"A educação popular é fundamental para resgatar as conquistas do povo negro"

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“Em momentos de crise, há espaços pra reorganização. E essa reorganização vai ser feminista, negra e popular.” Foi assim que, em meio à interferência de sinal da ligação, minha conversa com Talíria Petrone começou. Ela estava no Rio de Janeiro a caminho de um compromisso, e eu, em São Paulo.

No começo da ligação, me adiantou que sua agenda ficou muito mais agitada agora que foi eleita deputada federal pelo PSOL e que a própria vê essa vitória como resposta ao momento político em que o Brasil vive.

Antes de ser a vereadora eleita com mais votos no Rio nas eleições de 2016, Talíria era jogadora de vôlei em Portugal. Ela cresceu em Niterói com dois irmãos, uma mãe professora e um pai artista. Com 17 anos jogava de ponteira em um clube de vôlei no país europeu, mas, logo depois, passou na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em História e se viu como educadora.

Talíria deu aulas no cursinho de pré vestibular da Maré por muitos anos. Grande defensora da educação popular (que estimula o debate crítico e o desenvolvimento histórico da comunidade na qual o aluno está inserido), hoje leva a pauta como uma das questões primárias para o debate político.

Nessa semana da consciência negra e de discussões obscurantistas sobre o futuro da educação no Brasil, batemos um papo com a deputada negra, feminista e apoiadora das questões LGBTQ+ sobre como podemos nos preparar para o futuro que se põe no horizonte.

VICE: Em que momento você se descobriu numa posição de privilégios menor que os demais e o quanto isso influenciou em quem você é hoje?

Talíria Petrone: Nós pessoas negras não necessariamente entendemos que as violências que a gente sofre são racismo porque não somos estimulados a pensar sobre a identidade negra. Eu estudei em uma escola particular como bolsista, mas não me sentia parte dali. Eu era a morena, a bombom da tia do 3º período, e não me via nos livros e conteúdos nas escolas.

Só tive uma consciência objetiva quando me organizei com outras mulheres negras e pude compartilhar. Antes eu achava que era baixa autoestima e um problema individual.

Você começou sua vida profissional lecionando nos cursinhos de pré-vestibular da Maré e atua muito a favor da educação popular. Como você vê a educação popular dentro do espectro político-racial?

A educação popular é instrumento fundamental de romper com o sistema porque há uma tentativa sistemática de se negar memória. A memória do negro no Brasil começa com a escravidão. A gente tem pouquíssimos livros didáticos com as conquistas da luta do povo negro e quilombola. E mulheres negras nem se fala.

A educação popular precisa vir no rompimento disso. Tanto em termos pedagógicos, trazendo referências históricas, como também na sua relação com o povo, em estar em territórios de favela.

É nesse território que essa negação de memória se torna mais evidente. Quando fecha uma escola porque teve operação policial em horário escolar, como não tratar desse aluno sem se meter em escravidão ou o sequestro do povo? Como não falar dessa mãe que perdeu seu filho e segue resistindo como empregada doméstica sem lembrar de Dandara? Essa é a função da educação popular, que tem a ver com minha vida e como me tornei outra pessoa depois que conheci.

Como você enxerga a sua responsabilidade dentro do Congresso Nacional para levantar as questões raciais?

A responsabilidade é enorme. Mesmo entendendo que o parlamento é instrumento pra tanta resistência e luta tocada fora dele, acho que será um importante fronte pra a defesa da democracia e pra que a gente, sistematicamente, não perca direitos neste próximo período.

As pautas que envolvem a questão racial estão no centro disso. Num Brasil que já mata 153 pessoas por dia e que a cada 10,7 são negras, quem será morto com mais armas circulando? Com a autorização para matar, se o Estado já mata mesmo "sem ser" autorizado, são corpos negros que ficarão pelo caminho.

Quem vai ser encarcerado com a redução da maioridade penal proposta por essa bancada e aliados? O Brasil já é o 3º que mais encarcera no mundo, sendo que mais de 40% foram presos sem nem ser julgados, a maioria negra e está lá por crimes leves, como furtos. Menos de 10% cometem homicídios ou estupros.

Estar no Congresso e não recuar nenhum milímetro no enfrentamento ao racismo é mais que fundamental nesse momento.

Nos EUA, observamos a entrada de negros, mulheres, LGBTs, e muçulmanos na política. Você acredita que esse levante progressista tem sido uma resposta e algo em crescimento?

Acho que sim. Aqui mesmo no Brasil boa parte do crescimento da extrema-direita se deu pelo enxugamento de partidos fisiológicos. Cresce o número de mulheres progressistas, cresce a demanda de mulheres negras nestes espaços. Quando a máscara do fascismo - legitimado pelo voto popular, mas que vai se mostrar contra o povo - cair, temos que estar ao lado desse povo e construindo com ele.

Esse povo de maioria mulher, e mulher negra, está na favela, que é onde a gente tem que estar. Política é preço do pão, do ônibus, se tem creche ou não... E dessa política o povo - que é mulher e é negro - entende há muito tempo.

Estar nos territórios é a forma de reencantar essas pessoas pra política, a partir da escuta sobre as tantas dores que elas vivem. Isso sem dúvida, a partir desse movimento que muitas de nós fazemos, da política da proximidade, escuta e afeto, vai crescer e fazer crescer nosso campo com nossa cara e voz.

Como é a política do futuro pra você?

Ela tem a cara do povo, da diversidade brasileira e latino-americana e está completamente conectada com a vida concreta. Isso é política. Não cabe no futuro a política que não representa a maioria de nós, muito menos a política que quer nos exterminar, eliminar. A história dá suas reviravoltas. Em momentos de crise, há espaços pra reorganização. E essa reorganização vai ser feminista, negra e popular.

Qual o seu sonho?

Que todo mundo seja livre, possa exercer suas potências plenamente e isso passa, antes de tudo, com nenhum corpo ficando pelo caminho. E corpos negros não podem seguir sendo descartáveis e matáveis. Meu sonho é um sonho de uma liberdade que vença o medo. E onde caiba todo mundo.

Nessa semana de consciência negra, qual a reflexão que você gostaria de levar pro Brasil, os espaços de poder e a esquerda?

Não existe transformação societária sem que a gente entenda que é fundamental enfrentar o racismo que estrutura nosso país. A pobreza tem cor e a miscigenação é produto de estupro de mulheres escravizadas, mas a resistência também tem cor e é negra. Ela vem de Dandaras, Luizas, Lélias, Marielles e de tantas negras silenciadas, invisibilizadas e mortas. Por isso a gente ocupa o poder pra denunciar o racismo, mas pra também anunciar nossa resistência, que se faz ocupando o poder pra subverter o poder e devolvê-lo pra maioria do povo.

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