“A Venezuela sempre fracassou em lidar com o petróleo”

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A Venezuela precisa deixar a dependência do petróleo e criar um modelo econômico mais diversificado, avalia o cientista político alemão Stefan Peters, que dirige o Instituto teuto-colombiano Capaz, em Bogotá. Em entrevista à DW, ele afirma que o ex-presidente Hugo Chávez tentou fazer isso, mas suas reformas não eram sustentáveis e fracassaram.

Peters avalia que, durante o governo de Chávez, e graças aos altos rendimentos do petróleo, toda a sociedade venezuelana “pegou o elevador para cima”. Quando os preços do petróleo caíram, porém, as camadas pobres da sociedade foram as mais atingidas.

Peters acabou de lançar, na Alemanha, o livro Socialismo do século 21 na Venezuela – Ascensão e queda da revolução bolivariana de Hugo Chávez. Para ele, a chamada revolução bolivariana fracassou.

“Não existe uma base econômica, a Venezuela nunca foi tão dependente do petróleo na sua história. A situação social é dramática. Os sucessos desejados, que chegaram a existir, não eram sustentáveis. E também os objetivos políticos não foram alcançados: combater a corrupção, atacar o clientelismo e introduzir uma democracia direta. Nada disso foi alcançado.”

DW: No seu novo livro, o senhor cita um dos fundadores da Opep, Juan Pablo Pérez Alfonso, com as palavras “estamos nos afogando nos excrementos do diabo”, em referência ao petróleo. Ele tem razão? A culpa de todo o desastre na Venezuela é do petróleo?

Stefan Peters: O petróleo em si provavelmente não tem culpa. Há indivíduos e sociedades que lidam da maneira apropriada com a riqueza do petróleo. Não se trata do petróleo em si, mas de o que se faz com os rendimentos. Não se deveria falar tanto de maldição ou benção, como ocorre com frequência, mas se perguntar quais grupos sociais contam entre os vencedores e quais entre os perdedores dos rendimentos do petróleo.

Mas falando em vencedores e perdedores: O que está errado em as camadas sociais mais pobres lucrarem com o petróleo?

Nada, isso é até mesmo necessário, sobretudo em países como a Venezuela, mas também na região subsaariana. Nesses países há grandes problemas sociais, e estes precisam ser corrigidos. A questão é outra: “A população pobre foi de fato a que mais ganhou na Venezuela?”. E outra: “Como fazer com que uma economia reduza sua dependência de uma única ou de algumas poucas matérias-primas?”

E em resposta à primeira pergunta o senhor diria: “Não, não foram as camadas mais pobres, mas uma pequena elite quem mais lucrou?”

Eu não iria tão longe. Mais ou menos a partir de 2003, quando os preços do petróleo subiram e, com isso, o governo de Hugo Chávez na Venezuela tinha mais recursos, a população pobre saiu ganhando, sem dúvida. Por exemplo por meio de programas sociais ou outras subvenções. Mas também a classe média e grande parte da relativamente pequena elite saiu ganhando. Eu chamo isso de “efeito elevador” – a sociedade inteira sobe, mas nada muda na constelação social, no todo. Só que elevadores não andam só para cima – eles também descem. E aí, numa situação de crise como a atual, na Venezuela, quem mais sofre é a população pobre, que não tem a opção de descer do elevador.

E o elevador desceu por que o preço do petróleo cai de uma hora para a outra?

Exato. Outros países também tiveram de passar por isso e acabaram em situações de crise porque o preço do petróleo caiu. Mas, na Venezuela, também a produção caiu claramente. E num país onde não há nenhum outro pilar, isso é um problema enorme – se os preços do petróleo caem, a quantidade produzida também recua, e aí as exportações também são menores e não há de fato alternativas para a exportação. A tudo isso soma-se a corrupção: muitos rendimentos desaparecem por caminhos obscuros.

Com Chávez, a Venezuela “subiu no elevador” (Foto: Yuri Cortez/AFP)

Se fosse possível voltar no tempo e o senhor fosse um assessor de Hugo Chávez, o que o senhor teria lhe aconselhado?

Trata-se sempre de diversificar a economia. Chávez, na verdade, implementou reformas, como o incentivo a pequenas empresas, o fortalecimento da agricultura ou também a introdução de uma reforma agrária. Mas isso não deu frutos porque não havia estímulo suficiente para elevar a produtividade. E a produtividade é, claro, um ponto decisivo. Dava para esperar de um governo que se define como socialista que houvesse uma política fiscal progressiva [os mais ricos pagam mais]. Mas isso foi desperdiçado, assim como a chance de criar e fortalecer outros pilares. Não se precisava deles, pois havia dinheiro de sobra do petróleo.

As políticas de Hugo Chávez não eram sustentáveis?

Não, elas não eram. Entretanto esse debate existe desde 1936, quando se dizia “semear o petróleo para colher o desenvolvimento”. E o país sempre fracassou nisso.

Portanto não parece ser por causa de Chávez ou Nicolás Maduro que isso não funcione – os antecessores deles também não conseguiram.

E se olharmos para outros países, como a Arábia Saudita ou outros países árabes do Golfo Pérsico, sempre houve tentativas de se livrar da orientação unilateral ao petróleo. E também lá sempre deu errado. Assim eu arrisco dizer que sempre vai dar errado. E fica a pergunta: por que é assim? Eu acho que deve ser porque nos negócios com petróleo há tanto dinheiro que reformas dolorosas ou tentativas de deixar o petróleo no fim nem mesmo são necessárias.

No seu livro, o senhor conclui que a revolução bolivariana fracassou.

Ela fracassou economicamente. Não existe uma base econômica, a Venezuela nunca foi tão dependente do petróleo na sua história. A situação social é dramática. Os sucessos desejados, que chegaram a existir, não eram sustentáveis. E também os objetivos políticos não foram alcançados: combater a corrupção, atacar o clientelismo e introduzir uma democracia direta. Nada disso foi alcançado. Além disso, há fortes tendências autoritárias dentro do governo. Também o chamado socialismo ecológico, propagandeado com palavras floreadas, fracassou. Um território do tamanho de Cuba, onde estão depositados diversos minerais valiosos, está sendo explorado sob condição ambientais e sociais extremamente dúbias. E provavelmente nenhum governo neoliberal teria coragem de dar as condições de investimento oferecidas para empresas estrangeiras.

O senhor acredita que um país com as reservas de petróleo da Venezuela algum dia voltará a ser rico? E quanto tempo isso levaria?

De volta à metáfora do elevador: um dia ele volta a subir. Essa evolução cíclica, composta por fases fortes de expansão e crises profundas, é, na verdade, típica desses países com petróleo. A crise atual é de fato a mais forte na história do país, e não é possível dizer quando o país voltará a ficar de pé. E eu também não acredito que uma troca de governo leve a uma rápida melhora. No fim das contas, Juan Guaidó e a oposição também querem dar prosseguimento a esse modelo suscetível a crises. É verdade que com uma abertura bem maior para as empresas privadas do setor petrolífero, mas sem quebrar a lógica de se concentrar sobretudo em matérias-primas e em especial no petróleo.

Em vez disso, o que a Venezuela deveria fazer?

É necessário um debate sério sobre como projetar um modelo de desenvolvimento que não se baseie apenas em petróleo ou em outras matérias-primas, mas que seja bem mais diversificado. É claro que isso não acontece de um dia para o outro. Mas é necessário um debate a fundo sobre como sair dessa dependência. Tanto na Venezuela com também em outros países com grandes reservas de petróleo.

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