Sensação de insegurança com ataques nos EUA pode dar a vitória a Trump, diz especialista

Sensação de insegurança com ataques nos EUA pode dar a vitória a Trump, diz especialista

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Eventual onda de ataques tende a alavancar a campanha do republicano Donald Trump, segundo Sidney Leite Reuters

Três ataques nos Estados Unidos este final de semana deixaram as autoridades do país em alerta e elevaram os temores de que a América do Norte pode voltar a ser alvo de atentados terroristas justamente em meio a um conturbado processo eleitoral.

Para o pró-reitor acadêmico e professor de Relações Internacionais da Faculdade Belas Artes, Sidney Leite, a sensação de insegurança gerada na população em decorrência de uma eventual onda de ataques tende a alavancar a campanha do republicano Donald Trump — que adota bandeiras como a deportação de imigrantes legais.

— Quem define o tema que vai pautar uma eleição sempre acaba ganhando. É a percepção de medo, uma sensação que favorece o comportamento irracional. E é justamente nessa onda que o Trump vem surfando.

Segundo Leite, apesar de terem havido ataques com mortos durante o governo do democrata Barack Obama, o serviço de inteligência norte-americano “tem sido relativamente eficaz” no desmonte de células e grupos terroristas — especialmente quando comparado a países europeus, como a França. Ainda assim, ataques menores durante o período eleitoral podem fortalecer o discurso de que a gestão Obama “não fez o necessário”.

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— Desde o início da campanha, Trump colocou o terrorismo como um tema prioritário. É como se agora ele pudesse levantar a cabeça, olhar para os eleitores Hillary e dizer: isso de fato é real. Ele recompõe um tema na agenda que é um tema dele, que é os Estados Unidos inseguros.

Outro fator que o milionário conservador deverá explorar cada vez mais é o fato de que a rival Hillary Clinton foi Secretária de Estado (cargo semelhante à de Ministro das Relações Exteriores no Brasil), e foi responsável por ações de política externa que acabaram influenciando negativamente em algumas regiões como na Líbia, país que mergulhou em uma sangrenta guerra civil após a intervenção norte-americana.

Autoridades norte-americanas investigam se há conexão entre os atentados realizados no final de semana nos Estados Unidos Reprodução (New York Daily News)

Há apenas dois meses das eleições, a agenda eleitoral norte-americana vai entrar na reta final a partir da semana que vem, com a realização do primeiro debate entre os presidenciáveis. Apesar de contar com candidaturas menores, a discussão deverá ser protagonizada pelos antagonistas Hillary e Trump, que disputam os votos dos eleitores em uma disputa cada vez mais equilibrada e na qual ainda não desponta um líder claro.

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Neste cenário, Leite avalia que Trump tende a se sair melhor nos debates porque tem “a linguagem da TV” — o milionário ficou famoso justamente por conta de um reality show que apresentava. Por outro lado, ele afirma que Hillary “renasce das cinzas” quando está sob pressão, e pode virar o jogo “porque tem mais conteúdo”. No entanto, também será necessário traduzir essa percepção em votos.

— Ela tem que ganhar o entusiasmo do eleitor. O Trump consegue levar o pessoal para a rua para fazer a campanha dele. Com a Hillary você não vê isso. É uma coisa muito institucional, do partido.

Ataques

Autoridades norte-americanas investigam se há conexão entre os atentados realizados no final de semana nos Estados Unidos. Um dos ataques, no qual um homem esfaqueou nove pessoas em um shopping em Minnesota, foi reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico. Um segundo ataque, realizado no bairro de Chelsea, em Manhattan, feriu 29 pessoas e teve como arma uma bomba feita com uma panela de pressão similar à utilizada na Maratona de Boston em 2013.

Após uma manhã de buscas, as autoridades norte-americanas detiveram nesta segunda-feira o afegão Ahmad Khan Rahami, de 28 anos. Ele é acusado de ter colocado a bomba no bairro de Chelsea, em Nova York, no sábado (16).

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Professora de Relações Internacionais da UniSantos (Universidade Católica de Santos), Natalia Fingermann afirma que os Estados Unidos "sempre foram o alvo" das organizações terroristas. Segundo a especialista, o aparente aumento de atentados ligados a extremistas nos Estados Unidos — como os ataques em San Bernardino e em Orlando — pode se dar inclusive por influência de declarações polêmicas de Donald Trump, que podem fazer com que árabes norte-amercianos sintam a necessidade de "se defender".

— A grande pergunta é: o que mudou em relação à estratégia internacional desses grupos? Como o Estado Islâmico conseguiu captar mais dissidentes internos para fazer esses ataques lá agora? Não é que eles estão indo para os Estados Unidos, eles já estavam lá. Mas o que faz com que eles resolvam cometer ataques?

* Por Luis Felipe Segura

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