Jô Soares dirige Tróilo e Créssida, uma comédia sombria

Folha Vitória - Entretenimento

São Paulo - Jô Soares mexe nos óculos, pensa alguns segundos até encontrar a melhor definição: "É como Romeu e Julieta, mas ao contrário: aqui, todos amam mais a si mesmos que o próximo". É como ele apresenta Tróilo e Créssida, uma das mais desconhecidas peças de William Shakespeare (1564-1616) que estreia sexta-feira, 15, no Teatro do Sesi, sob sua direção. "Existe o amor, mas é mais importante sobreviver. Por isso que, em vez de chamá-la de comédia sinistra, como habitualmente acontece, prefiro nominá-la de comédia sombria", continua Jô, que comanda um elenco de 18 atores, além de cinco mulheres musculosas que, em cena, se parecem com amazonas.

De fato, escrita em 1601, Tróilo e Créssida figura entre Hamlet (também de 1601) e Otelo (1604), peças que marcariam o seu ciclo de grandes tragédias. E a trama de amor dessa que é considerada a última comédia dura e complexa foi inspirada em um poema do inglês Geoffrey Chaucer (1310-1400). A história se passa durante a Guerra de Troia. Shakespeare trata os problemas éticos e morais em dois planos, o do amor e o da guerra, nos quais lealdade e traição surgem de forma quase espelhada. "É o texto menos encenado de Shakespeare provavelmente por causa do desconforto que causa na plateia. Mas, ao mesmo tempo, é uma peça que se aproxima muito do Brasil atual", conta o encenador, que fez a adaptação ao lado de Mauricio Guilherme.

Isso porque a montagem defende a tese de que "a guerra e a luxúria nunca saem de moda", uma das virulentas frases disparadas por um criado grego, Térsito. O conflito em Troia é apenas um motivo para mostrar o desfile de militares estúpidos, nobres fúteis e irresponsáveis, falsos heróis e mulheres sedutoras, mas calculistas. "Ninguém presta", diverte-se Jô. "A guerra já vem sendo travada há anos, mas os militares preferem não se meter, buscando uma vida mais amena. O caráter dos personagens é muito maleável e eles vão ser facilmente comparados a figuras da política brasileira, nem precisei forçar a barra."

"Aqui, decretamos a morte da moral", observa a atriz Maria Fernanda Cândido, que vive Créssida, jovem grega que vive em Troia, e cuja beleza desperta a paixão de Tróilo (Ricardo Gelli), filho mais moço do rei. "Se comparada a Julieta, Créssida é a mulher que não tomaria o veneno mesmo vendo seu amado morto." Tanto é verdade que, na Inglaterra dos séculos 16 e 17, Créssida tornou-se o símbolo da mulher infiel, enquanto Tróilo representava o tolo traído.

O valoroso ator, diretor e pesquisador Sérgio Viotti, que morreu em 2009, descreve, em seu bem apurado livro O Teatro de Shakespeare (WMF Martins Fontes), Tróilo e Créssida como uma peça de valores contrastantes. "O texto é tão licencioso e grosseiro que não poucos estudiosos acreditam que a trama foi escrita para encenações fechadas", argumenta. "A peça reflete não somente o estado de espírito de Shakespeare na época, como de tudo o que estava acontecendo: insegurança política, cansaço com as guerras que pareciam não ter fim, heróis arruinados e desmoralizados, a morte como preço da traição. Vive-se em um mundo de interesses pessoais, de bajulação, de falsidade. A virtude cede lugar à desonra. E o amor vira criado da luxúria."

E o texto destoava tanto do resto de sua obra que Shakespeare, segundo conta Jô, escreveu duas versões de Tróilo e Créssida: uma para o povão e outra para a corte. "Ele era, antes de tudo, um empresário, pois não apenas escrevia como cuidava também da produção das peças. Portanto, sabia como contentar seus diversos tipos de público."

Ao preparar sua montagem, no entanto, Jô preferiu controlar a dose de fel do texto original e caprichar no humor, o que deixa sua encenação mais leve e palatável, preocupado em não perder o senso crítico. "Em nossa versão, Mauricio e eu preservamos a força poética de Shakespeare que aparece mesmo quando ele usa uma linguagem mais vulgar. Isso acontece porque gostamos de exercitar uma faixa de humor semelhante."

O apresentador, que deve deixar a Globo no fim do ano, conta que há anos espera a chance de dirigir essa peça tão rara. "Em 2013, fui convidado por Erike Busoni e Alexandre Brazil para participar do Projeto 39, que ambicionava montar toda a dramaturgia shakespeariana em dez anos. Eles me sugeriram Tróilo e Créssida e fiquei fascinado pelo texto, mas não foi possível produzir naquele momento", conta. "Dessa vez, quando o Sesi nos convidou para reinaugurar seu teatro, conversei com (o produtor) Rodrigo Velloni, que conseguiu levantar esse projeto."

Trata-se, de fato, de um trabalho luxuoso, a começar pela força do elenco - além de Maria Fernanda e Ricardo Gelli como os protagonistas, estão também Tuna Dwek, Marco Antônio Pâmio, Eduardo Semerjian, Luciano Schwab, Giovani Tozi, Nícolas Trevijano, Paulo Marcos, Adriane Galisteu, Fernando Pavão, Ando Camargo, Luiz Damasceno, Guilherme Sant’Anna, Kiko Bertholini, Felipe Palhares, Ataíde Arcoverde e Otávio Martins.

O contrato de Jô Soares com a Globo termina agora em dezembro, mas ele vê o fim como algo distante. "Não gosto de pensar nisso, tenho muito o que gravar", afirma ele que, desde 2000, comanda um talk show na emissora.

Uma coisa é certa: apesar da imensa vontade, ele garante que não vai convidar Silvio Santos para ser seu último entrevistado. "Minha produção insiste, mas não quero fazê-lo passar pelo constrangimento de recusar. Se, quando eu estava no SBT, ele recusou ser entrevistado, por que aceitaria agora, quando certamente tiraria ibope da própria emissora?"

Jô se lembra que, quando trocou a Globo pelo SBT, em 1988, sua intenção era a de ter um programa semanal de entrevistas. "O Silvio não aceitou e disse que só faria sucesso se fosse diário. E ele estava certo."

Com o tempo, Jô alcançou o mesmo nível de nomes consagrados do talk show, como Johnny Carson e Steve Allen, ao comandar entrevistas em que o apresentador é, ao mesmo tempo, ácido, pervertido, brilhante, amistoso.

view Folha Vitória - Entretenimento