Nada de esculhambar Porto Alegre

Zero Hora

O gaúcho intelectual adora esculachar o Rio Grande do Sul no 20 de Setembro. Pega bem com outros gaúchos intelectuais.

Se o gaúcho intelectual mora em São Paulo, então, a primeira coisa que ele faz, logo de manhã, é pegar uma notícia ruim sobre o seu Estado e publicar no Facebook com a legenda: "Sirvam nossas façanhas...".

Ele fica contente quando faz isso. Ele se sente superior. Ele se sente moderno.

Eu, aqui, longe de mim o ufanismo, fico com vergonha quando a torcida canta o Hino do Rio Grande em cima do Hino Nacional, ou quando desvairados falam em separar-se do resto do país, mas sei que conhecer a tradição e a história do lugar de onde você vem é conhecer a si mesmo, e conhecer a si mesmo é conselho que já dava o Oráculo de Delfos, e depois dele Sócrates, Pitágoras e Heráclito, e depois deles Nietzsche e Schopenhauer, e depois deles Freud. Ou seja: trata-se de bom conselho.

Estando a 8,3 mil quilômetros longe da minha cidade, uso o 20 de Setembro para contar ao meu filho a história do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, precisamente para que ele saiba quem ele é. Afinal, para isso mesmo servem efemérides e monumentos.

Mas é exatamente por ser porto-alegrense que sei que a cidade se deteriorou de umas décadas para cá.

Não vou eu também esculhambar a cidade em que nasci, o que sinto é a angústia de quem pensa e se preocupa com aquilo de que gosta. Gosto de Porto Alegre, por isso me preocupo e fico me perguntando: o que houve, por volta dos anos 1980, que tirou de Porto Alegre o entusiasmo e a imaginação?

Não foi algo brusco, não foi uma ruptura visível. Foi gradual. Nos anos 1980, Porto Alegre disputava com Belo Horizonte a medalha de bronze como cidade mais importante do Brasil. Era São Paulo com o ouro, Rio com a prata e Porto Alegre e Bê Agá ali, ali. Hoje, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília certamente passaram Porto Alegre, e talvez Salvador, Fortaleza e Recife.

Pense nas áreas de convivência, que é boa medida para avaliar uma cidade. Em 1935, a Redenção sediou a exposição comemorativa ao centenário da Revolução Farroupilha. O Parcão e o Marinha do Brasil são dos anos 1970. Nossos maiores parques não são de hoje, portanto.

O footing da Rua da Praia teve seu auge nos anos 1940, 1950 e 1960, mas estendeu-se até os 1980. Você saía da Confeitaria Matheus, onde havia se deliciado com uma empadinha de galinha, e mergulhava num mundo de livros da Globo ou da Sulina. E havia os cinemas de rua. Os finos eram o Coral e o Cinema 1, os cult eram o Bristol e o Baltimore, na Assis Brasil havia o Rey e o Real, e tantos, tantos mais.

A noite se espalhava: você podia ir ao Bonfim, à Cristóvão, à Getúlio, à Cidade Baixa, à Protásio, à 24, à Independência...

O que aconteceu?

Tenho uma suspeita.

Não pense que tem a ver com política. É mais profundo e mais arraigado.

Vou contar o que é amanhã.

Leia todas as colunas de David Coimbra


view Zero Hora