“Traição” de políticos tem peso na hora de o eleitor decidir o voto?

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Traidores infestam a classe política brasileira. Ao menos é o que dizem parlamentares em Brasília, diante da atual crise política, e uma profusão de internautas nas redes sociais. Mas será que isso pode influenciar a cabeça e o voto do eleitor, enquanto o País caminha para disputadas eleições municipais?

Não são poucos os “traidores da República”. A base petista no Congresso, agora na oposição, traça esse perfil para o presidente Michel Temer desde o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff, acusando-o de abandonar a mandatária após a famosa carta em que se descreveu como um “vice decorativo”.

Mas quem mais vem sofrendo com a alcunha atualmente são os senadores da República. E vem sobrando pra todo mundo. Quem sofreu nesta semana foi a senadora Rose de Freitas (PMDB/ES), líder do governo Michel Temer no Congresso.

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Ela declarou na sexta-feira (2) que se arrependeu de ter votado pela manutenção dos direitos políticos de Dilma, após votar pelo afastamento definitivo.

“Votei pelo impeachment, mas, na segunda votação, votei na pessoa. Achei que ela deveria ter a oportunidade de trabalhar, de ter o livre-arbítrio dela preservado, de continuar a vida dela. Mas vou dizer para você algo que ainda não disse a ninguém: estou muitíssimo arrependida, sabia? Se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria. O Senado fez um gesto de generosidade com ela. E o que ela fez? Em seguida, fez um discurso profundamente raivoso, ofensivo, vestida de vermelho, no Palácio do Alvorada. Aquilo não condizia com alguém que tinha acabado de receber praticamente um indulto do Senado para tocar a sua vida política e pessoal”, disse ela a’O Antagonista.

“Ficou com pena de Dilma, Rose de Freitas? Vai para o PT, traidora do povo!”, escreveu o perfil @blogkatia no Twitter, entre outros tantos usuários.

O racha na votação do impeachment provocou esse sentimento de “traição” em quem era favorável ao afastamento da presidente. Para quem era contra o impeachment, a traição veio de outra forma.

Eleitores (ou agora ex-eleitores) da senadora Marta Suplicy (PMDB/SP) não pouparam críticas à parlamentar por ela ter abandonado o PT, migrado para o partido de Temer e apoiado o impeachment.

“Cunha deve estar deliciado. Beijar uma TRAIDORA deve ser fetiche sexual pra alguem dessa laia ! Triste Marta !!”, escreveu @AngelaMariaMees, ao lado de uma foto com Marta, Temer e o deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB/RJ). “Traidora, burguesa e golpista” foram os adjetivos escolhidos por @thaaisbueeno.

“Faz sentido [acusá-la de traição]”, diz o sociólogo Paulo Silvino Ribeiro, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

— Grande parte de seus votos vêm de uma parcela de eleitores que tem um vínculo com o Partido dos Trabalhadores e associam a Marta a uma figura histórica para o PT. É dessa perspectiva que os seus eleitores, de outras eleições e de agora, veem nela uma traidora, porque talvez ela tenha traído uma causa, um partido.

Um estudo realizado na PUC de Goiás, durante as eleições de 2012, sobre “Erros e Falhas das pesquisas Eleitorais e Suas Influências na Decisão de Voto do Eleitor”, trata a “traição” como símbolo de uma “novidade repugnante” durante o período eleitoral.

“No período de campanha política sempre tem novidade. Diuturnamente a sociedade é surpreendida com novidade favorável ou contrária à sua intenção ou preferência. Por exemplo, uma novidade repugnante é quando uma pessoa que há muito tempo convive bastante ligada à outra, com grande amizade, cordialidade e urbanidade, por um simplório fato, vem lhe trair. Para a pessoa de pretensões políticas, a novidade mais desagradável é a traição de um correligionário ou companheiro de partido político, e, quando isso ocorre, as ofensas à honra, imagem e reputação são flagrantes nos discursos políticos”, escrevem os autores.

Ainda assim, para Ribeiro, da FESPSP, o efeito disso para a campanha de Marta tende a ser restrito, já que o sentimento de traição circula entre os eleitores que se identificam historicamente com o PT.

— Os demais eleitores, se não são maioria, mas uma parte expressiva, votam nela porque a associam ao bilhete único, aos CEUs, corredores de ônibus. Esse eleitor é que faz com que ela seja um nome importante na disputa.

O baixo alinhamento ideológico dos eleitores com os partidos, sobretudo em eleições municipais, é outro motivo que garante a um político poucos sobressaltos na hora de trocar de partido ou até de posição.

De acordo com uma pesquisa Datafolha de outubro de 2013, a ideologia pouco interfere na decisão de voto. “Há uma quantidade bem maior de eleitores identificados com valores de direita do que de esquerda. O primeiro grupo reúne 49% da população, enquanto os esquerdistas são 30%. Isso, porém, produz pouco impacto nos índices de intenção de voto para presidente em 2014”. À época, Dilma liderava as pesquisas de intenção de voto com 42% da preferência, ante 21% de Aécio Neves e 15% do governador de Pernambuco, 15%. Ela liderava entre todos os espectros políticos, da direita à esquerda.

Para Silvino, isso acontece porque, “do ponto de vista ideológico, não temos culturalmente, na nossa pratica política, esse costume de atentar às ideologias partidárias”.

“Pensando no eleitor mediano, predomina o voto de natureza personalista. Votamos em pessoas, e não em partidos e plataformas”, afirma.

O cientista político David Fleischer, da UnB (Universidade de Brasília), corrobora essa visão e afirma que isso tende a se intensificar nas eleições municipais. “Usualmente o eleitor não liga muito para o partido, ele liga para a pessoa do candidato. Nem sempre ele sabe a qual partido o candidato pertence. Numa eleição municipal, ele vota na pessoa, e não no partido. Então trocar de partido não faz muita diferença, porque a pessoa é que é o candidato, e o eleitor vota nominalmente, no nome do candidato que ele conhece”.

Para Silvino, “isso mostra que mais importante [para um partido] do que ter ideologia é ter um bom candidato”.

O cientista político Bolívar Lamounier, sócio-diretor da Augurium Consultoria, tem uma visão semelhante. “O troca-troca é uma prática tão enraizada que o eleitor já o vê com certa indiferença, considerando que os políticos são todos muito cínicos a esse respeito. Na eleição municipal, há uma tendência forte a escolher o candidato individual, mais que o partido. Isso também reduz a influência negativa de mudanças [partidárias]”, completa.

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