País desvaloriza a experiência

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Todos os dias, ao acordar, o aposentado João Cláudio Pinto Viana, 70, pede a Deus, em oração, que lhe conceda um emprego. Mas, para não deixar a graça apenas a cargo da força divina, o idoso improvisou nesta semana um currículo gigante em um cartaz escrito à mão, que ele carrega no peito pelas ruas de BH e região metropolitana.

Há cinco anos em busca de recolocação no mercado, Viana revela que tem esbarrado no preconceito das empresas por causa da idade. “Acho que essa é a primeira coisa que olham no meu currículo”, reclama. O caso dele não é isolado. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 7,9% das pessoas com mais de 60 anos estavam ocupadas no Brasil no terceiro trimestre de 2018.

Quem atua no recrutamento e seleção de profissionais confirma que o preconceito é um obstáculo para esse público. “Mesmo com a norma do Ministério do Trabalho que proíbe que empresas limitem a idade na hora de divulgar uma vaga, muitos idosos passam na primeira etapa, mas não avançam”, disse a coordenadora do Sistema Nacional de Emprego (Sine) de BH, Rebeca Pontello.

De segunda até a tarde de ontem, os postos do Sine na capital receberam 22 currículos de pessoas com mais de 60 anos. O mais velho entre eles tem 74 anos.

A diretora da Crie Soluções Recursos Humanos, Vanessa Leão, contou que a empresa está no mercado há mais de dez anos e que, até hoje, nunca recebeu oferta de vaga para pessoas acima dos 60 anos. Se o idoso tem experiência em cargos estratégicos, como diretor e executivo, é mais fácil se recolocar no mercado, segundo ela. Mas em funções operacionais, que exigem esforço físico, “é extremamente difícil”, admite Vanessa.

Embora saiba que não será fácil, João Cláudio Pinto Viana não pensa em desistir. Com mais de 20 anos de experiência como vendedor, ele diz que topa qualquer atividade e lança um desafio: “Convido qualquer patrão a me dar uma tarefa e em dois dias eu vou estar desenvolvendo-a com desenvoltura”, garante

Especialização

Falta de habilidade em atividades que envolvem tecnologia é apontada como um empecilho na hora de empregar um idoso. “Hoje tudo envolve sistemas e, muitas vezes, as pessoas nessa faixa etária não têm tanta afinidade nessa área quanto os mais novos”, pontua a diretora Vanessa Leão, da Crie Soluções.

A maioria dos idosos que procuram uma vaga de emprego não tem muito estudo, segundo a coordenadora do Sine, Rebeca Pontello. Nesse caso, uma das dicas para melhorar o currículo é voltar para a sala de aula. Segundo especialistas, nunca é tarde para concluir os estudos e buscar atualização em sua área.

Proibido por lei
Lei Federal 9.029 proíbe qualquer prática discriminatória que limite o acesso ao trabalho em função da idade do candidato. Por essa razão, ao cadastrar uma vaga, o empregador não pode definir uma faixa etária para o posto.

Programa para ajudar
Em BH, o programa Rede Sênior, da ONG Rede Cidadã, atua para facilitar o acesso de idosos ao mercado e apresenta a empresas os benefícios da contratação de pessoas acima dos 60 anos. Informações: (31) 3290-8000.

Curso de capacitação
Estão abertas as inscrições para a nova turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA), que deve começar a ter aulas a partir de fevereiro no estádio Mineirão. Informações: (31) 3499-4304.

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