A alegria triste de Antônio Carlos. Subiu o Juventude para a Série B. Está nas quartas da Copa do Brasil. Mas os grandes clubes não se esquecem das acusações de racismo. E mantêm as portas fechadas para o treinador...

A alegria triste de Antônio Carlos. Subiu o Juventude para a Série B. Está nas quartas da Copa do Brasil. Mas os grandes clubes não se esquecem das acusações de racismo. E mantêm as portas fechadas para o treinador...

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"Antônio Carlos. Zagueiro diferente, talentoso. Jogava de cabeça erguida, técnico até demais para ficar preso na defesa. De personalidade forte, sua carreira foi vitoriosa. Mas teve problemas que ninguém esquece.

O primeiro deles foi quando aceitou a sua saída do São Paulo.

Foi comprado pelo minúsculo Albacete, da Espanha. Não houve quem não estranhasse a transação. Na verdade, foi uma tosca ponte bolada pelos homens do futebol da Parmalat. E ele foi jogar no Palmeiras.

A torcida e a diretoria do São Paulo não aceitaram Antônio Carlos ter se submetido a essa negociação por baixo dos panos. Depois, quando jogava no Juventude, veio o triste caso com Jeovânio, do Grêmio. Depois de uma dividida os dois se desentenderam. E na saída do gramado, Antônio Carlos passou a mão direita sobre o seu braço esquerdo branco.

O gesto foi interpretado como se estivesse mostrando a pele negra de Jeovânio.

E enfrentou a acusação de racismo.

Perto de encerrar a carreira, estava no Santos. Mas já exercia a função de dirigente corintiano, contratando Mano Menezes. O ex-presidente santista Marcelo Teixeira se sentiu traído pelo comportamento do seu jogador. Quando assumiu o cargo de diretor técnico no Corinthians, um dos seus principais atos foi negar a contratação de Ronaldo.

Em Presidente Prudente, cidade que escolheu para viver, fez um churrasco para toda a delegação na sua mansão. Neste churrasco, vários jogadores beberam, animaram-se e resolveram ir para o famoso Pops Drinks. Inclusive Ronaldo. Alguns, bêbados, tentaram levar mulheres para a concentração corintiana.

O escândalo foi revelado.

E Antônio Carlos acabou demitido.

Resolveu ser treinador. Fazia um bom trabalho no São Caetano quando teve um convite de Roberto Dinamite para trabalhar no Vasco. Ele iria substituir Dorival Júnior. Aceitou e foi viajar com a família para a Itália. Mas quando voltou soube que o convite não valia mais. O Vasco da Gama foi o primeiro clube brasileiro a aceitar negros jogando futebol no seu time. A torcida vetou Antônio Carlos, taxando-o como racista (pelas redes sociais e nas arquibandadas). Não o perdoou pelo episódio com Jeovânio."

O texto acima foi publicado no blog no dia 18 de maio de 2010.

Depois de fulminante passagem pelo Palmeiras como treinador foi para o Barueri. Mogi Mirim, Vila Nova, Audax. Foi para a Roma e Shakhtar Donetsk como auxiliar técnico.

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No ano passado, voltou ao Juventude, o clube pequeno do interior do Rio Grande do Sul, que já foi comandado pela Parmalat. Quando foi quarto do Brasil em 1997. Com o que restou de dinheiro italiano, ganhou a Copa do Brasil em 1999. Disputou a Libertadores em 2000.

Mas depois, sem aporte financeiro, veio a decadência. E o clube acabou caindo para a Quarta Divisão do país, a Série D, em 2010. Foram três anos se reestruturando, até a subida à Terceira Divisão.

O sonho era uma reviravolta este ano. Foi montado um elenco competitivo. O técnico Picoli não correspondeu às expectativas. E foi demitido em agosto. Antônio Carlos foi convidado a substituí-lo. Voltou ao clube onde viveu o triste episódio com Jeovânio.

O treinador assumiu a equipe em agosto. Conseguiu levar o humilde time para as quartas de final da Copa do Brasil, eliminando o São Paulo. Atualmente duela com o Atlético Mineiro pelas semifinais. Perdeu o primeiro por apenas 1 a 0 em Belo Horizonte. Há esperança real para sonhar.

Mas a maior conquista aconteceu ontem. Depois de penar por três anos na Série C, o Juventude voltou à Série B. O time tinha pela frente o Fortaleza, decidindo a vaga no Ceará. Depois do 0 a 0 em casa, o time gaúcho conseguiu empatar em 1 a 1 e ficou com um dos quatro lugares reservados aos clubes para a Segunda Divisão.


imagens da Internet

Houve uma grande festa. Antônio Carlos foi considerado o grande herói da classificação. O homem que mudou a mentalidade do clube de Caxias. Capaz de introduzir conceitos que aprendeu nos dois anos trabalhando como auxiliar da Roma e do Shakhtar Donetsk.

A Série C segue e os quatro classificado para a Série B vão disputar o título. De um lado, Guarani e ABC. Do outro, Juventude e Boa Esporte. Lógico que o clube gaúcho fará tudo para ser campeão. Mas o foco é mais ambicioso. Eliminar o Atlético Mineiro. Chegar às semifinais da Copa do Brasil e, quem sabe, repetir 1999.

Independente se o Juventude vai ou não conseguir essa vaga, Antônio Carlos surge como nova opção no mercado para os clubes grandes. Ou não. Dirigentes não esqueceram a campanha que a torcida vascaína fez para vetá-lo como técnico.

O primeiro clube a aceitar negros no seu time não quis ter como treinador uma pessoa envolvida em caso público de racismo. O veto aconteceu em dezembro de 2009. Clubes grandes do Rio, de São Paulo, de Minas e do Rio Grande do Sul seguem tendo dirigentes que não contratariam Antônio Carlos. Por conta da sua atitude com Jeovânio.

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Antônio Carlos deu inúmeras entrevistas, se dizendo arrependido.

"Me arrependo para sempre do que fiz. Tive de comparecer ao fórum. Quando tinha de viajar por 15 dias, eu tinha de comunicar minha ausência. Paguei ali mesmo. Paguei fora de campo e estou pagando até hoje. Tenho amigos negros, grandes amigos, como Aldair, Cléber e Cafu. Meus amigos negros me deram força. Muitos foram ao casamento da minha filha.

"Foi um lance que aconteceu e que, infelizmente, ficará marcado para sempre. Como a cabeçada do Zidane no Materazzi, na final da Copa do Mundo de 2006."

Antônio Carlos tem razão.

Embora esteja vivendo um dia de plena alegria, ele sabe.

Continua marcado.

A cena envolvendo Jeovânio foi nojenta.

O ex-jogador do Grêmio manteve o que falou na época. Nunca o perdoou.

"Ninguém pode julgar uma pessoa pela cor, me senti mal, humilhado, principalmente quando cheguei em casa, a família chorando... Tenho sentimentos e todo mundo viu que eu não fiz nada...

"Não é porque ele pediu desculpas, que está tudo bem...

"O que me deixa triste é que não é nenhum juvenil, mas um jogador que foi campeão onde passou, jogou na Seleção. Se fosse um menino, tudo bem, mas é um cara que já é pai de família, que tem uma história no futebol...

"Os grandes jogadores do Brasil são negros, o melhor do mundo - Ronaldinho Gaúcho - é negro...

"Essa pessoa - Antônio Carlos - é muito pequena, tem a mentalidade de uma criança. Espero que nós, negros, consigamos garantir nosso espaço. Que passem a olhar para a gente de forma diferente...

"Graças a Deus aqui no Grêmio as pessoas estão me ajudando. Eu gostaria também de ter recebido hoje um telefonema do meu pai, mas ele não pôde ligar para mim ainda, devido ao trabalho dele. Ele trabalha como pedreiro."

Antônio Carlos foi suspenso por 120 dias e mais quatro dias pelo STJD. Além de mostrar a pele branca ao jogador negro, ele deu a seguinte declaração à Folha de São Paulo, no dia 17 de março de 2006.

"Na hora você está nervoso e nem pensa naquilo que fala. E devo ter falado a palavra "macaco". Eu não vi na televisão. Mas sei que saiu um monte de palavrão. Se falei, o que posso fazer é me desculpar."

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O que já é ruim, ficou pior.

Em Belém, um dos maiores ídolos do Paysandu, o ex-atacante Robgol ainda lembra de maio de 2005.

"No início do jogo entre Paysandu e Juventude, ele me deu uma porrada no estômago. Eu reclamei com ele. Aí, ele me xingou e falou: Para você ganhar todo dinheiro que eu ganhei até hoje, vai ter de jogar 60 anos naquela terra de índio. Ele ofendeu a todos em Belém.

"Na primeira jogada, ele deu uma porrada na minha costela. Depois, deu uma cotovelada no rosto, que me fez sangrar. O árbitro não o expulsou. Fiquei indignado. Mas enfaixei a cabeça, voltei e fiz dois gols. O primeiro, inclusive, em cima dele. Para provocá-lo, fiz o gesto de puxar uma flecha.

"Mas a índole não muda. Ele não teve conduta de homem. Ficou comprovado depois, com o que aconteceu com o Jeovânio, que é racista", acusou Robgol.

"O que aconteceu enquanto éramos ambos jogadores ficou no passado. Cada um está aberto a falar o que quiser", respondeu Antônio Carlos, em 2011.

Só ele está completamente enganado.

Suas atitudes com Jeovânio e Robgol continuam presentes.

Mesmo com a festa do Juventude.

Ele carrega esse fardo.

Qualquer dúvida, pergunte à diretoria do Vasco da Gama.

Por isso, a alegria de Antônio Carlos é triste.

Ele sabe que há situações que os tribunais podem perdoar.

Mas o futebol, não...

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