Os dirigentes passam, os ídolos são eternos e a história de Prass ainda prevalecerá no Palmeiras além do grande goleiro

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Poucos clubes brasileiros possuem uma escola de goleiros como o Palmeiras. Há uma academia histórica de lendas, a maioria formada ou aprimorada desde cedo com a camisa alviverde. A ampla lista inclui nomes como Oberdan, Valdir, Leão, Velloso, Marcos e outros arqueiros que encabeçaram as grandes conquistas palestrinas. Diferentemente de todos estes, Fernando Prass chegou ao Parque Antárctica já veterano, aos 34 anos. Quebrou uma escrita de 18 anos sem que o clube contratasse goleiros. E, no fim, despede-se na mesma galeria que todos. Não da maneira como deveria, mas com uma trajetória grandiosa o suficiente para gerações de torcedores guardarem o seu nome. Prass honrou a camisa do Palmeiras como raríssimos.

Quando deixou o Rio de Janeiro para se mudar a São Paulo, o gaúcho de Viamão tinha uma carreira estabelecida. Surgiu no Grêmio, estourou no Coritiba, tentou a sorte na União de Leiria. Já era idolatrado no Vasco e tinha participado da reconstrução do clube, indo do título da Série B em 2009 à conquista da Copa do Brasil em 2011. Ainda assim, insatisfeito com os salários atrasados na Colina, rescindiu seu contrato para abraçar o Palmeiras. Buscaria a redenção de um grande outra vez, também em uma equipe recém-rebaixada à segundona.

Naquele momento, a consideração do torcedor palmeirense por Prass começou. Eleito o melhor goleiro da Série A em 2011, ele tornava-se um líder no Palmeiras que tateava novos rumos. Parecia um desafio interessante a um goleiro, a princípio, em fim de carreira. Na verdade, seria apenas o começo de uma grande história. Os alviverdes subiram com Fernando Prass fechando o gol. Os alviverdes ganharam não só um baita arqueiro, mas também um pilar, que carregaria em suas costas o orgulho do clube por um bom tempo.

Vale lembrar, a ascensão do Palmeiras não seria imediata. As provações em 2014 permaneceram grandes. Os palmeirenses perderam para o Ituano na semifinal do Paulistão. Já no Brasileiro, a ameaça do descenso de novo rondava. Prass machucou o cotovelo e precisou passar por duas cirurgias, ficando cinco meses parado. Voltou a tempo de disputar as últimas 12 rodadas e, apesar de todas as dificuldades, garantir a continuidade dos palestrinos na primeira divisão. Mas os tempos de penúrias estavam prestes a acabar.

O Palmeiras contratava e criava sonhos. Prass mantinha-se firme como uma referência. E aquele que deveria ser o último ano de seu contrato original, no fim das contas, o consagrou. Ser herói nos pênaltis contra o Corinthians, mesmo sem o título no Paulista, parecia um bom sinal. A certeza disso veio na Copa do Brasil, durante a qual o goleiro colecionou defesas decisivas. Se os alviverdes estavam na final, deviam muito ao seu arqueiro. Pois justo a decisão reservou o Prass imortal que os palestrinos sempre levarão no peito. No tenso duelo contra o Santos, o camisa 1 virou até mosaico. Confiança tamanha provada em campo, sobretudo na disputa por pênaltis. O craque do time pegou uma cobrança. Mais do que isso, ele também assumiu a responsabilidade e converteu uma cobrança. A do título. A da redenção.

A Copa do Brasil de 2015, naquele momento, simbolizava um novo Palmeiras que deixava para trás os seus medos. Hoje em dia, soa mais como o ponto de partida de uma era vitoriosa que inclui dois títulos do Brasileirão. Prass é justamente o elo. O profeta que conduziu seu povo na caminhada pelo deserto até a terra prometida. E que logo depois teria mais uma disputa por pênaltis contra o Corinthians para se confirmar entre os intocáveis nos livros palestrinos.

Não seriam fáceis os meses seguintes, por conta da lesão que custou a participação de Prass nos Jogos Olímpicos de 2016. Escolhido a dedo por Tite, não poderia ser o esteio dos garotos rumo ao ouro inédito. Em campo ou fora dele, porém, o gaúcho seguia como líder do Palmeiras. Como o exemplo. Perderia a maior parte do Brasileiro em 2016, substituído por Jaílson. Ganharia a taça e uma das maiores provas de carinho, ao sair do banco na partida decisiva contra a Chapecoense só para ouvir a ovação. Não demonstrou vaidade, ao também exaltar seu decisivo substituto.

O ano de 2017 seria magro ao Palmeiras, mas hoje parece importante por representar o último ano de Fernando Prass como titular. A partir de então, o veterano acabou limitado a aparições esporádicas, até pela contratação de Weverton. Cada chance de atuar se tornava um deleite aos palmeirenses, que podiam expressar a gratidão pelo ídolo. E por vezes ele correspondeu plenamente, como na excepcional atuação contra o Junior de Barranquilla na Libertadores de 2018. Aos 41 anos, estava claro que os minutos viriam a conta gotas. E nem era mais por isso que se desejava a permanência do goleiro.

A figura de Prass no Palmeiras transcende. Transcende o goleiro que aceitou a missão de recuperar o clube. Transcende o pegador de penais, o cara das defesas decisivas, o tento derradeiro na Copa do Brasil. E não se trata também apenas da liderança, da maneira como representa os jogadores ou da lucidez nas entrevistas. Fernando Prass entendeu o que é o Palmeiras como raríssimos. Valorizou o melhor lado da torcida, o da paixão, e aproveitou isso para fazer o time mais forte nos últimos anos. Representou o escudo, a camisa, a história.

O contestável na saída de Prass do Palmeiras não é exatamente o momento. É a forma como tudo aconteceu, de maneira pouco clara e pouco condizente à própria conduta do goleiro com o clube – com a maneira que abraçava a agremiação de peito aberto, defendendo-a não apenas sob as traves, mas sem deixar o senso crítico. Jogadores, funcionários e até dirigentes sentiram o adeus, quando fica claro que alguns pisaram na bola com ele. Os alviverdes perdem uma referência, perdem um representante do grupo, perdem um cara que poderia continuar na Academia mesmo depois de pendurar as chuteiras. O ídolo, ao menos, permanece imaculado.

Prass já havia indicado que deseja seguir jogando. Vai completar 42 anos em 2020, mas tende a procurar outro clube. E será emocionante, para dizer o mínimo, o possível reencontro com o Palmeiras. Por tudo o que realizou e ofereceu ao clube, não haverá ingratidão nas arquibancadas. O goleiro é praticamente unânime entre os torcedores. Os dirigentes vão, os ídolos ficam. A memória é muito mais forte ao que aconteceu em campo, não nos bastidores. E a falta de comprometimento ocorrida neste episódio, por mais que possa machucar o arqueiro, tende a ficar para trás com o tempo. O que prevalece é a história de quem fez da camisa a segunda pele para agigantar o Palmeiras. Os feitos e a dedicação, estes sim, são eternos.

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