Soledad Barrett em São Paulo e no Rio, por Urariano Mota

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Soledad Barrett em São Paulo e no Rio

por Urariano Mota

A escritora e jornalista Luzia Amélia Jakomeit postou no Face sobre o espetáculo Soledad em São Paulo e no Rio:

“NOSSA HISTÓRIA NO TEATRO

Soledad Barret é musa e mito na minha vida. Não a conheci, mas tenho por ela um carinho de irmã, de companheira. A culpa é do escritor pernambucano que, nos seus livros ‘Soledad no Recife’ e ‘A Mais Longa Duração da Juventude’ me transmitiu sua paixão por Soledad, aquela quase menina que um dia se apaixonou pelo infame Cabo Anselmo, diabólico agente da ditadura militar do Brasil que, com inveja da pujança de Soledad, a pessoa que ele jamais seria, a entregou ao facínora delegado Fleury. E ela morreu durante o ‘Massacre da Chácara São Bento’, no Recife.

E aqui está ela, mais uma vez imortalizada. Dessa vez, no teatro.
VIVA SOLEDAD BARRET, uma revolucionária latino-americana”.

Diante das palavras de Luzia Amélia, a nossa Memélia, não posso agora escrever sobre outro assunto. Então eu retomo a partir da sua deixa.

Quando escrevi “Soledad no Recife”, eu nem imaginava a repercussão que o livro teria. O meu desejo era resolver um trauma da nossa juventude no Recife. Aquelas manchetes dos jornais em 1973, em todos os jornais brasileiros, “Segurança Acaba com Terror no Grande Recife” e “Seis Terroristas Mortos em Paulista”, causaram o mais fundo mal-estar em todos os socialistas da nossa geração. Mas passamos calados sem externar de público toda a nossa indignação, raiva, horror diante desse massacre. Ora não falávamos pela ausência da liberdade mínima no Brasil, ora silenciávamos pela ameaça da repressão dos semelhantes ao cabo Anselmo. Com o passar do tempo, foi a literatura que nos salvou. Então só a literatura poderia falar o que estava silenciado em documentos de arquivos. Até então aqueles crimes do Recife em 1973 eram apenas mais 6 crimes num conjunto de vítimas do terror do Estado brasileiro.

Então foi a literatura com o seu dom de individualizar o que era geral, de dar um rosto, um destino e uma vida ao que era estatística macabra, foi a literatura que retomou Soledad Barrett para o conhecimento das pessoas, de muitos que sequer eram nascidos em 1973. Nas palavras do crítico Alcir Pécora: “Apenas como literatura o livro pôde avançar na interpretação do episódio histórico. Foi preciso Urariano inventar para saber o que é real, pois os documentos são abundância morta, quando não são animados pela imaginação que os interroga”.

No livro, desejei ser verdadeiro, e ser verdadeiro para um escritor que viveu sob a ditadura é falar da sua memória, dos companheiros e da própria vida. Então escrevi o livro.

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranqüilo, perturbado a sua visão me deixou…

Mas se esse breve contato nos fortalecesse ainda mais para o mergulho sem volta em nossos direitos de paixão? Ora, como seria lícito e razoável esperar-se que jovens sentissem o gosto doce e abrasante do amor, o chamado gosto alienante do amor, gozarem todas suas possibilidades na cama e entorno, para que se dissessem ao fim, ‘foi bom, fiquemos por aqui’? Será lícito e razoável esperar-se tão grande, maduro e grego estoicismo? E como entramos no reino das hipóteses, da livre imaginação, aquela mesma estranha ao mundo de qualquer lógica, eu assumiria este brilhante estatuto: ‘eu te amo, Soledad, nós nos amamos, brava e bela, és o meu guia e luz’, para depois concluir: foi bom, muito bom, separemo-nos, adeus, porque a ternura será o rescaldo da paixão?”

E assim foi até aquele momento culminante da tragédia, impossível de escapar, do seu cadáver na descrição da fundamental advogada Mércia Albuquerque:

“O que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta e ficou deitada, e a trouxeram depois, e o sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. O feto estava lá nos pés dela. Não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror”.

E pude escrever:

“As santas virgens do Paraguai carregam o filho nos braços e a seus pés têm anjos, às vezes também luas em quartos minguantes. Sangue e feto aos pés só a guerreira Soledad Barrett Viedma”.

No entanto, mais de um leitor me falou que o livro acabava deixando uma frustração. Nada a ver, é claro, com qualquer luta entre o bem e o mal , com a vitória do bem no fim, não é isso. O leitor de Soledad é maduro, sensível e calejado. A restrição era de outra natureza: devia haver um aprofundamento daquela pessoa, da sua vida, da sua luta, que passava pelos corações de todos os militantes que estiveram naquele inferno da ditadura. E respondi: uma obra, como a vida, tem um tempo de duração, por isso aquele era o breve do livro. No entanto, a resposta se dirigia para o específico de Soledad no Recife, não para o mundo que a ela se vinculava.

Então veio “A mais longa duração da juventude”, um livro que eu não esperava escrever, nem queria, mas que a ele fui levado pela morte de um amigo e militante comunista, o escritor Marco Albertim. No seu enterro, ao lado do velório, eu me falava, enquanto lembrava a canção na voz de Ella Fitzgerald “I Wonder why”, eu me falava de mim para mim calado e sem resposta: isso não pode acabar assim. Isso é uma retirada abrupta, por um Deus ex-machina, das nossas ambições de mudança deste mundo. A solução não é mudar de mundo. É mudar o mundo nele mesmo.

E vim matutando depois, ruminando, me, myself and I. Então, no processo da escrita do recente romance, Soledad Barrett voltou como pessoa, mulher e militante da nossa geração no Recife:

“Ela é a mulher pretendida por mim e outros militantes naqueles anos. Há um sentimento de delicadeza que nos invade. Eu a vejo no quintal da casa de Marx, em Jaboatão. Cheia de uma beleza que não desejava chamar atenção, me ocorreu. Então ninguém podia imaginar que a visão das suas pernas, que ela nos furtava com túnicas, calças jeans, saias longas, cobriam o trauma de cruzes nazistas em cicatriz, gravadas à força em suas coxas no Uruguai. No entanto, a aparência de pudor era superficial, porque o furto e a negação para os olhos não detinham toda a Soledad, feminina plena do rosto aos seios e pessoa. Há sempre um tom da verdade que busca o núcleo sensível da imagem.

Na reconstrução da vida, difícil é dizer o que vem primeiro. Soledad está no quintal da casa de Marx em Jaboatão. Da cozinha ela havia ido até o quintal, e conversa com as companheiras de Marx e Lênin. Sentadas, fazem sapatinhos de tricô para o bebê que ela espera. Dizem das mulheres grávidas que ficam mais belas. Mas junto ao viço natural das cores, nas mulheres que engravidam sem esperança há uma sombra, um olhar que não se detém adiante, que baixa até o chão. Assim foi com Maria, em um subúrbio do Recife, em 1958. Assim é com Soledad, em dezembro de 1972. Ali em Jaboatão, a finura e delicadeza de Soledad eram tidas pelas mulheres do povo como gestos de ‘moça muito educada’. O que vale dizer, nela existia uma voz que não se elevava, uma atenção absoluta ao que elas lhe diziam, um sorriso à confidência feminina onde se fala solidariedade sem que se pronuncie esse nome. Na beleza daquela estrangeira não viam ameaça, porque Soledad não se insinuava ou se exibia, antes procurava retirar do contato com os homens a coquete da conquista amorosa. Nada de sorrisos descabidos, para se mostrar simpática, o que o vulgo masculino sempre interpreta como um convite. Nada de frases ambíguas, ou de estímulos à corte, ou de se pôr como sexo frágil, para receber tratamento especial…

Depois, houve as manchetes de janeiro de 1973, o retrato de Soledad, a foto esmaecida, enevoada de propósito no laboratório fotográfico da repressão política. Quiseram ofuscar a beleza da guerrilheira para enquadrá-la na face de terrível subversiva. A legenda da foto apagada dizia: “Atuava no Nordeste como agente de ligação de grupos terroristas sul-americanos. Tinha ligação com terroristas brasileiros no Chile”. Vê-la na difamação, ao lado de Vargas, foi um duplo choque. Cambaleei tonto na Ponte da Boa Vista e foi incontrolável o vômito nas águas do Capibaribe. Havia uma ligação terrorista, mas o terror era a confirmação de um trauma, a morte da mulher grávida. Aquele terror antigo, a infâmia da infância, quando a mulher morria por falta de cuidados, em 1973 sofria uma atualização: o assassinato pela repressão política da ditadura. Para mim, houve uma ligação além dos homicídios em cima dos seis militantes socialistas: Maria, Nelinha e Soledad estavam de mãos dadas em diferentes tempos, porque haviam de ser mães. Nelinha sobreviveu, mas disso ainda eu não tinha o conhecimento. As execuções de Maria e Soledad eram claras e unidas. Disso eu sabia na bílis que vomitei até um raio de sangue. Eu não sou um poeta romântico, mas se eu tivesse a sorte de ser um, eu teria composto versos para o céu azul daquela quinta-feira de 1973: ‘Pai, por que feres o objeto do meu amor terno? Eu sei, queres endurecer o meu coração, deixando em mim um homem tão pequeno quanto a tua crueldade. Eu me vingarei, Pai, de outra maneira’. E viraria as costas para o céu, porque a consciência ainda não falava”.

Agora no palco muita gente pôde ver Soledad em São Paulo e neste fim de semana será vista no Rio de Janeiro. Muito distante daquele 1973 no Recife, e dez anos depois do primeiro livro sobre os seus dias. Não importa quanto tempo passou. Numa paráfrase de Camões, concluo: mais serviria a Soledad, se para tão grande amor não fosse tão curta a vida.

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=9809&id_coluna=93

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