Guia Noisey para curtir um stage dive de forma consciente

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Na última quinta (29), o Thee Oh Sees fez um show explosivo na Audio Club em São Paulo. Pra quem não sabe, os californianos são o mais puro suco do rock de garagem: dinâmicos, distorcidos, dançantes, elétricos, pulsantes, densos, e mais uma pá de adjetivos que você possa encontrar pra descrever o que é o rock na sua forma sonora mais essencial. A formação é composta por nada menos que duas baterias sincronizadas como um balé, um rápido contrabaixo na marcação e um guitarrista maluco que distorce até o microfone. O espetáculo de euforia enérgica tocou tão fundo o coração da juventude presente que, a partir da segunda música, começou um pinga-pinga de gente subindo no palco pra fazer stage dive, e isso logo virou uma tempestade de chorume de rockeiros desacostumados (ou deslumbrados) com o mosh.

E é sobre isso mesmo que eu pretendo falar. Esse lance de altos stage dive deu pano pra manga, principalmente pra quem viu de fora do palco. No começo, os seguranças tentaram coagir sem violência, mas não dá pra parar o rock com cordialidade. Subiu um, pulou. Subiu outro, o segurança tirou. Subia um terceiro, driblou o segurança numa coreografia magistral e pulou. Até aí tava lindo, mas foi só os seguranças largarem mão que virou bagunça. A galera subia no palco só por subir, como numa colação de grau. O que era pra ser um orgulho rockeiro virou uma vergonha, tipo um encontro do Tico Santa Cruz com o Dinho Ouro Preto. Num último momento, a banda já estava ofuscada por uma pá de zé doidins que se achavam no direito de roubar a cena, tirando a camisa, chamando palmas e RODANDO MICROFONE. Aí não dá né?

Mas antes de cagar meia dúzia de regras, deixa eu situar o leitor de alguns pontos: 1. eu não sou um velho chato que vai em show pra reparar em pedaleira e reclamar do volume da saída dos auto-falantes, pelo contrário! Sou apenas um rapaz latinoamericano sem dinheiro no bolso que ama o rock, a noite e acha que tem que quebrar tudo sim; 2. Na escola do hardcore que eu frequentei, todo mundo aprendeu que não tem nada mais gostoso do que se libertar das amarras do statuo quo se jogando do alto do palco e caindo no chão ou nos braços suados de desconhecidos (à exceção das minas); 3. lá do meio da pista, de onde vi boa parte do show, rolou rodinha de bate-cabeça, violência entre amigos e cerveja pra cima, tudo numa nice, sem preocupações, ninguém reclamou, todo mundo louvou o rock.

A cagação de regra é em relação à conduta dos stage dives, especificamente. Se você estava lá e fez isso, saiba que não é uma crítica pessoal — não me persiga, não queira me bater se me encontrar, porque se você fizer isso, vai estar dando pala de que não entendeu nada sobre o rock. Eu quero seu bem, quero que você se deixe levar pela magia dos captadores elétricos e amplificadores distorcidos, e que sua experiência possa ser a melhor possível, contribuindo ainda para o bem estar de todos. Dito isso, STAGE DIVE É UMA DELÍCIA, mas tem que tomar cuidado. Segue então uma pequena lista de procederes para se divertir sem ser um otário:

Subiu? Pula.

Ninguém está lá pra te ver. Todo mundo está lá pra ver a banda. Não é a toa que o palco geralmente fica um nível acima da plateia. Não fique embaçando que nem um biombo lá em cima.

Você não é a banda, você é ninguém

Uma vez lá em cima, você é nada mais que um alvo fácil. Lembre-se da primeira regra: ninguém está lá pra te ver. Latinhas poderão voar na sua direção caso você comece a ser um mala — ou tenha cara de bocó, por que o mundo é cruel sim.

Não interaja com a banda

Não tente falar com os caras, não faça gestos, não tente se comunicar — eles não vão entender. Eles estão compenetrados na música que ensaiaram um tempão pra apresentar e, no máximo, vão ficar preocupados com você, um bêbado suado e sem camisa, pisando nas coisas e tomando o microfone. Quer dar um show? Vai no karaokê. Quer demonstrar seu amor pela banda? Compre o merch.

NÃO TIRE SELFIES NO PALCO!!!

Mano, nem preciso falar, mas vou falar sim. Você já teve a ousadia de quebrar a barreira da quarta parede subindo no palco, subvertendo a lógica do entretenimento moderno, daí você comemora fazendo uma selfie??? Você deveria ser multado no fim do show por guardinhas do rock devidamente sinalizados com carteirinhas de rockeiros profissionais. Eles te dariam um pescotapa e rasgariam sua camiseta do Connan Mockassim.

Stage dives autoconscientes são equívocos

Esse é um lance mais existencialista, mas pense: você subiu no palco e teve uma crise de realidade. Se percebeu ali, ao lado da sua banda favorita fazendo uma sonzera de respeito, os caras são bonitos, tocam bem, são gringos, as drogas deles são mais legais que as suas. "O que eu tô fazendo aqui?", você se pergunta. Nesse momento, a música acaba e você não fez nada. Você sai de cena, tenta se esconder, mas não tem espaço pra você no palco, porque você não faz parte do show. Você pensa em pedir pra alguém te conduzir até a saída, mas esse pensamento se conflita com a ruptura de paradigmas que foi escalar sozinho aquele cume do sucesso, então você hesita. Agora você está ali, sozinho, perdido e assustado, como naqueles sonhos em que você se encontra de cueca na escola, e a música nunca começa. E agora, José? A única resposta é: stage dive consciente é um erro, e quem subiu tem que pular.

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