Apresentando: a queer da astrologia

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Você entra no Tinder no domingo de manhã. Estou falando de entediada e de ressaca, sem olhar direito os perfis. Você vai passando pelas fotos. E aí você vê: a bio que toda pessoa queer usa no aplicativo nos últimos três a cinco anos, alguma coisa no estilo: “VEGAN / NÃO-MONOGÂMICA / DUPLO LEÃO, LUA EM ESCORPIÃO / BRUXA ANTIFA / PRÓ-KINK / PLANTAS & DIY / SE VOCÊ QUER SER MEU AMANTE TEM QUE SABER LIDAR COM A MINHA ANSIEDADE” seguido de três emojis de bola de cristal e um verso do “Decepticon ” do Le Tigre (“I'm a gasoline gut with a Vaseline mind”). A primeira foto é uma selfie sem sorrir no espelho. A segunda é uma foto do gato siamês da pessoa, Judith Butler, que mais tarde você saca que é de todo mundo do círculo poliamoroso sóbrio dela.

A Queer da Astrologia é especialmente fácil de notar. Quanto a vibe, se eu fosse desenhar um diagrama de Venn de três categorias, elas ficariam entre o hipster da escola de artes (o da vida real, não os nerds de barba que adoram café que as marcas inventaram em 2011), o hippie clássico e a feminista branca do Instagram que pinta os pelos do sovaco de azul como “uma declaração”. Crucial, a Queer de Astrologia curte pacas os planetas (daí o nome), com certeza vai se oferecer para ler o tarô pra você no primeiro encontro e culpar Vênus retrógrado por cancelar o segundo. Elas gostam de pensar que não mais conscientizadas que os grupos mencionados anteriormente, e vão se certificar de que você saiba disso (geralmente fazendo cancelamentos públicos através do stories do Insta. Na maioria das vezes, elas estão certas).

A Queer de Astrologia na maioria das vezes é vista com uma franja curtinha, os lados raspados, tatuagens stick n poke e um piercing no septo (mas versões mais recentes têm optado por mullet cortado em casa, outras raspam a cabeça toda mesmo). Se entrou pra faculdade, a pessoa fez Teoria de Gênero, Belas Artes ou um daquele cursos tipo “Técnicas de Colagem Sonora”, cuja última exposição era só ela gritando num microfone no escuro. É muito difícil encontrar uma Queer da Astrologia que não tenha feito um pelo menos um zine chamado tipo “WhatsApps do Meu Ex” ou “Nudes Chorando, Volume Um”.

No estilo de vida, a Queer da Astrologia geralmente é não-monogâmica, não bebe e é vegana (ou pelo menos uma das três). Tudo é DIY, ético e kink positive, e envolve leite de aveia. E tudo se resume aos astros e planetas – do humor dela no dia, o comportamento de outra pessoa, até o que está acontecendo no mundo (“Desculpa, não vou poder ir hoje, o retrógrado desse mês fodeu minha agenda e estou tretando com o outro parceiro tóxico do meu principal, vamos outro dia na oficina de colagem e fetiche??”).

Não tem nada de errado com a Queer da Astrologia. Todo mundo tem que ter a liberdade de fazer qualquer coisa, menos ser cuzão. Provavelmente é bom admitir que também sou uma delas (moro em Dalston, sou uma queer vegana obcecada por astrologia que estudou na Goldsmith, trabalho na VICE e tenho uma tatuagem stick n poke escrito “WITCH” no joelho, feita pela minha ex que atualmente tem a custódia do nosso gato, o Vincent). Acho positivo que tanta gente olhe para os planetas esperando entender o mundo e nosso lugar nele, e sempre vou apoiar a rejeição de estruturas heteronormativas opressoras. Mas também... meu Deus, né.

Nos últimos anos, a estética da Queer da Astrologia ficou um pouco mais mainstream – em parte com plataformas como o Instagram, o que significou que certas comunidades se misturaram mais com outras que no passado, quando a gente só se cruzava nas baladas. Tem gente como a Emma Watson usando franja agora, e até seu pai sabe que ele é um “típico leonino”, mesmo não sabendo exatamente o que isso significa. Com isso em mente, ficou mais difícil diferenciar se a garota que trabalha no café, tem uma franja minúscula e “TOP” tatuado numa mão e “BOTTOM” na outra, é realmente uma Astro-Queer, ou só, tipo, aquela mina com quem você estudou no colegial.

Mas o que o futuro reserva para a Queer da Astrologia? Bom, considerando que ser queer e astrologia sempre estiveram por aí, os fundamentos dessa subseção obviamente vão continuar aqui até as mudanças climáticas matarem todo mundo. Mas e a estética? A vibe? A energia? Mais um pouco, espero. Não sei mais o que vestir.

@daisythejones / @esmerelduh

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