The Baggios explora som mais sujo e truculento

Folha Vitória - Entretenimento

São Paulo - A capital oficial do rock mudou de endereço. Pelo menos neste último trimestre de 2016. Agora ela fica em São Cristovão, na região metropolitana de Aracaju, no Sergipe. Foi lá que o duo Julio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Carvalho (bateria) formaram a banda The Baggios, uma das grandes apostas do gênero. Com riffs sujos, letras eloquentes cantadas em português e uma grande influência setentista que vai de Led Zeppelin a Novos Baianos, os jovens acabam de lançar Brutown, seu terceiro disco de estúdio. "Nos últimos anos São Cristóvão ganhou uma nuvem cinzenta devido ao seu caos político. Isso acabou interferindo no nosso dia a dia. A cidade era conhecida por ser muito pacata e, de repente, o índice de violência cresceu absurdamente. Houve problemas de corrupção. Eu vivenciei coisas ruins ali. Tudo isso mexeu muito comigo e o reflexo veio nas letras deste novo trabalho", afirma o guitarrista e vocalista Julio Andrade.

Estigma e Brutown, as duas primeiras faixas do álbum, falam sobre violência e tempos sombrios. Ambas traçam o clima soturno da nova fase do duo. Em Sangue e Lama, necessariamente nesta ordem, a banda faz uma reflexão sobre a tragédia de Mariana, em Minas Gerais, e o massacre no Bataclan, em Paris. "Foi um processo muito novo para mim. Eu nunca tinha me cobrado tanto para passar uma mensagem por intermédio das músicas. O conceito do álbum foi justamente pensado nisso. Queríamos transmitir alguma coisa para a galera. O mundo está de ponta cabeça e o Brutown é o espelho dele", complementa Júlio.

Produzido por Felipe Rodarte no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, o terceiro trabalho da banda mostra o amadurecimento da dupla com arranjos mais complexos e que excedem a zona de conforto guitarra e bateria. O diferencial sonoro, entretanto, foi personificado no nome de Rafael Ramos. Convidado para tocar teclado e baixo nas gravações do disco, o músico deu diretrizes mais robustas à sonoridade de Julio e Gabriel. Ele, inclusive, participará dos próximos shows do The Baggios, incluindo o de lançamento do álbum, na próxima sexta-feira, 14, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

"A entrada dele me fez um guitarrista mais realizado. Eu estava sentindo falta de solar. Queria explorar a sonoridade do meu instrumento. Fazer música com duas pessoas é uma parada desafiadora. É difícil preencher aquele vazio que fica sem o contrabaixo. Fiz vários experimentos com pedais e tal. Estou há 12 anos tocando e compondo como um duo. Precisávamos de uma coisa nova e o Brutown impulsionou isso. O Rafael é talentoso e tem uma independência musical muito grande com as mãos. Ampliamos nosso leque de possibilidades. Melhorou", afirma ele.

Brutown conta com várias participações. Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Emmily Barreto (Far From Alaska), Gabriel Thomaz e Erika Martins (Autoramas) e Felipe Ventura (Baleia) são alguns dos nomes. Para o show do dia 14, eles vão apresentar o novo álbum na íntegra e relembrar músicas dos discos anteriores, como Esturra Leão, O Azar me Consome e Salomé me Disse. Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Teago Oliveira (Maglore) e o grupo Vivendo do Ócio dividirão o palco com o duo do Sergipe.

Trajetória.

Em 2016, o grupo foi uma das atrações do festival Lollapalooza e chamou a atenção do público que marcou presença no Autódromo de Interlagos naquela ocasião. As turnês do The Baggios passaram ainda por mais de cinquenta cidades brasileiras, e recentemente pelo México, onde fizeram seis apresentações. "A gente evoluiu muito nos últimos anos e acho que este trabalho reflete bem isso. A entrada dos teclados, o show no Lollapalooza: tudo isso nos deu mais visibilidade. Crescemos como músicos e passamos a ver as coisas de outra forma", diz Julio.

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