E quando o inimigo é todo mundo?

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“O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura”

– Hannah Arendt

Em tempos de bizarrice, a tal complexidade das relações humanas acaba por ser um tema e tanto. Há um bom tempo que vivemos no país das contradições, apesar de continuarmos tentando manter a ideia — ideal — de que se trata de polarização pura e simples.

Talvez o marco temporal que se precise considerar sejam as manifestações de 2013; não é novidade que algo dessas manifestações foi determinante ao que vivemos politicamente hoje no Brasil. Afinal, que mistura foi essa que, sem ter ido além da velha e conhecida combinação racismo e punitivismo dos frascos de pinho sol e água sanitária com a pele negra de Rafael Braga, pareceu articulação nova?

Será mesmo que essa linha que 2013 pareceu riscar nos dividiu de forma exata?

As eleições de 2014 e a sequência de rupturas institucionais e constitucionais que se operaram, a partir do impeachment da presidenta democraticamente eleita, de um certo modo, além de cobrar o seu alto preço, trouxeram algo que, em tempos de redes sociais, nos aponta a uma nova — ou reformulada — forma de reinscrever a mesma coisa.

A definição de lugar no campo social, especialmente na classe média burguesa, elitista e autocentrada, na qual em alguma medida também me incluo, (re)começa a operar a partir de lados no jogo de cartas marcadas, em relação a um dos lados, diga-se de passagem, para não deixar de mencionar o famoso “isentão”.

No entanto, enquanto a angústia parece crescente a quem, de algum modo, pretende um arranjo social que se distancie da perversidade dos tempos atuais, é preciso que consigamos começar a questionar se esse modo de oposição dos lados, quando nos silencia nos laços de identificação por hashtags, não é justamente a ilusão que nos mantém fora do jogo político real.

Entender o jogo que a grande mídia tem feito não é para principiantes

Na era das imagens e da velocidade das informações, como a circulação do afeto fica reduzida a instantes altamente descartáveis, não é de se surpreender que é justamente o ódio ao afeto que hoje nos define como sociedade. Mais do que isso, não é tampouco surpreendente que, mesmo quando inseridos no lado supostamente defensor da democracia e das minorias, ainda se esperneie — e muito — quando a convocação do real é a sustentação das diferenças.

Se Freud identificou a agressividade como força — pulsão — constituinte do ser humano civilizado há mais de um século, foi a insistência em desconsiderá-la que a psicanálise freudiana apontou como uma das causas dos contínuos fracassos de harmonia e ordem social na civilização, como os conhecidos horrores das duas guerras mundiais.

Sem pretender fazer uma análise teórica complexa, não é preciso ir muito longe para se perceber que por muito tempo a grande arma do neoliberalismo e a maneira constante com que se rearticulou no campo social para atender aos mesmos interesses da elite branca detentora do capital foi a utilização exatamente deste ódio que não se nomeava e, portanto, não saía do armário, como discurso político.

Sigmund Freud, criador da psicanálise (1858-1939).

Com a reinvenção do discurso de ódio em tempos de autoverdade, ou seja, contraditório em si mesmo e sem pretensão alguma de comprovação no real, e por isso autorizado a ser nomeado e estar (supostamente) às claras no social, não deveria parecer tão inusitado que o seu alcance difuso também atue como modo de ruptura constante dentro dos próprios grupos, ou lados, que ele parece definir.

Reparem que essa rearticulação discursiva não foi necessariamente uma mudança estrutural, continuamos sendo moldados não apenas pela existência de um discurso de ódio excludente que nos funda como sociedade, mas também pela potência desse discurso se sustentar justamente na negação de que somos estruturalmente também odiosos.

É nessa armadilha que me parece estarmos enredados desde que nos “tornamos” os sujeitos da racionalidade moderna, ao invés da elaboração da diferença e deste gozo mortífero, escolheu-se a ilusão do pertencimento. As guerras, no entanto, deixaram evidente: ou nos exterminaríamos, ou seria preciso uma maneira de apaziguamento que desse conta da atualização do desamparo no encontro de amor – impossível – com o outro e é aí que parece entrar o desresponsabilizar como método de dominação social.

Nessa lógica de desresponsabilização como método de dominação social, talvez seja mais fácil compreender porque a polarização não é exatamente um reflexo da ruptura social, mas sim uma construção ideal de que a identificação com um dos lados daria conta do desamparo e da agressividade humana, já que, ao invés de servir à nossa emancipação como sujeitos, serve para nos manter escravos.

E, enquanto ficamos perdidos nessa tentativa de nos definir, ou melhor, nos igualar em um dos lados, qualquer tentativa de um arranjo social diferente acaba cedendo aos apelos ilusórios da padronização social pela via da imagem e do consumo. Se formos forjados numa falsa trama de bilateralidade de um lado, de outro lado é importante que possamos perceber que há também uma coerção constante se articulando e rearticulando nos meios de comunicação, em especial no mundo virtual, para manter a instabilidade do lado que pretende, ainda que timidamente, manter e avançar em conquistas sociais de inclusão social e redução de desigualdade.

É imprescindível que a partir desta chamada nova onda de conservadorismo — que eu prefiro chamar de fascismo mesmo, porque é disso que se trata — que quem se entenda do outro lado ultrapasse a insistência na submissão a um discurso de apagamento da diferença, não como silenciamento ou unidade, mas como movimento.

Pesquisadores descobriram que tendemos a evitar o contato com ideias distintas. Pesquisa foi publicada pelo centro norte-americano Pew Research.

A palavra precisa circular e, para circular, é preciso um esforço de diálogo sem descartar que também somos feitos de ódio e que nesse ódio há racismo e misoginia ainda a serem descontruídos. A desconstrução é, quero insistir, pelo reencontro também dos corpos e suas diferenças. Negar a estrutura com que fomos formados até agora só serviu para que sigamos paralisados enquanto nos tomam tudo. Ou até pior, para que de um certo modo, também nós reproduzirmos a opressão.

Se o inimigo está em todo lugar, talvez o desafio seja entender que este inimigo que vemos em todo lugar somos nós mesmos. A luta contra o fascismo, assim como a luta contra a violência social, não é uma luta a ser travada contra pessoas determinadas, mas sim contra uma ideia, um discurso, que vem nos definindo há séculos em categorias de raça e gênero, de maneira cada vez mais articulada.

E são as mulheres, ouso dizer em especial as mulheres negras, que apesar de todos esses séculos de misoginia, do patriarcado nos definindo como inimigas de nossos corpos e de todos os outros corpos femininos, as protagonistas nessa subversão necessária da lógica da inimiga. Sem as vozes e os corpos femininos não haverá saída, mas apenas retorno.

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