Linchamento virtual

Photo of Ao decidir não beijar o noivo em casamento e criticar um concorrente, humorista alagoano foi massacrado e perdeu seguidores. É difícil viver on-line
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As redes sociais são avassaladoramente cruéis com quem erra ou apenas anda distraído e deixa escapar uma bobagem. No tribunal eletrônico, rapidíssimo, não há STF que permita apelação. A história que se lerá a seguir é o relato de um linchamento público — virtual apenas por ter se dado no campo da internet, mas muito real.

O humorista alagoano nascido no mundo digital Carlinhos Maia (15 milhões de seguidores no Instagram e 1,6 milhão no YouTube) se casou com o também influenciador Lucas Guimarães em 21 de maio, às margens do Rio São Francisco, em Sergipe. Tudo foi minuciosamente pensado para ganhar curtidas, ser compartilhado e, para ficar em um termo de nosso tempo, criar “engajamento”. Entre os 28 casais de padrinhos e convidados estavam Anitta, Wesley Safadão, Alok, Kevinho e Gretchen (se por acaso você não conhece alguns deles, é porque esteve desplugado). Somados, os perfis de Instagram dos 800 presentes ultrapassariam 180 milhões de seguidores.

Tudo corria muito bem: a transmissão pelo Instagram batia recorde mundial, com 2,7 milhões de pessoas assistindo simultaneamente ao evento, e o escambo de seguidores voava acelerado, com expansão espetacular de alcance das contas eletrônicas dos envolvidos, um curtindo o outro, infinitamente. Até que, sempre há um porém, a câmera do celular deixou de captar uma cena. Escândalo! Ao decidir não beijar o marido diante dos convidados e dos milhões de pessoas sintonizadas na telinha do smartphone, Carlinhos foi condenado por ativistas LGBTs. Enquanto ele bebericava champanhe no salão de festas, sua orelha esquentava nas arenas virtuais. “Um casamento gay que é a personificação do ‘pode até ser gay, mas não muito’ ”, criticou um; “de acordo com o raciocínio de Carlinhos Maia, os convidados dele se incomodariam com um beijo gay mesmo eles sabendo que foram convidados para um casamento gay?”, questionou outro. No dia seguinte, o noivo tentou justificar: “Quem sabe um dia será visto, mas por enquanto será apenas sentido por nós dois e pelo nosso amor. Quer um conselho? Amem mais e digitem menos”. A resposta só alimentou aqueles que pediam seu “cancelamento” (nova gíria que significa deixar de seguir). Mas o pior ainda estava por vir.

DE SAÍDA – Marquezine: suspendeu as redes para evitar novos ataquesDivulgação

O linchamento virtual tomou outra proporção quando os fãs notaram a ausência do humorista Whindersson Nunes (31,4 milhões de seguidores) e da cantora Luísa Sonza (12,9 milhões de fiéis) entre os padrinhos. O casal foi, de fato, convidado, mas achou melhor declinar. Avaliou que os noivos queriam forçar uma intimidade que não existia. Sabia que, pelas costas, Carlinhos chamava Luísa de “oportunista”. O noivo errou de tática ao abordar a ausência de Whindersson. “Quando você deixa de ser o número 1, você não fica feliz. Imagina que você era o queridinho e não é mais.”

Para acirrar ainda mais a disputa, ele curtiu um comentário jocoso sobre a doença de Whindersson, a depressão. Um detalhe: Carlinhos contou lorota. Whindersson tem o dobro de seguidores e recebe cachê bem maior, 150 000 reais por três stories no Instagram. Carlinhos leva 70 000 reais pelo mesmo pacote. Os memes fizeram a briga Carlinhos Maia x Whindersson Nunes ser o assunto mais comentado no Twitter em todo o mundo. A chuva de críticas começou a respingar nos perfis de amigos e familiares do noivo. Resultado: Carlinhos, que drama, passou a perder seguidores em ritmo assustador. As curtidas evaporaram. Seu mundo ruiu. O que seria o momento de curtir a lua de mel se transformou em um comitê de gestão de crise, culminando na decisão do humorista e de seu marido de suspender seus perfis no Instagram. Eles os reativaram quatro dias depois. “Quando eu errar, me ensinem. Não me agridam”, postou Carlinhos.

Um empresário envolvido na operação de limpeza de imagem recomendou o sumiço provisório. “É a melhor forma de minimizar um linchamento virtual e de estancar a perda de seguidores.” Sair de cena, ensina quem entende do riscado, faz diminuir o efeito manada, quando anônimos entram na onda de detonar alguém pensando eles próprios em aumentar seus engajamentos. Nessas ocasiões, há quem poste mensagens de ódio sem saber ao certo quem é o alvo.

O humorista não foi pioneiro na estratégia de suspender o perfil. Bruna Marquezine fez o mesmo durante o Carnaval, ao ser criticada por deixar de seguir Anitta quando a cantora foi vista em um chega mais com Neymar. Gisele Bündchen também apanhou na arena virtual. Na ocasião do rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro, postou uma foto produzida usando um manto verde. Apesar de ela pedir doações às vítimas, os seguidores viram um oportunismo da modelo para obter curtidas usando como desculpa a catástrofe ambiental e humana. Após as críticas, Gisele deletou a imagem. Não é fácil viver no tempo das redes sociais, com a guilhotina sempre ao alcance do pescoço. Ninguém curte.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

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