“Caetano estaciona carro”: após 8 anos, onde foi parar o jornalismo?

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Depois de mais de quarenta anos colocando telejornais no ar, do Jornal de Vanguarda ao Jornal Hoje, do Jornal do SBT ao Jornal Nacional, do Jornal da Globo ao Fantástico, há cinco anos dependurei as chuteiras. Deixei de fazer plantão diário nas redações, que começaram com o fumacê do Continental sem filtro e terminaram com o Bom Ar pra purificar o ambiente.

Hoje sou apenas telespectador. Aqui em casa, no meu escritório, tenho um aparelho de televisão que ligo de tempos em tempos, muito raramente. Rodeado de discos de vinil, CDs e um Spotify no computador, prefiro ouvir música que saber das tragédias. Mas, como disse, de tempos em tempos, eu pego o controle remoto e ligo a TV.

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Sinto que não teria mais lugar numa redação e explico o motivo. Sempre fui muito crítico, ao ponto de colocar no ar uma reportagem de oito minutos no Jornal do SBT, cuja chamada dizia o seguinte:

– Você vai ver a seguir: Perspectiva 1990, o ano que ainda não começou!

Na reportagem, repórteres apareciam em diversos pontos da cidade anunciando o que aconteceria naquele ano, cujo verão, hoje, virou novela na Globo.

Começamos mostrando um repórter no berçário apresentando o primeiro bebê do ano, depois fomos para a praia de Copacabana lamentar o trabalhão dos garis que teriam de limpar a praia depois da queima de fogos e do espocar de champanhes. Mostramos as pessoas que davam os primeiros cheques do ano ainda com a data do ano anterior e daí por diante.

Entramos fevereiro mostrando o repórter na beira da estrada informando que não sei quantos mil carros eram esperados passar por ali, por minuto, às vésperas do Carnaval. Outro, na rodoviária, mostrava que as passagens já estavam esgotadas para o interior de São Paulo, Rio e Sul de Minas.

Atravessamos o ano mostrando tudo que seguramente aconteceria durante os 365 dias que tínhamos pela frente, mês após mês, até chegar em dezembro, quando o repórter mostrou como se fabrica um panetone, as pessoas que deixaram as compras pra última hora e depois a correria do último dia do ano, sem esquecer das pessoas que iriam trabalhar na noite de Natal e no papel picado caindo das janelas dos prédios na Avenida Paulista.

O mundo mudou. Algumas dessas matérias desapareceram no ar, outras não, como a de toda sexta-feira 13, que sempre termina com um gato preto dando aquela miada.

Mas, quando ligo a televisão aqui no meu escritório, deparo-me com coisas tão óbvias que acabo, em poucos minutos, desligando o aparelho e colocando o novo Paul Simon no Spotify.

Os telejornais de hoje estão com a mania de exibir mensagens de WhatsApp enviadas por telespectadores. Sabemos que eles recebem milhões de mensagens e isso aumenta o Ibope, porque todos assistem esperando o seu nome aparecer na telinha.

Dia desses, a apresentadora do SPTV anunciou entusiasmada que um telespectador enviou uma mensagem dizendo que estava ventando na Cidade Tiradentes. Sim, ela se entusiasmou com a mensagem e ainda ancorou.

– Vem chuva aí na Cidade Tiradentes!

Mas não paramos por aí. Os telejornais agora começam às quatro da madrugada, só com notícias do dia anterior. Ontem vi. Até as cinco da manhã não havia uma noticia nova sequer. Aí, cinco em ponto, uma repórter entrou ao vivo pra dizer que o trânsito na cidade, até aquele momento, estava tranquilo.

Esse jornalismo me faz lembrar o lendário título que o site Terra publicou no dia 10 de março de 2011: “Caetano Veloso estaciona o carro no Leblon nesta quinta-feira”

No próximo dia 10, estaremos comemorando oito anos que Caetano estacionou o seu carro no Leblon naquela quinta-feira. Não duvido nada que teremos um título, logo cedo no site: “Há oito anos, Caetano estacionava o seu carro no Leblon”.

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