5Mac]

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