Cruzeiro vive seu dia mais melancólico e paga por seus incontáveis erros no inédito rebaixamento

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Por muito tempo, o Cruzeiro pareceu acreditar que evitaria o rebaixamento no Brasileirão por osmose. A situação claudicante se arrastava e existia até certo desdém para tratar dos riscos. A reação prometida, contudo, nunca aconteceu. Derrota após derrota, a Raposa se afundou num buraco sem fundo. A última rodada ainda guardava chances matemáticas de salvação. Mas não se viu, em nenhum momento, um time que brigasse por isso. O descenso inédito dos cruzeirenses é dos mais melancólicos. A apatia celeste explica bastante sobre a tranquila vitória do Palmeiras por 2 a 0, embora o abismo tenha incontáveis razões.

E o que não se reverteu em campo, infelizmente, se transformou em revolta nas arquibancadas. O cenário de guerra no Mineirão tornou ainda mais esquecível uma tarde tenebrosa ao clube. O que deveria ficar no campo terminou em violência e imagens fortes. Torna-se retrato mais amplo da sociedade, mas também do caos que se instaurou no Cruzeiro ao longo de 2019.

O Cruzeiro, afinal, fez por merecer o seu rebaixamento. O clube seguiu fielmente um roteiro de crises. Institucionalmente, o ano foi tomado por incompetência. O clube acumulou irregularidades e outros tantos desmandos políticos que atravancaram tudo ao redor. A falta de controle gerou mudanças de técnicos e pouca coerência na gestão do futebol. Já nos vestiários, o elenco de cobras criadas atrapalhou mais. As vaidades se sugeriam bem mais importantes do que o desempenho em campo, algo enfatizado pelos veteranos que se acovardaram nesta reta final – exceção feita a poucos nomes, como Fábio, Henrique e Léo. Não dá para apontar apenas um culpado. De qualquer forma, a queda tem muita influência de cima para baixo.

Ao longo dos últimos jogos, o Cruzeiro já dava por entender que não se salvaria. Sua sorte foi cruzar com um Ceará que também tropeçava nas próprias pernas. Ainda assim, os celestes conseguiram perder esta corrida de impotência. De certa maneira, havia um certo ar de resignação neste domingo. Os cruzeirenses precisavam vencer o Palmeiras e torcer por uma derrota do Vozão contra o Botafogo. Até criou-se uma expectativa sobre este cenário intrincado que, no fim das contas, esteve distante de acontecer. Apesar de ficar em desvantagem no Estádio Nilton Santos, o Ceará arrancou o empate por 1 a 1, suficiente para a sua permanência. No Mineirão, a desilusão e a fúria.

O jogo

Antes que tudo terminasse de desabar, via-se um Mineirão cheio, mas não tanto quanto poderia. E também prevalecia uma tensão na atmosfera. Uma agonia por aguardar o desfecho dos 90 minutos. Uma desesperança no próprio potencial do Cruzeiro em se salvar. A Raposa, afinal, não vinha fazendo o suficiente no Brasileirão. A torcida celeste já tinha sido talhada por outras decepções recentes. A esperança precisava enfrentar esses sentimentos. Antes que a bola rolasse, houve até mesmo o apelo a uma oração puxada nas tribunas. Depois, os cânticos para apoiar o time.

Porém, o primeiro tempo seria letárgico. Nem de longe lembraria a importância de um jogo que valia a sobrevivência. E, aos desavisados, até poderia parecer que o Palmeiras necessitava da vitória. Os alviverdes foram bem mais agressivos e mais interessados em atacar. Léo quase marcou contra no minuto inicial, mas Fábio espalmou. O goleiro ainda faria uma defesaça aos 15, desviando com a ponta dos dedos um chute cruzado de Zé Rafael. Os paulistas exploravam melhor os espaços e tinham velocidade.

O Cruzeiro apresentava dificuldade para sair ao jogo. Rodava a bola na defesa e não conseguia romper a marcação do Palmeiras. Quando se aproximava um pouco mais da área, as tentativas da equipe terminavam travadas. E a falta de atitude, com o passar dos minutos, também passou a afetar a torcida. Os celestes cobravam “raça” de seus jogadores. O estádio só explodiria mesmo por volta dos 38, quando Marcos Vinícius abriu o placar para o Botafogo contra o Ceará. Ironicamente, um ex-cruzeirense, que não fez muito pelo profissional. Neste momento, a Raposa se safaria com uma vitória.

O tento fez a torcida se animar, mas o Cruzeiro ainda precisava fazer sua parte. O time, ao menos, sentiu a energia e reagiu. A melhor chance durante o primeiro tempo saiu nestes minutos finais. Ezequiel enfiou para Dodô na esquerda e o lateral tentou passar a Pedro Rocha, mas Weverton estava atento e segurou. Logo depois, o apito final não permitiria aos mineiros aproveitarem mais esta reação. Já no Rio de Janeiro, por pouco o Ceará não empatou no mesmo momento. Diego Cavalieri fez grande defesa em cabeçada de Thiago Galhardo.

Os dois times ameaçados pelo rebaixamento voltaram com mudanças do intervalo. Sassá entrou no lugar de Ezequiel pelo Cruzeiro. Já o Ceará apostou em Cristovam e Wescley. E os mineiros também precisaram queimar a segunda troca logo cedo: Orejuela sentiu lesão e deu lugar ao garoto Weverton. Enquanto a Raposa permanecia com uma paciência pouco condizente com sua situação na tabela, o Vozão cresceu nos primeiros minutos e começou a se impor no campo ofensivo.

O Cruzeiro dependia de uma bola e Sassá apareceu em cabeçada que Weverton segurou sem problemas. O drama, no entanto, chegaria o seu ápice instantes depois. O Palmeiras abriu o placar aos 11 minutos. Uma bola longa chegou a Dudu pelo lado esquerdo do ataque. O ponta ganhou a disputa e foi astuto demais, ao segurar a posse e passar de calcanhar. Na linha de fundo, Raphael Veiga cruzou e Zé Rafael finalizou rasteiro para superar Fábio. As lágrimas começavam a brotar no Mineirão.

E o abismo do Cruzeiro, acredite, se tornaria mais profundo nem dez minutos depois. Uma bola no braço de Marcinho rendeu um pênalti para o Ceará no Rio. Thiago Galhardo teve sangue frio para cobrar e superou Diego Cavalieri na marca da cal, mesmo batendo no meio. O empate do Vozão tornava tudo muito mais difícil aos celestes. Além de dependerem da vitória do Botafogo, precisavam também virar contra o Palmeiras. No Mineirão, nenhum sinal de reação. A maior movimentação era da polícia, que passou a ocupar algumas áreas específicas à beira do campo.

A melancolia

O Cruzeiro necessitava de uma atitude mais incisiva no ataque. E quem acompanhou o time nos últimos meses sabe o tamanho da dificuldade que isso representa. A falta de repertório é uma constante aos celestes e, exceção feita a cruzamentos pouco perigosos, quase nada acontecia ao redor da área do Palmeiras. Já aos 35 minutos, a melancolia começou a tomar o Mineirão. Os torcedores caminhavam para fora do estádio. Alguns focos de confusão surgiam nas arquibancadas. E os barulhos de bombas de efeito moral se tornaram constantes. Os mais revoltados, sem razão, quebravam cadeiras e as atiravam no campo.

Não havia qualquer clima ao futebol, no que mais parecia um ambiente de guerra. O goleiro Weverton pediu para que o duelo fosse interrompido, o que não aconteceu. E com o Cruzeiro sem energias dentro de campo, Dudu anotou o gol que confirmou o rebaixamento. Bruno Henrique cruzou da esquerda e o capitão apareceu sozinho para cabecear, dando o golpe de misericórdia. Formado pela base cruzeirense, o ponta colocou o capuz de carrasco.

Enquanto a torcida do Ceará comemorava no Rio de Janeiro, a partida no Mineirão precisou ser paralisada por causa de uma invasão. Os jogadores se reuniram no meio do campo, enquanto a pancadaria ocorria nas arquibancadas. A transmissão mostrava pessoas acuadas, inclusive crianças, e outras machucadas. Claramente ninguém queria jogar, e nem existia mais motivo para isso. Quando o relógio se aproximava dos 45 minutos, o jogo foi dado como encerrado e os dois times se retiraram aos vestiários sob proteção dos escudos da polícia. As tribunas já se viam praticamente vazias, apesar da insistência de alguns vândalos em depredar as cadeiras. Torcedores choravam, outros sangravam e passavam mal. A mensagem no telão recomendava que evacuassem o estádio.

Neste início de noite, a preocupação se concentra mesmo na segurança das pessoas que estiveram no Mineirão e na detenção dos responsáveis pelo tumulto. Os relatos são de mais embates na esplanada do estádio. A insatisfação é natural, mas a violência só piora a situação e prejudica o próprio Cruzeiro. Mancha ainda mais essa história.

Difícil encontrar, entre os times grandes que caíram no Brasileirão, alguém que acumulou tantos erros quanto o Cruzeiro. E a situação grave tende a se alongar rumo à Série B. O clube possui uma dívida enorme, corre riscos de iniciar a campanha com pontuação negativa, terá cotas menores de televisão e terá que pensar em uma limpa – não só no elenco, mas também na diretoria. Enquanto isso, a violência desta rodada deve provocar punições pesadas, inclusive com portões fechados.

A grandeza celeste ainda torna a equipe favorita ao acesso imediato. No entanto, o cenário leva a crer que a retomada será mais difícil que o costumeiro aos grandes, por tanta gente que não honrou a tradição e o patrimônio cruzeirense. A ressaca pelo rebaixamento inédito será longa. Há uma conta enorme a se pagar. E se o primeiro passo é limar alguns nomes que parasitam a agremiação, a começar na diretoria, os torcedores precisarão de uma união verdadeira. Uma força bem diferente das cenas grotescas que se viram no Mineirão.

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