Lula Livre e o Recife, por Urariano Mota

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Lula Livre

Por Urariano Mota

O militante e professor Francisco Ilo me honrou com boas perguntas sobre a Jornada Mundial Lula Livre. Na medida de minhas possibilidades e limitações, procurarei responder ao mestre Francisco Ilo a seguir.

  1. O que significa a Jornada Mundial Lula Livre Recife, na atual conjuntura do país?

Com essa jornada, o Recife se integra às cidades da civilização no mundo. E a conjuntura é clara: estamos num tempo e ambiente de retirada de direitos sociais por um governo de extrema-direita, de fim da aposentadoria para o povo mais pobre e espezinhado. E tudo no contexto de um ano da prisão violenta, sem provas, contra o maior líder popular do mundo hoje, que todos conhecem pelo simples nome de Lula.

Sem dúvida, o Lula Livre no Recife pode ser o renascimento do seu caráter de cidade libertária. Aquela que foi a noiva da revolução, cantada no lindo poema Guia Prático da Cidade do Recife, de Carlos Pena Filho:

“este é o teu retrato feito

com tintas do teu verão

e desmaiadas lembranças

do tempo em que também eras

noiva da revolução.”

  1. Como você se integrou a esse movimento mundial?

A partir de grupos do Face na Alemanha, que estão engajados na denúncia da arbitrária prisão de Lula. E por meio dos novos companheiros Erica Caminha, Martin Westendorf e Peter Steiniger, tive a sorte de ser convidado para ser mais um grão da ponte de infinitas pontes para a liberdade de Lula. Mas se você quer uma explicação mais geral para o aparente acaso, digo que foi uma de nossas Afinidades Eletivas, fenômeno da química que o mestre Francisco Ilotão bem conhece. Para esse acontecimento, houve uma atração natural entre pessoas como no romance de Goethe, mas sem o final trágico. Pois já é uma afinidade feliz a que reúne milhares e milhões de pessoas no mundo a favor de Lula.

  1. Qual a importância desse movimento para a unidade de esquerdas e movimentos populares, frente ao desmonte de políticas públicas e entreguismos de toda sorte?

Amigo, não sou a pessoa mais qualificada para responder a tão boa pergunta. Mas do alto de minha insuficiência, afirmo que a bandeira de Lula reúne partidos e militantes políticos de todas tendências democráticas. Une todas as religiões e até ausência de credo. Ateus, materialistas, católicos, evangélicos, espíritas, muçulmanos, budistas, jovens, velhos e crianças. E aqui chamo a atenção: em nosso movimento devem ser evitadas as ações sectárias, que vaiam políticos vindos para o nosso lado, que vaiam e impedem a sua divulgação por mídias que defenderam o golpe. Ora, se elas vêm, e se põem a nosso lado, tenhamos pelo menos uma amnésia voluntária. É Lula Livre, e vamosimbora.

  1. Você acredita que a justiça brasileira está agindo com imparcialidade no caso Lula?

É claro que não. Em nenhum lugar do mundo a justiça é imparcial. Tolstói escreveu no imortal romance Ressurreição:

“- Qual é o sentido da justiça?

– A manutenção dos interesses de uma classe. O tribunal tem o único propósito de conservar a sociedade na situação atual e para isso persegue e executa tanto aqueles que se encontram acima do nível comum e querem elevá-lo, os chamados criminosos políticos, como também aqueles que se encontram abaixo, os chamados tipos criminosos….”

Mas no caso brasileiro há um escândalo com franco e aberto cinismo. Em 2018, a prisão de Lula se fez sob a sentença de que ele se corrompera com o recebimento de um Tríplex, mesmo sem prova de que elefosse o dono. A sentença condenatória foi tão miserável de provas, que os parágrafos poderiam ser copiados de qualquer lugar do documento, e o resultado seria o mesmo. As desrazões se repetem ou apenas mudam os nomes dos delatores. Mas sempre a nota do samba é uma só: o delator declarou, declarou, declarou, ao infinito.

A Constituição Federal, que nasceu pela redemocratização do Brasil, hoje não mais se cumpre. Ela se interpreta, sempre em desfavor de quem a extrema-direita julgar digno de perseguição, a saber, sempre em desfavor da soberania popular.

  1. Para você, um escritor, conhecedor dos 21 anos que silenciaram o Brasil na ditadura, como a JUVENTUDE poderá participar deste novo cenário de lutas? Qual seria seu papel político e social?

Esse foi o pensamento que iluminou a narração do romance “A mais longa duração da juventude”. Não só para a resistência dos jovens que ficaram com os cabelos grisalhos:

“- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe – digo.

– Por quê, rapaz?

– Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

– Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

– Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

– Você se nega à sua idade?

– Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

– Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”.

Mas para os jovens que estão na resistência, que continuam o legado de gerações anteriores, o narrador descobre no romance:

“Estou livre na rua e as janelas todas se abrem no espaço. Então ouço vozes, muitas vozes, e tambores. O que é isso? O que é essa alucinação? Estou na calçada, o trânsito parou. É verdade, é real, uma passeata de professores e estudantes caminha na avenida. Eles gritam, estendem faixas e pedem assinaturas num abaixo-assinado. “Mais educação, salário digno para os mestres”. Com a mão trêmula, porque estou encantado, movido e comovido, assino. E volto os olhos para os manifestantes, que são muitos e ruidosos. Pareço ouvir ‘abaixo a ditadura’ em outras vozes, em novas bandeiras”.

Acho que respondi a sua pergunta.

  1. O que você diria a um/uma cidadão/cidadã para participar deste ato político e cultural de 7 de abril?

Lula é o preso que faz parte da memória do povo brasileiro. Nada será capaz de matá-lo. Eu vi Lula visitar o bairro periférico do Recife que chamam de Água Fria. E pude escrever:

Súbito, houve um estouro, não de fogos, nem de boiada. Houve um rumor que cresceu, que se tornou incontrolável, que mais lembrou um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. É Lula! É Lula! Todos gritavam. Os berros se fizeram ouvir mais alto, ensurdecedores. Mulheres, meninos, homens chamavam a atenção do Presidente, queriam chamá-lo, e ele não sabia para que lado do cercado de cavaletes se dirigia. Na hora uma ideia tenebrosa me ocorreu: se caísse um raio ali, todos morreriam felizes. Mas essa ideia não alcançou palavras. Lula veio para o nosso lado. Era ele. Todos queriam lhe tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos empurrões. À força. Por isso as mulheres gritavam, “Lula, meu lindo!”, por isso os homens apertavam-lhe a mão, com força e calor, por isso os meninos levantavam a cabeça, todos os meninos levantam a cabeça.

No artigo “Lula chora no Recife”, ao falar sobre o seu último discurso ao se despedir da presidência, anotei:

“Assim como naquele dia, também nessa última terça-feira. Se os repórteres não vissem a multidão à distância, teriam visto cadeirantes pedido passagem, senhoras velhinhas apoiadas nos netos, indivíduos cegos a tatear com suas bengalas, jovens, muitos jovens, negros, muitos negros, negros na pele e no peito, que ouviam sérios, com absoluta atenção o presidente que lhes dizia, apontando para um menino da favela que toca violino: “Ele, Daniel, só queria uma oportunidade”. Teriam visto as pessoas se retirando do encontro, depois que Lula acabou a sua fala, a ponto de o locutor lhes pedir que ficassem, porque teriam ainda um show de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Inútil, porque ainda assim as pessoas se retiravam, porque o ápice do drama, nessa noite, já havia sido atingido: o presidente lhes falara que do seu destino um homem não desiste. Que nada pode ou não deve estar definido antes em razão de renda, lugar, sexo ou raça.

No final, muitos homens feitos lacrimejavam de felicidade. Choravam e sorriam um sorriso bom e não conseguiam parar de sorrir”.

Para finalizar, lembro o incêndio em bairros do Recife na poesia de Manuel Bandeira:

“De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José”.

Mas nesse 7 de abril é geral: Incêndio no Recife! Lula Livre é um fogo que se alastra.

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