Um papo com Joan Cornellà, o artista que a internet já devia ter cancelado

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Atualmente a exigência é que que cada um de nós diga a coisa certa a cada segundo, ou sofrerá as consequências, Joan Cornellà abriu um nicho dizendo exclusivamente coisas erradas. O trabalho do artista catalão é niilista e provocador, satirizando nossa miserável vida moderna através de cartoons coloridinhos com um ou vários painéis. Seus quadrinhos retratam suicídio, pobreza, deficiências, poluição e amputação, e geralmente são sangrentos ou escatológicos, mas uma coisa é constante: o riso.

Diferente do que você poderia esperar, considerando quanto seu trabalho é descaradamente sombrio, Cornellà é tudo menos uma figura subversiva e marginal no mundo da arte. Ele tem mais de 7 milhões de seguidores nas redes sociais, já ilustrou para o The New York Times e produziu a capa de um álbum do Wilco, com Eric Andre e Matthew McConaughey entre aqueles que já foram visto usando suas camisetas na rua.

Mas como ele concilia seu enorme sucesso nas redes sociais com seu desprezo saudável por essas plataformas? Nos encontramos com Cornellà em sua exposição solo “I'M GOOD THANKS”, na PUBLIC Gallery em Londres.

VICE: Como diriam no Twitter, seu estilo de comédia provavelmente faria outra pessoa ser “cancelada”. Milagrosamente, a pior coisa que parece acontecer com você é ser banido vez por outra do Instagram. Quantas vezes eles já suspenderam sua conta?

Joan Cornellà: Tantas vezes que já perdi a conta. O Facebook costumava ser pior, porque toda vez que era censurado, eu não podia usar minha conta por um mês, o que significava que eu acabava banido por um terço do ano. Sei lá por que isso mudou, e faz meses que a inquisição da internet não me censura. Claro, não é tão ruim quanto ser preso por falar o que você pensa, mas mostra que o nível de democracia e liberdade de expressão na internet é bem ruim considerando que ela é comandada por corporações. Facebook e Instagram têm políticas similares e não gostam especialmente do conteúdo sexual dos meus trabalhos, então às vezes escolho pixelar algumas partes.

Você recebe algum tipo de explicação escrita para essas suspensões nas redes sociais?

Nunca leio as mensagens que recebo quando sou banido, mas elas geralmente são curtas e sem nenhuma explicação. O jeito como eles decidem censurar parece meio aleatório e acho que depende principalmente de denúncias de outros usuários. Uma vez, eles baniram uma tirinha onde um terapeuta dizia para o paciente se matar – aparentemente eles acharam que eu precisava de ajuda, então me mandaram uma mensagem com um conselho falsamente benevolente. É um pouco ridículo ver como eles não diferenciam ficção da realidade, e ainda me surpreendo com a quantidade de pessoas que leem meu trabalho e não conseguem ver a ironia.

Joan Cornella IM GOOD THANKS
Joan Cornellà, IM GOOD THANKS, PUBLIC Gallery, 2019. Cortesia: PUBLIC Gallery.

Você deve ter um relacionamento estranho com essas plataformas, considerando que elas vivem te suspendendo, mas ainda são fundamentais para o seu sucesso.

Totalmente. Acho que eu deveria ser grato às redes sociais por essa razão. E além disso, acho que há aspectos bons nelas, como a interação com as massas e a democratização da informação em muitos níveis. Mas como você pode detectar no meu trabalho, sou bastante cético com a ideia de redes sociais como instrumento de emancipação.

Um feed de redes sociais parece o tipo perfeito de espaço de exposição para muito do seu trabalho, porque só pelo fato de que o espectador escolhe passar tempo no Instagram ou algo assim, ele já é cúmplice do que está sendo satirizado. É como uma galeria de arte onde os visitantes precisam declarar que são cuzões na porta.

Sim, e acho que é assim que a maioria das pessoas se sentem usando as redes sociais. Além disso, todo mundo sabe que o Facebook está roubando suas informações privadas, e mesmo assim continuam usando. Honestamente, eu gostaria de me livrar de tudo isso, mas é o melhor jeito de mostrar meu trabalho para um público maior, então acho que sou um escravo das redes sociais.

Visualmente, seu trabalho tem certa similaridade com publicidade dos anos 1950 e panfletos de segurança em aviões. Quais são algumas das suas outras inspirações?

Acho que fui influenciado pelos estilos gráficos antigos através do trabalho de Crumb, Clowes ou Michael Kupperman, que se inspiraram nisso antes de mim. E também Pettibon, Michael Ray Charles e Barbara Kruger. Gosto da ingenuidade da publicidade antiga, e dá pra notar muitos sorrisos falsos nela, o que é perfeito. Além disso, eu diria que comédia de esquetes e stand up também são uma inspiração – recentemente assisti de novo a série britânica Look Around You, que é fantástica.

O rosto sorridente do seu personagem principal se tornou meio que seu cartão de visitas e veio a significar um senso de desespero, negação e mania no seu trabalho. Ele é baseado numa pessoa real?

Meu personagem não é baseado em ninguém específico, mais numa mistura de rostos. Você pode ver esse tipo de sorriso nos gráficos do Aphex Twin, em alguns personagens do Goya e naquele cara aleatório da vida real que finge que sua vida é OK mas está vendendo produtos de merda de bancos.

E de onde veio a obsessão com amputação? Membros são esquisitos mesmo, né?

Foi só o jeito mais fácil que encontrei de jogar com humor negro, visualmente. Lembro de assistir Braindead e rir muito; talvez esse seja um dos primeiros lugares de onde tirei inspiração.

Você obviamente adora encontrar os piores sentimentos possíveis para seus personagens demonstrarem e portanto satirizarem. Um dos mais simples e eficientes até agora foi “STOP BEING POOR”. Isso me lembra a explicação de Johnny Cash “But I shot a man in Reno / Just to watch him die” em “Folsom Prison Blues”: “Me sentei com a caneta na mão, tentando pensar na pior razão possível para uma pessoa matar alguém, e foi isso que veio na minha cabeça”. Imagino que você passa por um processo mental similar quando cria uma nova cena, não?

O processo do meu trabalho geralmente é baseado na ideia que a humanidade pode ser realmente nojenta, e uso humor para falar sobre coisas sérias como isso, para acrescentar camadas ou me afastar do desastre. Quando começo a pensar num novo trabalho, isso envolve principalmente uma visão sombria da humanidade, mas o processo em si é sempre divertido.

De animais de desenho animado lembrando que “vamos todos morrer” a caroneiros sinalizando alegremente que estão rumando para a “extinção”, tem um conforto estranho em muito do seu trabalho. Você entende por que “TODO MUNDO MORRE SOZINHO” ou “VIDA É SOFRIMENTO” pode nos fazer sentir melhor, não?

Gosto de pensar que talvez seja a mesma reação que tenho lendo os romances de Samuel Beckett ou os quadrinhos de Robert Crumb; a ideia que estamos constantemente cercados de desespero e fracasso, então o melhor que podemos fazer é rir.

Nos seus dois quadrinhos mais curtidos do Instagram; num, uma influencer suicida é baleada na cara pela mãe, outro é um homem sangrando no asfalto depois de um acidente de carro, ganhando orelhas de coelho num filtro do celular. Parece que nos odiamos por participar da competição infeliz que são as redes sócias. Você acha que a raça humana em algum ponto vai parar de ceder aos desejos narcisistas que a tecnologia nos permitiu alimentar, ou essa é uma Caixa de Pandora?

Não faço a menor ideia, mas me recuso a pensar que somos só produto para consumo moldado por tecnologia e algoritmos. Acho que o jeito como as redes sociais funcionam é apenas um reflexo de como o capitalismo evoluiu, essa ideia de que autoexpressão é tão importante, que precisamos nos expressar para ser diferentes e mostrar como somos especiais. E assim escolhemos nossa identidade como faríamos num supermercado, depois podemos compartilhá-la nas redes sócias como se estivéssemos vendendo esses bens de consumo.

@ChristophHooton

Matéria originalmente publicada na VICE Reino Unido.

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