Terríveis bonecos de espuma

Zero Hora

Não compreendo a lógica dos mascotes, as fantasias dos mascotes. Não é um modelo para agradar às crianças. Pelo contrário, apenas assusta, apenas traz medo daquele cabeção pendendo de um corpo minúsculo.

Campanhas infantis, Disney, personagens de quadrinhos usam esse recurso, porém vejo unicamente crianças berrando quando o mascote se aproxima. Os pequenos correm para longe, entram em pânico. É uma choradeira súbita, infinita. Não importa se é o inofensivo Pateta ou o doce Cebolinha ou a bela recatada do lar Minnie. Tem algo de monstrengo, de invasão de alienígenas, de inseto multiplicado de tamanho.

Como podemos considerar natural, por exemplo, a Patrulha Canina andando em duas pernas e com as cabeças enormes e decepadas de fantoches? São piores do que palhaços com maquiagem borrada.

Não provocam leveza e contentamento, simpatia e atração. A voz abafada também não inspira confiança, é trabalho escravo, um animador está preso lá dentro sofrendo desidratação. Como rir de quem fala gemendo, como acreditar num timbre sufocado de sequestrador?

Por que você acha que o boneco sempre tem um acompanhante? Por que ele sempre vem de mãos dadas com alguém? Para não cair e para enxergar aonde está indo. Coitado, ele trabalha vendado, mergulhado na treva, levantando halteres com a força do pescoço.

A criança entende que é uma farsa, que estão comprando a sua ternura. Que não é o Pateta ou o Cebolinha, afinal ambos são desenhos e não sairiam da agitação de suas histórias para tirar selfie e ficar acenando, coisas de adulto. Diante dessa situação, qualquer balão infantil no pensamento estoura.

Só vejo pais desesperados com a desagradável surpresa, confortando seus pequenos e oferecendo colo: "Não é para ter medo", "Ele não faz mal", "Ele é amiguinho".

Eu detestava os mascotes em minha infância, os meus filhos detestavam, os meus netos vão detestar. Não é um mal hereditário, e sim cultural mesmo.

Eles foram feitos para ser vistos de longe, das arquibancadas do estádio. Já perto, são aberrações desajeitadas e imprevisíveis.

Será que ninguém nunca disse a verdade? Criança não gosta de boneco de espuma. É absolutamente aterrorizante.

Leia outras colunas de Fabrício Carpinejar


view Zero Hora