Enfraquecimento democrático e a “demonização” da imprensa

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Enfraquecimento democrático e a “demonização” da imprensa

por Tânia Giusti*

O Dia do Jornalista, lembrado em 7 de abril, foi instituído em 1931, por decisão da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), para homenagear o médico e jornalista Giovanni Battista Líbero Badaró, morto a tiros por inimigos políticos em 1830. Ele foi um dos principais oposicionistas de Dom Pedro. O jornalista, natural da Itália, era proprietário do “Observador Constitucional”, veículo paulista que defendia ideias liberais e se opunha ao reinado de Pedro I. É seu um dos primeiros escritos publicados no Brasil em defesa da liberdade de imprensa, refutando sempre a tese de que os abusos praticados pela imprensa justificariam o cerceamento da liberdade . Com sua morte, aumentaram o descontentamento e as manifestações de protesto contra o absolutismo de Dom Pedro I, que abdicou do trono em 7 de abril de 1831.

No mês em que a história de coragem de Badaró é lembrada, e nós jornalistas somos comemorados, acabamos virando pauta e sendo alvo de ofensas. Ao ser questionada sobre o uso de diárias da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) para divulgar um projeto particular (um lançamento de um livro antifeminista), uma deputada catarinense do PSL disparou ofensas ao jornalista Altair Magagnin, comentarista político do grupo RIC que a entrevistava, e estendeu as ofensas para toda uma categoria. Altair, que representa tantos outros colegas Brasil afora, estava apenas cumprindo seu papel social: questionando, reportando, o que, em tempos de liberdade democrática, não deveriam ser recebidos com furor e raiva desmedidos.

Chamar jornalistas de “bunda mole”, canalhas ou sugerir que tenham problemas cognitivos, não assusta a classe, apenas evidenciam o despreparo da jovem deputada, que usando de ofensas verbais, tentou desestabilizar um profissional que apenas cumpria seu trabalho. Mostra também a estratégia antidemocrática e deplorável de alguns “pslistas” de deslegitimar os trabalhadores que fiscalizam os seus cargos, mandatos e ações. Os holofotes e até as propostas ilegais já propostas pela parlamentar desde que ingressou na Assembleia, mostram o seu modo de trabalho.

Ganhar holofotes criando polêmicas com declarações esdrúxulas talvez esteja incluído na cartilha dos que, desde a última eleição, afirmam integrar a “nova política”, porém, continuam usufruindo e repetindo os mesmos gestos imorais de um modus operandi bastante conhecido. O que preocupa é a naturalização da opinião pública que concorda e “compra” esse tipo de discurso, e com as aberrações ditas pelos políticos que integram este partido. Alguns integrantes do PSL precisam aprender a se comportar de maneira ética e legal, no que tange à imprensa, pois são servidores públicos e representantes do povo, e como tal, precisam responder questionamentos de maneira adequada e transparente. Qualquer tipo de ataque que fira o trabalho dos jornalistas traz sérios prejuízo à democracia. É lamentável que ocupantes de cargos públicos utilizem de suas posições de poder para tentar intimidar veículos e jornalistas.

As entidades representativas da categoria, entre elas a Associação Catarinense de Imprensa (ACI), a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina (SJSC) emitiram notas de repúdio contra a deputada. Apesar de esses posicionamentos serem importantes e válidos, é importante ressaltar que a atitude antiética e desrespeitosa da parlamentar, é uma fala comum entre muitos políticos do PSL, incluindo o presidente da república, que não perde uma oportunidade de deslegitimar o trabalho de jornalistas e de diversas emissoras/empresas de mídia. Um levantamento do Estadão, apontou que desde a posse, em janeiro deste ano, Jair Bolsonaro usou as redes 29 vezes para publicar mensagens que criticam, questionam ou ironizam a imprensa brasileira. O presidente, inclusive, já se valeu de informações falsas para atacar uma jornalista do Estado de São Paulo. Já o governador do Estado, Carlos Moisés da Silva, em entrevista coletiva sobre os 100 dias de seu Governo, e após a polêmica envolvendo a deputada catarinense, mencionou rapidamente e respeitosamente, que os jornalistas são fundamentais à democracia, postura diferenciada de seus dois colegas de sigla.

Em 2018, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 156 ataques a jornalistas, 85 deles digitais e 71 físicos, em contextos político, partidário e eleitoral. A tabela recebeu a última atualização em 08/01/ 2019, e ainda não incluiu os ataques registrados em Santa Catarina e em outros estados brasileiros. O número é maior do que nos anos anteriores e segue uma tendência mundial: globalmente, os ataques a repórteres estão aumentando, segundo organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) constatam já há algum tempo, informou a Abraji.

Cortina de fumaça

Ao mesmo tempo em que a parlamentar se envolve em mais uma polêmica, questionamos até que ponto os ataques não tiraram o foco do problema inicial: as diárias recebidas coincidindo com as datas de eventos para promover seu livro. Como pôde-se constatar nas últimas eleições, muitos eleitores parecem não se incomodar com o tratamento agressivo reportado à imprensa por parte de alguns políticos. Já o uso inadequado e em benefício próprio de diárias da ALESC poderia trazer prejuízo para a imagem dela junto ao seu eleitorado, mas, foi deixado em segundo plano em tempos onde as polêmicas e ataques tem destaque absoluto nas mídias sociais. -A cortina de fumaça é amplamente utilizada pelo presidente, e pode ter sido também aderida pela deputada. Cabe a reflexão se o tratamento hostil da parlamentar apenas reforça seus discursos ou se ela é também adepta da tática de comunicação do presidente-. O que não muda o fato e a postura deploráveis da historiadora antifeminista, como ela se autodenomina.

A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia. O ataque verbal à jornalistas, registrado este mês no Estado e os que ocorrem em diversas outras partes do país, integram o processo de enfraquecimento democrático do Brasil, vivenciado desde o golpe de 2016, com a constante perda de direitos e sob a ameaça de novos retrocessos, com aprovação de propostas/medidas que ferem principalmente os mais pobres. Garantir um jornalismo livre é também garantir a proteção de todas as minorias. O episódio envolvendo a agressão verbal da deputada, é apenas mais um incentivo para resistirmos firmes no propósito dessa profissão. Jornalismo é missão e chamado daqueles que estão dispostos a questionar e a melhorar a sociedade em que vivem, e a liberdade é essencial para que a nossa prática social continue sendo concretizada.

Referências:

CAMPOS, Lorraine Vilela. “07 de abril – Dia do Jornalista”; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/07-abril-dia-jornalista.htm>.

https://ndmais.com.br/blogs-e-colunas/altair-magagnin/ana-campagnolo-cobra-diarias-da-assembleia-em-dias-de-lancamento-de-livro-em-sc/

http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/80379/por+que+o+dia+do+jornalista+e+comemorado+em+7+de+abril

http://www.abraji.org.br/noticias/abraji-registra-156-casos-de-agressoes-a-jornalistas-em-contexto-politico-eleitoral-em-2018

https://ndmais.com.br/blogs-e-colunas/altair-magagnin/mp-do-trabalho-re””comenda-que-escolas-tomem-medidas-contra-assedio-apos-caso-ana-campagnolo/

https://ndmais.com.br/blogs-e-colunas/altair-magagnin/em-mencao-respeitosa-carlos-moises-diz-que-jornalistas-sao-fundamentais-a-democracia/

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,imprensa-e-alvo-de-bolsonaro-no-twitter-a-cada-3-dias,70002750823

*Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do ObjETHOS

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