O conhecimento abre portas, não necessariamente para o Mercado, por Rita Almeida

Facebook
VKontakte
share_fav

O conhecimento abre portas, não necessariamente para o Mercado

por Rita Almeida

Um dos porteiros do prédio do meu consultório, de vez em quando, puxa assunto comigo sobre algum tema intelectual. Logo na primeira vez, ele fez questão de me dizer que era formado em História, obviamente por acreditar que eu não daria crédito aos seus argumentos “de porteiro”. Eu não me considero uma pessoa pedante, converso qualquer assunto com qualquer pessoa, basta que ela tenha argumentos, mas confesso que, de fato, saber que ele tinha uma formação superior fez diferença na minha disposição para a conversa. Por puro preconceito meu, eu sei, mas admito que fez.

Hoje ele me abordou por causa do meu colar, e começou a falar das obras de Manet e Monet. Me explicou a diferença da obra desses dois artistas e do quanto ele lamentava por Monet ter “destruído” Manet (ou o contrário, porque eu não faço a menor ideia do que ele estava falando). Hoje eu não soube como argumentar sobre o tema, mas fiquei encantada com a disposição dele em me ensinar.

Não preciso dizer que o “porteiro intelectual” é resultado do sistema de cotas dos governos petistas. Mas, numa leitura mercantilista e utilitária de educação e formação (que este governo acha bonito divulgar como “respeitosa ao contribuinte”) a questão mais óbvia que surgiria dessa história seria: Por que cargas d’água precisamos de um porteiro com formação em história? Ou: Se for pra cursar história numa Universidade Federal e não conseguir emprego na área, pra que “gastar o dinheiro do contribuinte”?

Eu não faço ideia de como é para o meu colega de trabalho ter um curso superior e ser porteiro, mas o que me parece é que ele se mostra como altivo e orgulhoso de sua intelectualidade ao conversar comigo. Ainda que não seja necessário um curso superior para ser porteiro, tenho plena certeza que o curso de história fez TODA a diferença na vida desse cidadão. Ampliou seus horizontes, sua autoestima, sua cultura, sua sabedoria política, sua capacidade de interação social e de exercer sua cidadania.

Educação e aprendizado promovem um tipo de riqueza (para o sujeito e para a sociedade) que não precisa ser necessariamente utilitária ou para atender o mercado de trabalho. Aprender é um bem simbólico de valor inestimável, e o desejo de saber um dos mais fundamentais para a cultura humana.

Para o atual governo, e seu Ministro da Educação, o meu colega é um historiador que assaltou os cofres públicos para virar porteiro. No meu entendimento, o porteiro do meu prédio é formado em história. Isso o faz habilitado a abrir a porta pra mim, mas pra ele também. E hoje, ele ainda me fez abrir o Google e pesquisar Monet e Manet.

Também me fez escrever esse texto…

Quem não entende a importância disso, é um analfabeto em educação, em sociedade e em gente.

Rita Almeida

The post O conhecimento abre portas, não necessariamente para o Mercado, por Rita Almeida appeared first on GGN.

ver Blog do Luis Nassif
#mercado de trabalho
#formação
#artigos
#humanidades
#educação
#deus mercado
#mercado de ideias